nun
Cada vol. 1
I. CoiMf
III. A Eng^c
— V. O Eoiq
iieiílior fio
IX, A llulli
XII. Corres
de Castro 4
A 5C
RÔlG1;8»
-^
I ARBOR I
Presenteei to the
LIBRARY ofíhe
UNIVERSITY OF TORONTO
by
Professor
Ralph G. Stanton
ANCQ
6 320
nana. —
ETelizes.
-Til. O
leina* —
— XI e
• Tieira
\ Tartarin)
&8«
rol. de 200
ie 160 pag.
;, l vol. de
N.« 1 — Po:
1 vol, de 17B
N.»2-D.
N.»3 — Ma
paginas.
N.» 4 - Sai
N.-5 — Ne
N.«6 -O .
210 paginas.
N.» 7 — Jettatura, He Theophile Gauthier, 1 vol. de 170 paginas.
N.* 8 — Casa com escriptos, de Carlos Dickens, 1 vol. de 160
j5,o *9 _ o canteiro de Saint-Point, de Mamartine, 1 vol. de 180
Rosa e Ninette, de A. Daudet.
Primeiro amor, de Ivan Tourgueneff, 1 vol. de 160 pag.
Peccado mortal, de André Theuriet, 1 vol. de 170 pag.
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O tanoeiro Nuremberg, de Hoffmann, 1 vol, de 170 pag.
Dinheiro maldito (Polikouchka). costumes russos, pelo
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O padre Daniel, de André Theuriet 1 vol. de 160 pag.
Um coração simples, de Gustave Flaubert, l vol. de
Yan, (\o Jenn Rameau, 1 volume de 170 pap.
O tio Scipião, de André Theuriet, 1 vol. de 1% pag.
Diário de uma mulher, de Octávio Feuillet, 1 vol. de
O crime do juiz de Paulo Féval, 1 vol. de 170 pwg.
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N.*» 13 e IA — A aventura d'um polaeoy por Victor Cherbnliec, tradueçio
de Maria Amália Vaz de Carvalho, 2 vol.
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N.*' 20 e 21 — ^ irmã da Caridade, por Emilio Castellar, traducçâo de L.
Q. Chaves 2 vol
N.«* 22 — ARgaUias de historia portuguexa, por Pinheiro Chagas,]! vol.
N.* 23 — A Cruz de Brilhantes, por A. Campos, 1 vol.
N.» M— Contos, de Affonao Botelho, 1 vol.
N.* 25 — Contos phantastícos, por Theophilo Braga, 1 vol.
N.<* 26 — O mysterio da estrada de Cintra, por Eça de Queiroz e fiamalho
Ortigão, 1 vol.
íí.* 27 —O naufrágio de Vicente Sodri rom. histórico de P. Chagas 1 voU
N.» 28 — FWoiroda, por Alfredo Mesquita . 1 vol.
N.» 29 — O Bacharel Ramires , por Cândido Figueiredo, 1 rol.
ti." 30 e 31 —Amor á antiga romance de Caiei, 2 vol.
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N.» 9 — V(mando, por Guy de Maupassant.
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* N.» 14 — Beatriz, por Rider Haggard.
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• N.* 16 — Lise Fleuron, por Ohnet.
N • 17 — Os dois rivaes, por Armand Lapointe.
N.* 18 — O ultimo amor, por Jorge Ohnet
N.« 19 — Um Búlgaro, por Ivan Tourgueneff.
N.* 20 — Memorias d'um suicida, por Mazime du Camp.
N.* 21 — Forte como a morte, por Guy de Maupassant.
• N.« 22 — A alma de Pedro, de J. Ohnet
N.» 23 — Camilla, de Guérin-Ginisty
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N.* 26 — Magdalena Férat, por Emilio Zola.
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N.« 28 — Divida de ódio, por Jorge Ohnet
N.» 29 — Mentiras, por Paul Bourget.
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N.« 31 —A montanha do Diabo, por Eugénio Sue.
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N.« 38- A confissão de Carolina, romance.
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N.* 41 — 0 abbade de Faviôres, romance, por J. Ohnet.
N.* 42 — A agonia de uma alma, romance, por Ossip Fchubin.
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N.« 46— Morta damor, por Albert Delpit.
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N.» 48— Viagem sentimental, por Steme.
M.* 49—0 nulhão do tio Raclot, por Emile Richebourg.
Todos 08 vol. oom este signal * estio esgotados maivlo ser re-
impressos.
OBRAS
DE
CAMILLO CASTELLO BRANCO
EDIÇÃO POPULAR
:xii
CORRESPONDÊNCIA EPISTOLAR
VOLUMES PUBLICADOS
I — Coisas espantosas.
II — As três irmans.
III — A engeitada.
IV — Doze casamentos felizes
V — O esqueleto.
VI — O bem e o mal.
VII — O senhor do paço de Ninães.
V III — Anathema.
IX — A mulher fatal.
X — Cavar em ruinas.
XI e XII — Correspondência epistolar.
CORRESPONDENCrA
EPISTOLAR
ENTRE
mi imm mu i mm
CAMILLO CASTELLO BRANCO
RSCRIPTA DURANTE OS DOUS ÚLTIMOS ANNOS DA VIDA
DO ILLUSTRE ORADOR
^rOIl.XJ3VCE II
SEGUNDA EDIÇÃO
LISBOA
Parceria António Maria Pereira — Livraria Editora
Rua Augusta — 5o, 52 e 54
1903
LISBOA
Typographia da Parceria António Maria Pereira
Rua dos Correeiros, 70 e 72, 1.**
ADVERTÊNCIA
Assim nas cartas de Vieira de Castro como
nas que vão seguir, nem ousei substituir pala-
vra do meu amigo, nem minha, de modo, se-
quer, a melhorar a forma. O que me pareceu
desconveniente, risquei. Gomo testemunhas
d'esta verdade, oífereço o editor e composito-
res d'estes livros, pois que lhes entreguei os
manuscriptos originaes.
Ha, nas minhas cartas, um predicado muito
insistente, senão enfadonho. E' o repetido quei-
xar-me das minhas enfermidades. Aos doentes
não peço desculpa ; — que esses bem sabem
como nós somos, os valetudinários. Aos que
tem saúde peço indulgência, em paga do bene-
ficio que Deus lhes dispensa.
Diante de mim tenho vinte e duas cartas do
6 Correspondência epistolar
meu amigo e trinta e seis minhas que vou
queimar.
São apreciações de cousas e pessoas mais
ou menos implicadas e compartes na catas-
trophe de 8 de maio; ou então juizos e con-
ceitos de inimigos e falsos amigos de Vieira de
Castro, aos quaes elle perdoaria, na hora do
trespasse, se os podesse vêr entre as alegrias
do passado e os pavores da morte.
Quando eu lhe escrevia as primeiras cartas,
apontei alentos e lenitivos tendentes a espan-
car o desafogo do suicidio, — não o suicídio
do remorso — que, se elle podesse transigir
com isso, teria transigido com a deshonra ; —
mas o suicidio motivado pelo approbrio com
que as calumnias de fora e impressas lhe ati-
ravam com a sua lama para cima do coração
espedaçado. Dei-lhe esperanças, que eu não ti-
nha, na absolvição, usando systema diverso
das pessoas que iam inutilmente repetir-lhe á
cadêa as diffamações das salas e dos botequins.
Quando mais nada lograssem as minhas des-
proveitosas cartas, vingavam arrancal-o de si
próprio em quanto me respondia, e facilitavam-
Ihe a desoppressão das lagrimas.
Recordo- me bem que, n'aquelle tempo, os
meus soífrimentos eram tão acerbos que mui-
tas vezes pendi a cabeça congestionada sobre
esses papeis em que eu punha umas palavras
Correspondência epistolar 7
arraiadas de esperança, sendo negríssima na
minha alma a intuição do futuro de Vieira de
Castro.
Eu sabia que elle estava perdido para a
pátria, para a íamilia e para os amigos; por
que na minha vida sobejava a experiência que
a infelicidade nos dá em troca da innocencia
que lhe damos. Vieira de Castro fiava-se na
dignidade das maiorias, em quanto que eu sa-
bia que a honra da pequena parcella dos homens
briosos havia de ser absorvida no tumultuar
dos muitos em cujo rosto elle estampara uma
injuria involuntária. Confundiram ahi humani-
dade com corrupção. Kallaram na inviolabili-
dade da vida humana ; e absolveram pouco
antes um réo que, fria e pensadamente, matara
em duello um homem honrado e útil á pátria,
depois de o haver insultado publicamente. E
a José Cardoso Vieira de Castro que tirara a
vida infamada á esposa, porqne se viu mor-
talmente ferido no coração extremoso de amor
por ella, degradaram-no por quinze annos,
como se fosse necessário mais que um para o
matarem.
Lá estás na presença de Deus, meu íilho !...
Não podias esperar, n'esta vida, outro bem,
nem outro refugio na tua suprema desventura.
CARTAS
DE
CABILLO CASTELLO BIAICO
JOSÉ CARDOSO VIEIRA DE CASTRO
CARTAS
Meu mnigo.
Depois de teus irmãos, sou um dos que maior
abalo soífrcram com a noticia da tua incomparável
angustia. Sinto-tc em minha alma quasi desde a tua
infância. Vi-te entrar no mundo, c não pude ainda
descobrir duas horas de verdadeira alegria e paz na
tua existência. Que fataes excepções assignalou a
Providencia na tuaorganisação, meu querido amigo!
Que te hei eu dizer hoje ? Não sei. Mas o que
eu não posso é calar-me. Peço-te coragem ! coragem
— que eu receio que succumbas perante ti mesmo.
A opinião publica espera vêr-te abatido e aniquilado
pela razão fria. Os teus amigos tem obrigação de
te ampararem, de te defenderem de ti próprio. Viei-
ra de Castro, não sejas menos forte do que o foste
no desforço da tua dignidade. Essa salvou-se : mas
o peor é o coração despedaçado.
Choro comtigo as saudades do teu passado.
Adeus, meu filho.
Teu
Camillo,
12 Correspondência epistolar
Meu querido Vieira de Castro.
Sahi de casa com tenção de ir vêr-te \ mas che-
gando ao Porto já adoentado, pcorei. Alguns dias
estive esperando melhoras. Tive de desistir e retro-
ceder. Hoje me sinto menos opprimido. Se assim
me for restaurando, irei logo que possa.
Parecia-me que a minha companhia de alguns
dias te não seria penosa. Sei que diante de mim fal-
larás e chorarás sem pejo nem constrangimento.
Figura-se-me que se te não dá o pensar da opi-
nião publica sobre o que ha passado na tua vida.
Gomo has de tu sahir da tua immensa dor para ver o
que vae cá fora no espirito dos outros ? Não obs-
tante, dir-te-hei, filho, que se vai operando um re-
viramento a teu favor, mas por maneira que os jui-
zes não sabiam a razão por que execravam nem sa-
bem a razão porque applaudem. Affligia-me a in-
certeza do teu julgamento \ mas pessoas vindas de
Lisboa esperam a absolvição, umas fundadas na lei,
outras no dever, e muitas no que se deve a ti e se
recusaria a outros. Eu espero que sejas absolvido,
porque a tua expiação já era enormissima, e a^é
não correspondia á culpa, ainda antes de existir o
triste successo. Eu vi envelhecer a tua nobre alma
em poucas horas. Tenho-te visitado n'essas noites
de cárcere, e chorado com olhos postos nos teus
cabellos brancos aos trinta e um annos.
Peço-te que venham para aqui algum tempo, se,
como me asseveram, o teu julgamento se não de-
morar além de trinta dias. Comprehendo que a so-
lidão, se por um lado te ha de ser molesta, por ou-
tro poderá ir operando um saudável renascimento
Correspondência epistolar i3
das faculdades davida. Meu José Cardoso, sê agora
homem, para que se não infira do quebrantamento
a injustiça do teu pundonor.
Aceita em bem tudo o que te disser o
Teu
Camillo Castello Branco,
Meu Vieira de Castro,
Dizem os periódicos que vens para o Porto. Bem
o desejo para poder vêr-te mais a miúdo, e porque
me parece aquellajcasa, onde eu passei 38o dias,
mais alegre e allumiada do que essa. Além de que,
tens alli os teu irmãos e talvez mais sinceros ami-
gos, se os ha n'alguma parte. A mim me parece
que a falta d'elle atravancou o caminho por onde
o teu infortúnio poderia ter sahido menos desgraça-
damente.
Não posso applaudir o extremo em que te julgas,
morto para o espirito, meu amigo. Renascerás ou
natural ou providencialmente. O teu desastre não
é original, nem o centésimo exemplo. Homicidas
menos e incomparavelmente menos offendidos res-
tauram-se, esquecem-se, vivem, resurgem para os
gozos do espirito, e não se accusam da enormidade
do crime pela enormidade do desalento. Amaste-a.
Eu sei que sim, porque sei como a tua alma é feita.
Cegou-te a deshonra. Não podeste com o oppro-
brio recebido, e com o que havia de seguir-se
no decurso da vida] de ambos. Mataste em ti me-
tade da vida ; a outra é^ necessário que subsista
J4 Correspondência epistolar
amparada no esteio da honra. Dize-me cá, meu fi-
lho: um homem, levemente oífendido por um ami-
go iudiscreto, vai ao campo da honra, e mata-o.
Exemplo : Girardin e Armand Garrei. Eu queria
a tua angustia e não a do jornalista que matou. Tu
és o homem que valias a paixão da mais estremada e
extremosa mulher. Estavas á primeira luz d'este es-
pectáculo social para mais depressa e de todos ser
visto e talvez zombado na deshonra. Tinhas inimi-
gos que ant^s te queriam ridiculo que vingado. Não
sei dizer-te que praticaste um acto para exemplo ;
mas deste o exemplo do pundonor, que assombra
a sociedade, porque isto aqui é um continuado tran-
sigir da deshonra com a infâmia sob a capa de hu-
manidade.
Vou-te failando com demasiada franqueza ; entro
por de mais no foro da tua consciência ; mas tu
soffre-me, que eu hei de ser d'hora em diante mais
teu amigo do que fui ; nem sei onde esteja homem
que deva merecer maior fervor de estima d'aquel-
les que o amaram. Estás pobre ! Que é estar po-
bre ?
E' uma condecoração para ti, filho. E' a lu:^ que
Deus deixou ds tuas trevas; dizes santamente o que
é ser pobre na tua posição. Pois esta vida valerá
bem a condemnação de a estarmos enfeitando com
um pouco de ouro para tanta dor, para nos sentir-
mos agonisar entre a saudade e a desesperação ? A
quem faltou a coragem para se matar conceda Deus
a da resignação. Eu não peço senão uma das cou-
sas, quando me vejo e não me encontro senão nos
olhos de meus filhos que estou çreando para a des-
graça. Peço-te que não desfalleças, meu querido
amigo, diante do futuro. Tudo resurgirá em ti: me-
Correspondência epistolar i5
nos a felicidade. Não te aterre a possibilidade de a
desejares debalde, porque a não desejarás. Cum-
pre-te imaginar que tens no cofre, onde podias ter
a fortuna, somente a honra.
Adeus, meu José Cardoso. Eu ha dez dias que
passo as horas a contorcer-me n'uma nevralgia que
já me tem posto diante dos olhos o recurso do sui-
cídio.
Teu
Camillo Castello Branco.
Meu filho.
Pensa em tudo que possa arrancar-te de ti mes-
mo. E' natural que o teu espirito seja abalado pe-
las commoçõcs religiosas. Eu senti-as nas desgra-
ças medianas ; mas assim que eu sentia também a
authoridade humana, no que a minha alma conce-
bia de superior a isto que nos rodeia, descria. Tudo
que procede do homem, ou tem a sancção ignoran-
te ou cavillosa d'elle, é mentira. Eu da religião te-
nho só aproveitado a idéa da Providencia, e essa
somente onde allumiou a civilisação christã, filha
d'outras civilisações, preparadas pelos antecessores
de Jesus. Onde esta luz não chegou, a Providencia
não sahiu ainda do cháos primitivo. Onde quer que
os filhos matam os pães legalmente quando a ve-
lhice os inutilisa, a Providencia de certo espera ma-
nifestar-se mediante a civilisação. Isto resvala-me
no atheismo ; todavia, eu sei que tenho erguido as
mãos e orado, quando já vi *** moribunda. Tu
também então choraste. E sei que ao pé do berço
do meu Jorge ameaçado de morte, tenho também
i6 Correspondência epistolar
orado. E já fui cumprir um voto a um Christo com
a devoção d'um asceta ou com a boçal superstição
d'um cretino. A fé nasce na paixão do desgraçado.
As consolações sentem-se, a alma desopprime-se.
A manifestação d'uma misericórdia sobre-humana é
certíssima. Se alguma hora me commoveu o pensar
no que pôde a influencia da piedade sobre os que
soffrem, nunca tanto como hoje, vendo que em ti
se está operando a transformação que Deus opera
nas almas onde a idéa da justiça lucta com a da
culpa. Bem. Acceita esse beneficio, e não feches o
coração a essa aurora d'um novo e grande dia que
ainda has de viver. A felicidade não a esperes nem
a busques áquem do abysmo que passaste. A maior
que se deu na tua vida foi esta de salvares a razão
a ponto de a quereres converter em bem dos infe-
lizes. Converte \ mas não mediante o sacerdócio.
Não; porque não vejo no padre a caracterisação
grave e digna da tua desgraça. Eu antes te queria,
só e triste, n'um pobre quarto apostolando pelo li-
vro a moralisação, do que revestido das vestes re-
ligiosas apostolando sentimentos que os Tertullianos
e Cyrillos difficilmente vingaram insinuar na legisla-
ção da idade media. O apostolado, que então sur-
tiu tão pouco, hoje não surtiria nada Alli á face de
Lacordaire e Raulica está a Sodoma de Paris.
Nunca approvarei que te ordenes ; porque sei tan-
to da tua alma como da minha. De hoje a três an-
nos terá renascido em ti uma seiva toda nova. Este
horror de hoje negrejará na tua memoria ; mas a
tua alma terá assumido a força que nem a desgra-
ça, nem o mundo, nem tu poderão sopesar. Sei que
serás um coração eternamente em luto \ mas por
isso mesmo pensarás como um bom anjo santifica-
Correspondência epistolar ij
do pelas affeições, e escreverás com bemfazeja au-
thoridade sobre tudo que for das dores humanas.
Este apostolado, e só este é o que eu te peço que
tenhas sempre como a puriíicar-se n'essa paixão
sobre que as lagrimas já poderam muito. Sabes o
que eu penso, meu filho ? Em te fazer meu compa-
nheiro, meu familiar, meu irmão^ se teus irmãos te
deixarem. Os meus filhos andarão á volta de ti,
como os teus sobrinhos. Quando os accessos de
amargura te fizerem repugnante a convivência, nin-
guém te irá dizer qiie não soffras. Tu precisaste
sempre ser amado como uma criança. A solidão de
alguns annos, no Ermo, e as asperezas que te irri-
tavam a mocidade, carecida do amor da familia,
não te deixaram sentir bem a fundo a iniciação pa-
ra homem. Tu não tinhas senão coração e talento^
com uns assomos de honra tocando a extrema do
orgulho. D'esse orgulho honroso é que ninguém
te precipitou. No momento em que t'o feriram, fo-
ra mister que te houvesses bandeado com a corru-
pção, para que a esta hora não sentisses nem o fer-
rete na testa nem a infâmia na consciência. Prefe-
riste esse abysmo; mas espera, meu querido filho,
espera que o que em ti mataste foi somente a sa-
tisfação da vida. Quando quizeres o teu talento, a
tau grande alma t'o dará. Se Deus me não houves-
se matado em mim o contentamento desde a infân-
cia, o teu infortúnio bastaria para me ennegrecer as
horas todas.
Estou principiando um livro sob a inspiração da
tau desgraça. * Oxalá que o leias já em liberdade.
^ Este livro que principiou com o titulo Espelho de des-
graçados^ só appareceu em 1878: é o Livro de consolação.
VOL. II í
i8 Correspondência epistolar
Mas se ahi estiveres, quereria eu que cada jurado o
lesse, c lerá.
Adeus, meu Vieira de Castro. Hoje vou para
Seide.
Teu
Camillo.
Meti querido V. de Castro.
Amanhã te escrevo com mais espaço. Estou tão
doente que á uma hora da noite passada dei um bei-
jo no meu Jorge cuidando que ia morrer. Foi uma
ameaça de congestão cerebral, que mais hoje mais
amanhã me fulmina. Ás cinco da manhã senti alli-
vio; mas que vale isto?
Até amanhã. Peço-te que te dediques a algum
trabalho, seja o que for. Se não podes pensar, tras-
lada. Lembra-te que eu, na primeira noite que en-
trei na cadêa, assim que me correram os ferrolhos
d'um quarto abafado, comecei a traduzir IJArt
d'ètre heureuXy do Droz.
Teu do coração
C Castello Branco,
€\íeu querido amigo.
Vou dar-te uma idéa rápida do meu livro. Não é
formal, directa e exclusiva justificação da catastro-
phe. Seria intempestiva, senão prejudicial, sobre in-
competente. Além de que, não tenho os elementos;
sei apenas o que a imprensa revelou. Deus me li-
vre de t'os pedir. Queria sabel-os; mas não de ti.
Correspondência epistolar ig
As agonias da natureza da tua teem um silencio
que é o pudor da desgraça. Nada te pergunto. A
mortalha que envolveu o teu coração é sagrada.
O livro ha de chamar-se Espelho de desgraçados.
A forma será a do romance para que m'o leiam.
Ser-te-ha dedicado, e como prefacio fallarei ampla-
mente de ti. No romance ha uma mulher que espe-
daçou o coração do marido ; mas não morre : sal-
va-se entre os berços de duas crianças. Porém, o
homem, que a deixou viver e responde pela morte
do adultero, teria a coragem de sahir á barra do
mundo, se a houvesse morto \ e justifica-se do de-
licto como se o houvesse praticado. Assim, pois,
abrirei a indirecta defesa da tua paixão que te não
deixou ver, através dos discursos de Lamartine e
Hugo, a inviolabilidade da vida humana.
Aqui tens summariamente a idéa.
Este livro vae dar-me a gloria. . . de o escrever
por amor de ti ; e bem pôde ser que me dê parte
nos ódios que te alancêam. Também tu ha nove an-
nos quizeste aquinhoal-os commigo.
Estou á espera de alguns dias de saúde para tra-
balhar. Este m^edo da congestão cerebral não me
deixa. Estou quasi sempre com a cabeça ensopada
em agua sedativa.
Sonho muito comtigo. Esta madrugada sonhei
que estavas aqui, recitando alguns fragmentos de
discursos teus. Os ouvintes eram *** e eu. Ella,
porém, como hospedeira burgueza e dos tempos
homéricos, apenas concluíste, perguntou-te o que
almoçavas. Tu respondeste : «uma chávena de chá
e um biscouto.»
Acordei triste. Quando acordarei alegre ? '^'^^
sentou-se ao pé da minha cama a lembrar-me que
20 Correspondência epistolar
ha quatro annos te ergujas cedo a tomar com ella
do seu café e pão com manteiga. Estas memorias
aqui no seio de pessoas que te amam, não te serão
pueris. E' doloroso retrahir-te ao passado ; lembra-
te, porém, que não eras tão feliz. Elaboravas no
coração estes venenos de hoje. Mas não tires does-
tas palavras inducçÕes fatalistas. Das tuas infelici-
dades a causa é uma e simplíssima, perdeste o pai
quands eras menino, e já não tinhas mãi quando o
perdeste. Depois, a necessidade e a restricção da
fortuna forçou-te áquella insualção do Ermo. Alli
o que fizeste (nem a tua idade te permitiria mais
discretos expedientes) foi phantasiar os horisontes,
d*onde afinal viste que a felicidade não era menos
uma palavra do que a virtude e a honra.
Não desesperes, meu amigo. Se a alma huma-
na não tivesse differentes modos de ser e sentir —
se as grandes desgraças não fossem um refundi-
mento, um transfiguramento completo d'ella — o
homem, seria tão insconscientemente estúpido co-
mo incomprehensivel. Mas a matéria de que se ge-
rou o universo não me quer parecer que empre-
gassa as fezes na formação do homem. A que vem
estas philosophias? Vem áquillo da transfiguração
do espirits. Quero dizer, que tu, volvidos annos,
terás d'estes dias negros uma recordação peno-
sa ; mas á volta de ti as impressões de outra or-
dem e diversas das que já foram os motores da tua
compleição, hão de crear-te uma paz e uma mais
profunda consciência de que, em meio d'esta podri-
dão, não podeste beber serenamente o teu cálix de
ignominia. Tenho mais medo, por ti, ao amor que
lhe tinhas do que e rancor que te allucinou. Quan-
do o coração te inquietar, lembra-te que acceitaste
Correspondência epistolar 21
todas as injurias da sociedade, salvando para ti o
direito de não ser ridiculo. E' certo que a irrisão
não fecha as carreiras nem desauthorisa os talentos;
mas, se um homem, como tu, fecha em si o abu-
tre da infâmia a roer-lhe as entranhas, tal homem,
se não se vinga, morre vagarosamente, em quanto
a sociedade o escarnece — a sociedade que vai ás
igrejas encommendar a alma de quem matou outra
que tinha em si as promessas de grandes destinos.
Na carta de hontem te pedi que trabalhasses. E'
assumpto em que insto e peço. Escreve ; mas, so-
bre o teu infortúnio, não. Cinge-te ás idéas alheias.
Como creio que aprendeste o inglez, traduz. Quem
salvou Mirabeau ? E, depois que elle matou Sophia
com a fulminação de duas palavras, acaso aquella
crucificada alma se abateu ? Levantou-se até ao pes-
coço de Luiz xvi, por entender que as torturas de
nove annos de cárcere desciam do throno através
da nobreza até ás suas trevas. E morreu tranquillo
depois de haver suado todo o sangue nas violentas
catalepsias das suas apostrophes.
Meu amigo, sê homem como todos os que dei-
xaram sobre a sua sepultura o clarão do incêndio
em que morreram devorados. Soffre e espera. Cho-
ra, e dá-me a gloria de saber que choras.
Teu
Camillo»
Meu Vieira de Castro,
Isso que has de dizer no dia do teu julgamento
é magestoso e santo. Bem, meu nobre talento e su-
22 Correspondência epistolar
blime alma ! D'essas palavras risca a authoridade
de Gresset. Não foi elle que o disse, não foi nin-
guém : és tu. Chorei : hão de chorar os que tive-*
rem o sentimento menos embotado pelas desgra-
ças próprias.
Aperta-me a alma mais que todas esta tua carta.
Tenho chorado por ti como nunca chorei pelas mi-
nhas amarguras desde a orphandade até á pobreza.
São onze horas da noite de quinta-feira. A' uma hora
vou sahir d'aqui. A congestão continua a ameaçar-
me. A noite passada pedi a *'**^ que me não desam-
parasse um instante com medo da morte. Esta co-
bardia vem-me dos filhos.
Estás sempre diante de mimr. Não temo a tua
condemnação, meu filho. Este pavor não é o que
me atormenta. E' pensar que estás ahi, só ; estas
noites, meu Deus ! e a transfiguração da tua vida !
Consola-me a momentos a confiança no que ha em
ti grande e extraordinário : o brio de ser assim des-
graçado, os teus orgulhos todos subordinados ao de
ter hombros para a cruz do ódio, hombros que não
poderam com a da deshonra. Beijo as tuas lagri-
mas. Quanto me dizes é tão sagrado sigilio para
mim que cu me sujeito pela vida de meus filhos
dinnte de Deus a não o revelar. Das tuas cartas já eu
disse uma phrase n'um concurso da livraria More.
Dizia-se que o teu remorso provava a innocencia
de uma senhora. P2u quizera respeitar-lhe a me-
moria \ respeitei, mas repelli a injuria feita á tua
alma. Remorso não — disse eu — sobre o coração
morto de Vieira de Castro está uma consciência
tranquilla, Sei-o d'elle próprio^ e precisei que m'o
elle dissesse para o julgar digno de respeito na sua
enormis^iyna dor.
Correspondência epistolar 2'3
Meu filho, escrever-te-hei de Braga. Não posso
hoje mais. Cá tenho o ferro em braza na cabeça.
Adeus. Vê-me e escuta-me na tua solidão. Associa-
me a teus irmãos* e pensa que tens aqui uma parte
dos teus, da tua familia. Havemos de ler, de escre-
ver, de trabalhar muito no mesmo quarto e á mes
ma luz, sim ?
Teu
Camillo,
Abri esta carta para te dizer que não sahi para
Braga. A prostração não me deixou. Tenho umas
leves melhoras hoje. Tomara cu poder escrever !
Conto m^uito com o coração ; as outras faculdades
de escriptor estão quasi delidas. *** vai para as
Taipas no primeiro de julho, obrigada por soffri-
mentos que datam de 1861, d'aquelle quarto fétido
e frio da cadêa. Lá é que eu tenciono escrever o
nosso livro — m.arco lutuoso d'estes dias funestos.
Na velhice o lerás. Se tiveres a desgraça de enve-
lhecer. Disseram-níe que tens muitas cãs. Mal de
ti se não tiverem sobrevindo essas grandes explo-
sões de fogo ! Era necessário fugir assim á loucura,
já que a morte instantânea não é felicidade vulgar.
Parece-me, filho, que deves abrir mão de leituras
substanciaes e também das romanescas. Os livros
que eu te aconselharia são os de leitura variada,
como illustraçôes^ periódicos litterarios francezes,
Remsta dos dons mundos, mas o escrever, sobretudo
te seria uma diversão, ao principio penosa e depois
quasi aprazivtil. Achava eu que, mais tarde, quan-
do o animo t'o permittisse, de^ias ler uns livros
muito úteis para o futuro que mais provável te
CorrtspomdaKia epistolar
- >. Les causa cdébres, oa coasa assim, que ck-
:cr. perKxicos dos mais notareis debates
^- ... franccz. Alfi ha o romance para a imagi-
nação e a ekKpicnda para o espirito.
Estou semix^ a cogitar no que te pôde ser ahi
de algom alfiWo; nio acho senão o meu coraç^
impotente.
AdenSy mra cpimdo José.
Teu
Camillo.
Meu querido Cietra ãc Casiro.
Voltei hoje de Braga, onde râo encontrei allirio
algum.
Falknios de ti« e relera que eu te imponha, o de-
Ter de abdicares das tnas honrosas e sobSmes preoc-
cupocões em faror da suprema necessidade que
tens de sahir d^ahi pela pcMta vulgar, visto que ella
te ha de ser aberta por uma cousa positiva que se
dxama lei, e pelo verecfictum de outra cousa de la-
ma que se chama homens.
Qoando arrebatadamente applaud. » pv.L^.o .i ^
gestpsa de lagrimas que intentavas sustentar no tri
bunal não sabia eu <pe ^sst heroísmo implicava
com as formulas da dcftzã. Cuidei que o teu pa-
trono poderia de toas mesmas palavras tirar raptos
sublimes, e abrir torrentes de lagrimas em corações
mais fechados por estupidez e ódio. Eu, demais,
íulgara-me capaz desse effeito, sem recorrer a ou-
tras figuras de eloquência senão ás que de tuas bre-
ves palavras me arrancariam súbitas, e tanto mais
feliz seria quanto mais desprevenido estivesse. Ago-
Correspondência epistolai 25
ra, porém, sei que me illudi pelo sublime ou tu- te
cegaste com o relâmpago do bello — o bello hor- ,
rendissimo da tua situação.
Não pôde ser, meu filho. Desce á craveira da ne-
cessidade. Sacrifica aos que te amam essa nobilis-
sima concepção das tuas febres. Inclina-tc diante
do tumulo; mas não deixes accender novos infer
nos na tua vida Não queiras que a corrupção te
esmague depois de a teres repellido com tão violen-
to impulso. Se as baixas almas, por não te enten-
derem, te condemnaram, a libertinagem que pro-
testou contra ti nos templos dará hurrahs dalegria.
Não queiras, não quero que tal aconteça. Vieira de
Castro.
Acabo de saber que a tua defeza, pelo theor que
se te afigura, é impossível. Se me respondes que se
te não afigura defeza de theor nenhum, hei de pre
v?lecer me das tuas palavras : Deixo-rne guiar da
tua mão, Pcço-te por ti e por mim e por meus fi-
lhos. Olha que eu tenho receado que as tuas des-
graças me transtornem o juizo. Offereço-te como
prova da minha santa amizade esta tristeza que ca-
da noite me sacode o cérebro, e me faz sahir do
leito em busca de quem me valha e ajude a reter
a razão que me foge. Em nome pois de mim pro
prio te rogo que desafogues a lua dor e a tua jus-
tiça no talento grande que te vai defender. Não
considero ninguém como o Jayme Moniz á altura
de ti. E, se algum homem estivesse na tua situação,
eu só acharia Vieira de Castro para o salvar.
O coração me está a dizer que tu desistes do teu
propósito, cuja grandeza apenas se mediria com a
elevação de duas ou três almas n'esta terra. Quan-
do m'o revelaste, dizias : Ninguém me desyia. Te-
Correspondência epistolar
nho a vaidade de crer que coopero em tua alma
para que te desças d'cssa opinião. Deixa-me a mim
o prazer de a fazer publica quando for tempo. Eu
farei os relevos d'esse magnifico lance quando a
tua vida já não estiver sob a influencia dos juizes
do teu procedimento.
Peço-te que na volta do correio me digas se eu
pude demover-te. Rogo-t'o em nome das tuas in-
calculadas affíicçõcs, e em nome da paz e serenida-
de que, volvidos poucos annos, surgirão d'essas tre-
vas, onde os teus amigos hão de ter força de fazer
que o anjo da consolação se abrace ao da honra.
Meu querido amigo, não sei, não tenho porque
mais te peça. Obedece-me e recebe o abraço estre-
mecido do reconhecimento do teu
C. Castello Branco,
Meu V. de Castro.
Só duas linhas, porque a minha doença me não
permitte mais. Ha cinco dias e noites que apenas
consegui dormir a somma de seis horas.
As dez da passada pedi que me lessem os jornaes.
Ouvi que a senhora do Brazil te era parte. Raro e
estranho despejo ! Isto deve sobre-excitar os teus
padecimentos. Animo ! Creio poder asseverar-te
que semelhante desprimor de mãi te será grande fa-
vor no julgamento. A perseguição quer-se que ve-
nha assim eivada de uma deshonestidade original.
O que me parece inacreditável é que haja repre-
sentante no tribunal para tal dama. Haja ou não,
cerrate com as tuas angustias e rebate as outras
Correspondência epistolar 27
que hão de ser sempre menores. Adeus, filho, até
quando eu poder. Transtornou-se a ida para as
Taipas.
Teu
Camillo,
Escrevo-te com a cabeça empannada em parches
de vinagre. O que eu sinto ha doze noites seguidas
é um estrondo infernal nos ouvidos, uma zoeira de
catadupa que me não deixa estar sequer cinco mi-
nutos deitado. Tenho phrenesis que me despeda-
çam. Hontem á noite deliberamos sahir d'aqui pa-
ra as Taipas, e de lá vou procurar remédio em não
sei que médicos ; mas desconfio que é irremediável
isto.
Quero accusar a recepção da tua carta. Se me
não engano, acccitas a defeza. Bem, meu querido
amigo. Mil agradecimentos. As tuas considerações
são tão amargas quanto de grandissima alma a
respeito de inimigos. Mas elles existem. . . Não pos-
so continuar, filho. Adeus. Das Taipas te escreve-
rei, se Deus o permitdr.
Elles existem (os inimigos), te dizia esta noi-
te. O que não está para mim sufficientemente es-
clarecida é a eternidade, onde tu graduas os tor-
mentos pelas consequências que deixou cá o crimi-
noso a surtirem effeitos. Que a Providencia fez pe-
nas eternas na. vida mortal é certo. E' a tal dor
chamada eternidade, segundo Gresset. Paraizo ha-o
aqui para as esposas honradas: é o respeito do
28 Correspondência epistolar
mundo e o culto do marido ainda que elle seja um
selvagem na religião dos deveres de esposo. Infer-
no também o ha aqui para as que prevaricam,
atraiçoando não só o dever mas o coração sem ma-
cula. Conheces exemplos de ambas as espécies.
Esta é a verdade que vem á flor das cousas, e ao
de cima d'isto desvaira a phantasia dos theologos e
dos poetas. Posto isto, meu amigo, peço perdão de
me antepor tão sem figuras e sem imaginação ás
tuas formosas quanto dolorosas abstracções sobre
as transfigurações das almas pelo infinito fora. To-
das essas imaginações são como as aves que avoe-
jam por alto, cuja rota não sabemos, logo que as
perdemos de vista. Deus não se deixa entender
justamente para não soffrer confronto com estes
miseráveis que nós somos. O que Elle permitte que
vejamos é a lei eterna, o verbo que se manifesta
na concatenação das cousas terrenas. O anjo fu-
nesto que te fechou as portas da felicidade, per-
deu-se : perdeu o teu grande amor. Não lhe figure-
mos maior expiação.
Reduz-te, pois, meu querido José, a demarcar
as rotações da vida no mostrador do relógio que
marca o nascer e o morrer, com intervallos breves
ou longos de angustias immerecidas, ou providen-
ciaes. Isto cm verdade é baixo para o teu espirito ;
mas compenetra-te de que a verdade é fácil de
achar ; só a não encontram os que a buscam muito
enfeitada. Isto vem a dizer que te desforçaste de
uma offensa sem limites, e como o teu amor era
por igual grandioso, mediste o limite da vingança
pelo da aífronta. Agora segue-se que tu, victima
da corrupção, lhe ponhas o pé nas ulceras, e saias
com a victoria d'essa conspiração infamissima em
Correspondência epistolar 2g
que adivinho que te bandearam alguns dos que te
chamavam amigo, e te beijariam hoje de melhor-
mente a fronte, se lá te vissem o estigma vulgar.
Não te persuadas que te odeiam geralmente. Ha
muito quem te não afastaria a mão que nunca aper-
taste. Tenho encontrado muita gente triste por
amor do teu mau destino; e muitas pessoas também
tenho encontrado a julgarem mal do teu procedi-
mento, e todavia incapazes de te condemnarem
n'um tribunal. Vejo que dás minima valia a estas
cousas, mas eu doulh'a toda, porque toda a minha
alma está cheia da anciã de te ver livre. Depois,
iremos resistindo ás desgraças mais sensíveis \ e da
tua desventura irremediável iremos despontando
os espinhos com a mão do tempo.
Reli na tua ultima carta aquella carinhosa ex-
pressão da bala que tens para o caso em que a mi-
nha razão se perdesse. Se tal acontecer, filho, en-
tende que as tuas calamidades não foram senão ac-
cidentalmente um estimulo para esse estado. O que
eu soííro é o desenvolvimento rápido e espantoso
d'uns embryÕes que ha muito me estavam no cé-
rebro. Muitas desgraças successivas, sem desabafo,
e suffocadas por um riso que me ficou, depois que
tive pejo de chorar.
Mas olha que sinto algumas melhoras. Pude
dormir hora e meia sobre um canapé, e já hoje pu-
de engolir bastante alimento para mais duas gotas
de sangue.
A'manhã vou ouvir um medico de Braga, depois
talvez vá ouvir outro a Villa do Conde. Se me não
derem remédio, se me disserem que este estado pô-
de resistir aos medicamentos, então terei a grandís-
sima coragem de fechar os olhos, apagando n'elles
3o Correspondência epistolar
as imagens onde eu via espelhada a minha vida
toda. Tu cá ficarás com a certeza de que te amei,
como t'o devia por obrigações, que a ti, alma ge-
nerosa, terão esquecido. Adeus.
Teu
Camillo,
Meti amigo.
Poucas melhoras e essas a cada passo destruí-
das tenho experimentado.
Eu imagino-tc muito atormentado com estas
cousas vindas do Brazil. Se as não esperasses, mal
conhecerias o mundo, e o modo como as dores co-
meçadas se atropcllam e encadêam. Tens obriga-
ção de pôr tudo debaixo dos pés, desde que expe-
rimentaste a máxima de todas as dores. Vê se po-
des sustentar com bom rosto as injurias que te sal-
tam d'esta saturnal de torpezas, mascaradas de
piedade. Recommendo-te um livro de Proudhon
chamado a Justiça. Lê-o. Eu tenho grande vene-
ração por esse honrado homem. Has de achar ahi
consolações que tem uncção do céo. Até amanhã,
se eu poder. São seis horas da manha. Sinto-me
enjoado e tonto porque ainda não pude adormecer.
Teu
Camillo.
Correspondência epistolar 3i
Meu querido José.
Tenho pena que me não digas se é ou não ver-
dadeira a remessa da procuração do Brazil, e ao
mesmo tempo receio amargurar com isto o teu fel.
Não leves o teu preito á senhora, que íaz annun-
cios da sua dôr, ao extremo da que ella represen-
ta. Eu queria antes que o pejo a consolasse do que
o desafogo um tanto deshonesto. E' preciso que tu
não tenhas mais melindres do que ella na alma.
Força, meu querido amigo, força, é que eu te ins-
to, e esforço por abaixar a tua imaginação ao ra-
zo das cousas. Se a tua phantasia dá força ao ódio
estranho, maior condemnaçao não podia dar-t'a a
lei. Não me escrevas com repugnância, filho. Eu
sei quanto custa o desafogo quando desde o cére-
bro ao coração ha uma constricção de que não po-
demos tirar mais ar que o dos gemidos. Escreve-
me n'alguns instantes mais tranquillos, se Deus
t'os dá.
Teu
Camilio,
oMeu Vieira de Castro.
Desconfio que algumas cartas minhas se tem
descaminhado. Falias me d'um silencio que não te-
nho tido. Na ultima que te escrevi de Seide ia um
retrato ; e d'aqui já te escrevi três ou quatro. As
tuas não me tem faltado. E' possivel que a curiosi-
dade subtraia alguma das que vão com o teu nome.
Os meus padecimentos voltaram. Estou cscre-
^2 Correspondência epistolar
vendo ás seis da manhã. Passei toda a íioite com a
cara nos vidros á espera do dia. Imagina, meu fi-
lho, um espasmo nervoso no esophago que só com
muito custo me deixa respirar, e á força de anti-
histericos. Por cima d'isto o estrondo de uma aze-
nha na cabeça — aquillo que Henry Heine sentia
quando escrevia no Livro de La\aro : «No fundo do
meu cérebro vai um ruidoso desmancho.» Depois a
fraqueza que me não deixa ter em pé, e a impos-
sibilidade de estar quieto. Não se pôde assim viver.
Eu admiro a honrada resignação com que vês
acastellar-se a tempestade. E' sublime, é teu, esse
destemor da vingança e o beijo filial que depões
na mão que ainda vem espremer uma esponja que
já não tem nada que possa amargar-te. A medida
deve estar cheia para ti.
Eu, porém, vejo essa senhora como ella ha de
ser vista pelo jury. A tua grande dignidade amor-
daça-me. Sou teu amigo até abafar o coração na
extrema do respeito. Seja como for, meu querido
amigo, o que te hei de pedir até á minha ultima
hora é que tenhas coragem para viver porque os
meus filhos hão de precisar de ti. Imagina que r
tua vida é também dos meus filhos.
A ida ao Ermo não pôde ser já. Gomo entrarei
eu alli ? Até breve.
Teu
Camilio.
Correspondência epistolar 33
Meu Vieira de Castro.
Os rogos das pessoas que te amam, e a clara ra-
zão do que importa á tua defeza, conseguiriam que
te conformasses com o Jayme. Amagestade da tua
desgraça tem sublime uncção de lagrimas, mas não
é no tribunal de jurados ! O cônsul brazileiro que-
reria que a posteridade admirasse qualquer rapto
da tua abnegação diante da lei, com a condição de
seres condemnado.
A defeza que me dás de tua sogra é louvável,
mas injusta. Se minha filha amanhã prevaricar e
for morta, eu terei vergonha de pôr luto. A uma
dama, porém, é obrigatório, em caso tão funesto,
ter ou fingir um pejo maior. Peço-te perdão para
os meus 44 annos.
*** chorou hontem por ti. Este caso é frequente
entre nós. Adeus, filho. Parece-me que te verei
cedo.
Teu
Camillo,
E' certo que outras cartas atóra a do retrato fo-
ram subtrahidas. Acho natural a infâmia, e perdoá-
vel até. O teu nome e a procedência de Famalicão
deveriam suggerir o prazer de saborear o que um
desgraçado dizia a outro. No retrato ia o teu nome,
o meu e uma data. Na carta ia assim desafiando
mais a cubica por fazer algum volume. Se eu vir
que nos continuam a emporcalhar estas contrarieda-
des, este esfossar de cerdos— porcaria toda portu-
VOL. u
34 Correspondência epistolar
gueza de lei— mando-te as minhas cartas por inter-
médio do Campos Juuior. Quem as possue, cuida-
rá que tem n'ellas alguma cousa. Eram dores e la-
grimas que só para ti serviam. Dura alma a de
quem desviou do teu coração essas palavras, que
não seriam sobejas á necessidade que tens de ami-
gos.
Não são bastante animadoras as melhoras. A noite
passada deitei-me com esperanças de adormecer.
Ergui-me logo e vi romper o dia e esperei até ás
seis horas que me deixasse uma dor nevrálgica que
veio sobredourar a insomnia, o espasmo, a zoeira
e toda esta admirável cadêa de nevroses que me
vae arrastando até encontrar o ultimo annel que pren-
de á cousa onde tudo isto se desfaz em phosphato
de cal, lama e alma. (Observemos que uma sim-
ples transposição de lettra nos desfaz a alma em
lama. Já notarias também que o corpo e o porco
está na mesma relação. Dir-se-hia que a nossa lin-
gua tem mysteriosas brincadeiras philologicas, das
quaes os philosophos positivos allemães, se as co-
nhecessem, poderiam tirar para o soalheiro da scien
cia enormes systemas). Antes de hontem reuni aqui
três médicos. Não sei o que pensam de mim. O de
Braga chama gastralgia á moléstia. O de Guima-
rães também. E o dasTaypas, que cura ha 6o annos,
ainda não sabe o que é. Eu sei, e louvo a delica-
deza de todos. Poderei viver algum anno, se as
condições moraes se melhorarem. Como? e quan-
do ? O contentamento não voltará mais. Se ainda
ha raio de sol que me allumie, esse nascerá no dia
da tua liberdade.
Conheci rapazinho esse Pedro dos Reis. Ha i6
Correspondência epistolar 35
Escrevi isto com os olhos húmidos. Era n'um tem-
po em que eu morava na quinta do Pinheiro e te
via, criança, na tua varanda. Quando tornei a vel-o,
já homem, quiz salval-o do abysmo por onde elle
achou a ladeira dos outros. Nunca pude salvar nin-
guém. Já disse isto na Mulher fatal, penso eu.
Eu tenho outro retrato em Seide igual ao que se
perdeu. Logo que vá, t'o mando. Se tiveres ahi o
teu ultima dá-m'o.
Eu acho nas tuas cartas uma serenidade angus-
tiosa que me dá suspeitas de que soíFres muito. Sei
que algumas pessoas te viram o ar do socego ; mas
quem poderia verte! f Tu has de morrer com o
sorriso falso dos infelizes que se esforçam por men-
tir á vil piedade ou ao jubilo feroz dos que lhe pro-
curam lagrimas. Se tu me dissesses em poucas li-
nhas o que concedeste ao Jayme. . . Meu querido
José, tem paciência; esta phrase é banal; mas é
divina. Encerra toda a philosophia dos heroes que
prostraram a desgraça e a esmagaram.
Adeus.
Teu
Camillo.
Meu caro José Cardoso.
Eu já sabia que tu não podias desistir da formo-
sa idéa que entrara na tua alma e se identificara
n'ella desde a hora que ahi entraste. Primeiro ap-
plaudi-t'a com enthusiasmo; depois combati-a frou-
xamente como quem quer transigir com as neces-
36 Correspondência epistolar
sidades da vida como ella é, e da justiça como a
entende o commum. Bem sei eu que o desatarem-te
com violência d'essa idéa seria aniquilamento para a
tua alma : que tu, se te faltar a anciedade e o esforço
— predicados essenciaes do teu espirito — não vives.
Se o Jayme viu desde logo a altura do teu pensa-
samento, e o achou compativel com a defeza, não
careço d' outra prova para ir jurar na superior alma
e levantado espirito d'elle. Parece-me agora que
n'este paiz só haveria um homem capaz de accei-
tar a tua procuração assim condicional : é elle. Ale-
graste-me. Não o conheço ; mas parece-me que o
amo desde que a luz o visitou para elle poder en
trar com ella nas trevas do teu coração.
Olha que deliberamos ir para Lisboa em fim de
setembro. Estarás ainda ahi ? Por que não ? Anno
e meio esperamos na Relação pelo julgamento. Lá
teremos horas doces e amargas. Agora renascem-
me esperanças de vida. Ainda te não disse que te-
nho ali um sophá e cadeiras. Se os queres manda
buscar isso a casa do Ayres. Disseram-me ha pou-
co que tu nada levaste de tua casa. Os nossos po-
bres trastes estão todos em monte n'uma cozinha
do consultório homoepathico do conselheiro. Que-
res que eu dê ordem para te levarem á cadêa uma
idéa dos salões de Semiramis ?
Não fallemos da hedionda infâmia do retrato que
se vende. Guarda isso para o livro. Esta represa
de fel tem muita cara onde seja cuspida. Ain-
da bem. A noticia do livro que desgraçadamente
não está começado já levantou rumores coléricos
nos prostíbulos. O peor é ter eu de escrever com
luva, e com o joelho genuflexo diante de dous in-
felizes. Adeus, meu querido José.
Correspondência epistolar Sy
Muitos aífectos da *** que recebeu hoje a tua
carta.
Teu
Camillo,
<Weu querido Vieira de Castro.
A noite passada foi das taes medonhas. Não con-
segui dormir. Já não descanço sem narcóticos que
cada vez mais me desafinam os nervos.
As minhas cartas estão sendo para ti, meu filho,
um boletim sanitário. Eu sei que em verdade te in-
teressas na minha vida, porque tenho de consciên-
cia que me julgas um dos teus mais aííligidos ami-
gos.
Uma cousa em que a Providencia está sendo boa
para ti é dar-te saúde. O que seria das tuas noites
se te alanceassera as dores e as commoçôes da in-
somnia !
Estou em Braga desde as seis da manhã. Trato-
me com um medico d'aqui ; dá-me animo e narcó-
ticos. Chama elle a isto uma nevrose. Tomára-me
eu em Lisboa. Creio que serás o meu medico, des-
de a hora em que te vir fora d'ahi.
Adeus. Dize-me se tens alguma hora de sereni-
dade e se trabalhas.
Teu
Cantil lo.
38 Correspondência epistolar
Meu José.
Quando te oíFereci as alfaias que me esperam na
cozinha do conseliíeiro Ayres esquivei-me a recor-
dar-te os estofos de ha dez annos ou onze. Volto-
me a chorar e a sorrir para então. Nunca fomos tão
fúteis e tão desgraçados como n'aquelles dias ! A
gente á procura de oihomanas com seis coroas na
algibeira, e coragem para alugar a casa de um so-
phi ! Foi n'esses dias que eu me identifiquei á tua
alma, para todo o sempre e para todas as afílicções.
Nos júbilos é que me verias e verás longe, porque
a felicidade é a luz coruscante que oífende as al-
mas quasi cegas de chorar. Esta comparação deu-m'a
o desgosto de mal poder hoje fitar a luz. A fraque-
za não me deixa incólume alguma parte da cabeça.
A noite passada dormi regularmente. De oito em
oito dias tenho assim um remanso. Parece-me po-
rém que vou entrar em melhoras progressivas.
Não te aconselho que leias novellas, mormente
as minhas, que tem muito da tua, da minha vida,
d'estas tristezas modernas, deixa-me assim dizer,
que por força hão de repercutir- te.
A desafinação nervosa em que te imagino, deve
exagerar a tua sensibilidade. Essas cousas que n'ou-
tro tempo apenas valeriam para ti como physiolo-
gia d'alma, ou linguagem, podem incommodar-te.
Lê antes cousas áridas que" te narcotisem; e, se
tens quem te não aborreça a conversar, deixa os
livros. Verdadeira distracção só pôde dar-t'a o tra-
balho do espirito, o escrever cousas tuas, seja o que
for.
Bem sabia eu que tu eras indifferente ao proces-
Correspondência epistolar 3g
so e ás delongas da justiça. Pôde ser que haja ahi
interesse em aligeiral-o ; mas creio que os teus ami-
gos terão o espontâneo bom-senso de o retardar.
A deliberação da ida para Lisboa só poderá des-
fazel-a a gravidade da doença. Eu vivi sempre mal
ahi^ mas tenciono procurar casa em Buenos Ayres
ou Arroyos. O que mais desejo é que não esteja-
mos mais longe que o espaço que possa vencer-se
n'uma hora. Creio que irei antes da família para
arranjar a casa onde tu caibas depois. No verão se-
guinte iremos para o Minho ; passaremos, os dous,
um dia no Ermo e outros em Seide. Tenho muita
vontade de lá voltar comtigo. Essa cadeira e essa
cama que ahi tens has de dar-m'as aos meus filhos
por tua morte. Essa simphcidade tem aos meus olhos
uma magnificência que eu não saberia descrever.
A's tuas desgraças extraordinárias ligam-se sempre
accessorios de extraordinária poesia — poesia, quer
aqui dizer tudo que faz sentir estar-se a alma a en-
cher de lagrimas.
Adeus, meu filho.
C C Branco,
Meu V. de Castro.
Esta noite passei peor; mas ainda assim con-
servei-me na cama. A grande desgraça é quando
lá não posso estar. Parece que me faz horror a po-
sição horisontal da sepultura. Conheci ha cousa de
dous mezes em casa d'aquella D. Euf. do Porto
um hospede que padecia não sei de que viscera.
O homem tinha medo da cama como um hydro-
phobo da agua. Levantava-se de noite e cabecea-
40 Correspondência epistolar
va n'uma cadeira. Uma manhã apparece muito
desolhado, dizendo que estava a morrer; e na tar-
de do dia seguinte, morreu. Mal empregada mor-
te, como dizia o Alheira do gallego que morreu de
apoplexia fulminante! Penso muitas vezes n'este
defunto, c comprehendo como elle se foi para a
segunda vida de Pelletan, que parece ser a ange-
lical.
Gosto que te entretenhas com o estudo de lín-
guas. Isso denuncia certa paciência do espirito, ou
antes força, se não é antes violência que lhe im-
pões. De qualquer modo, haja, seja o que for, a se-
parar-te do homem interior, do Mephisto, do dia-
bo intimo que tem sempre nas garras o pobre anjo
custodio.
O meu, pelo menos, íigura-se-me que andou
sempre de parçaria com o inimigo.
A lingua ingleza vem a ser-te precisa. Agouro
que tu não ficas na Europa, e buscarás o paiz que
mais te namorou nas tuas viagens. Ainda que ás
vezes me persuada que tu, calados os últimos es-
trondos d'esta tempestade, acharias prazer na vida
retirada, logo me desconvenço. Se até aqui abafa-
vas em horisontes apertados, vem ahi o tempo em
que, por não caberes em ti, procurarás o aturdi-
mento e o tumulto. Estás muito novo, meu queri-
do amigo, e estás sopeando uma energia que ha
.de expandir-se com vehemencia. A tua infelicidade
não é das que aniquilam, senão temporariamente.
Ainda bem.
Satisfaz-me a tua apreciação dos Brilhantes.
Aquillo pareceu- me um signal de decadência quan-
do o reli nas provas. Com aprazível assombro vi
que a edição se vendeu em três mezes, e da cMw-
Correspondência epistolar 41
Iher fatal o mesmo. Isto prova que os romancistas
novos principiam tão valetudinários como eu. Já
hontem te disse o que pensava respeito a íeitura
de noveilas. As scenas da Fo:{ são a mais innocen-
te asneira que publiquei, acommodada a espiritos
enfermos.
Olha lá: não me escrevas tão a miúdo que te
pôde ser isso custoso, meu amigo. As minhas car-
tas não exigem resposta. Basta que me digas a es-
paços quantas recebes. Eu alegro-me quando vejo
a tua letra no sobrescripto ; mas receio que te es-
forces.
Adeus. Hoje respira-se. Deus permitta que lá
sintas algum, refrigério. Ha dias por aqui sem ar ;
e noites em que o chão exhala fogo. Que será ahi !
Teu
Camillo.
Meu amigo do coração.
Quando em alguma das minhas primeiras car-
tas te quiz chamar a saudade e o coração para o
Ermo, presentia que nenhuma outra paragem con-
viria melhor á crise da tua alma Folgo de te ver
esperançado nos tristes contentamentos de lá. Bem
sabia eu que não permanecerias em Lisboa nem
no Porto. Eu, provavelmente, quando tu deixares
Lisboa, sahirei comtigo. Parecia-me impossível que
a maldade humana esponjasse da bexiga do fel in-
sultos ao teu infortúnio! Ha tempos escrevi ao F...
uma carta em estylo insolente por causa de não sei
que noticia que li no a teu respeito. Gasti-
4^ Correspondência epistolar
guei-o ; mas elle não gemeu. Couros portuguezes e
mercantis que não gretam nem ás lançadas. Dese-
jo ver o que esvurmaram os padres dos Arcos, e
metter a injuria na papeleira. Deus me dê vida.
Deus ! Porque não ? Esta porcaria requer Greador
divino que a explique. E' mister que nós, através
de algumas dezenas de dogmas esclarecidos, na re-
gião luminosa d'além-tumulo, vamos em fim topar
a razão de ser d'isto, a origem do peccado, a que-
da do anjo rebelde na latrina.
Deixa-me dizer-te uma atroz verdade. A desgra-
ça e a doença tem-me feito descambar a um atheis-
mo absoluto. Aquellas causas ou produzem isto ou
o ascetismo. Em mim apagam-me as ultimas vascas
da luz que o sentimento disputava ao raciocínio.
Imagino-te assim *.
E no meio d'esta minha escuridade, o sonho da
idade media : o dogma definido do papa infallivel !
Até aqui, os catholicos, racionalistas tanto ou quan-
to, negavam ao papa a infallibilidade e concediam-
na á igreja — ao concilio ecuménico; mas agora?
feita a assombrosa tolice no concilio, quem dirá
que o Espirito do cenáculo presidiu a semelhante
anachronismo ? Vê tu e lembra-te que nos primei-
ros nove séculos da Igreja ninguém se lembrou se-
quer de sobrepor o bispo de Roma aos de mais.
Surge o dogma da inerrancia pontifical quando o
catholicismo baquêa. O prognostico mais persua-
sivo da queda é a indiíferença do mundo europeu
^ Esta carta seria excluída d'este livro, se não viesse como
prova da pusillanimidade da alma humana sob a pressão dos
soíírimentos corporaes. Um sorriso de saúde bastará a abrir
no coração uma lagrima de arrependimento..
Correspondência epistolar 48
a este attentado que só ao cabo de Soo annos de
surdos lavores dos jesuítas se consummou. Mas
para que ? —pergunta a minha preguiça em pen-
sar no caso.
Segunda-feira vou para Seide. Levo esperanças
de poder trabalhar alguma hora em cada dia. Es-
tou enfraquecidissimo da vista e da cabeça.
Retribue as lembranças ao snr. Pedro Maria dos
Reis. Eu já sabia que elle ahi estava. A imprensa
vende por dez réis a explicação de todas as lagri-
mas occultas.
De Seide te escreverei, meu querido José. O
Jorge recorda-se muito de ti.
Teu
Camillo,
Meu José,
Tenho o folhetim do nosso Júlio. Costumo guar-
dar tudo que é raro. Um bom coração escreve to-
da a sua historia n'um folhetim. Do teu amigo in-
timo^ que se espantou da temeridade, é que eu não
quero guardar nada nem sequer saber o nome.
Basta-me saber que os teus amigos Íntimos deviam
antever a catastrophe, e mediram-te por elles. Vi-
ram impendente o desfecho, e entraram em con-
temporisaçôes com as eventualidades usuaes em
taes lances. Esses hoje ou amanhã hão de bandear-
se com os teus inimigos.
Teu mano António disse-me o essencial do que
vinha no jornal dos Arcos. Admiro o tal F... Jul-
go-o capaz de redigir a local, se teve alma de t'a
enviar. Redobra o arnez para rebater muitas d'essas
44 Corres]pondencia epistolar
injurias. Até os amigos, sem o pensar, te hão de
ferir com as suas lastimas. Ha por ahi o que quer
que seja análogo á commiseração ; e, feitas as con-
tas, não passa de desvergonhamento. Infelizmente,
raro dia correrá sem que lá te chegue o echo das
salas de Lisboa, onde a tua causa tem as respira-
ções suspensas. Symbolisas hoje o cautério de um
enorme cancro social. Espera-se o resultado do teu
julgamento, para por elle graduar o ponto que
attingiu a emancipação da mulher. Isto é grave, é
questão capitalissima, cujo alcance vai mais longe
do que a tua vida.
Adeus. Animo e esperança. Pensa no Ermo, na
extensão da vida, e no pouco que ella vale dos 3o
annos em diante, e com os revezes da nossa.
Teu
Camillo,
Meu Vieira de Castro.
Quando esta manhã nos sentamos á banca do
almoço appareceu-nos logo a tua imagem, associa-
da ás tuas madrugadas de aldêa. Depois, apraza-
mo-nos um ao outro para de hoje a um anno esta-
res aqui a almoçar comnosco.
Não me sinto mais mal. Os primeiros dias em
Seide são-me sempre agradáveis ; mas os benefícios
do ar duram pouco, se o mal não está no appare-
Iho respiratório.
Tenho recebido todas as tuas cartas, meu que-
rido amigo.
Mando-te o retrato igual ao que se perdeu. Ve-
Correspondência epistolar 4S
remos se lá chega. Leva duas estampilhas para
maior segurança. Olha tu que velhice ! Foi assim
tirado de esguelha para um gravador do Porto ne-
gociar com medalhas que hão de ir á ultima poste-
ridade... por serem de cobre, e não valerem nada
a peso.
Li a noticia do jantar dos homens de letras.
Parece-me que os promotores d'aquella congrega-
ção tem os olhos postos em ti. Se me engano, te-
nho pena que elles não fossem capazes de intenta-
rem um acto soberanamente sublime. Imaginei-os
preparando-se para disporem a opinião degenerada
das multidões a conceber a tua respe'tavel e au-
gusta desventura. Se isto é uma chimera, bem se
deixa vêr que ainda não percebi bem os homens
do meu tempo. Move-me vêr ai li muitos e quasi
todos homens da tua amizade, bem que outros t'a
não mantivessem ostensivamente depois da tua ele-
vação na queda.
Vou agora esforçar a cabeça a escrever o Es-
pelho, Antes d'isso para ensaiar o estylo vou escre-
ver um ou dous folhetins sobre não sei quê. O peor
é este rolar de trovões que me estruge na cabeça.
Ora vê tu, meu José, que desesperação não poder
eu um instante fazer calar estes estrondos, e ta-
manhos que me acordam em sobresalto ! A medi-
cina não tem nada para isto !
Adeus. Tomára-te eu bem entretido a ponto de
quando me escrevesses apenas o fizesses em duas
palavras. Meu pobre filho, em que has de tu en-
Teu
Camillo,
46 Carrespondencia epistolar
Meu querido Vieira de Castro.
Vai recebendo de rosto os infortúnios com essa
triumphante ironia, meu V. de Castro. A tua ale-
gria cá em mim repercutiu como um gemido. Atra-
vés de lagrimas é que eu li a tua carta.
Não creio que a pobreza te assuste. Essa dor
é indigna de entrar onde estão outras extraordiná-
rias. Não tens filhos ; não receias que elles te res-
ponsabilisem por lhes teres deixado a herança da
tua fatalidade. Caminha serenamente para a pobre-
za, verás como ella te recebe com um sorriso que
a fortuna raras vezes tem.
E' preciso que salves o Ermo do naufrágio. Con-
fio muito n'aquella solidão para que a tua alma se
retempere. A coroa brazileira deixal-a ir. A tua
cabeça é grande de mais para cousa tão pequena.
Como monumento de uma noite gloriosa, basta-te
a memoria. Que te levem embora tudo que de lá
trouxeste ; mas que te deixem a casa onde nasceu
teu pai, e d'onde provavelmente lançarás um ex-
tremo olhar para as paragens lagrimosas da tua
peregrinação.
A infâmia que me contas do F... é exorbitan-
te ! Quem o instigaria ? Provavelmente veio d'ahi
a depracada. Isto tudo convém á tua defeza. Seria
bom que no dia do julgamento esta protervia não
esquecesse, porque eu sei que se faz n'ella grande
fundamento para a accusação. Vê-se que procuram
descobrir crime ou infâmia que te denigra o cara-
cter. Elles bem sabem que o arrebatamento da
honra e coração dilacerados não são matéria para
condemnação.
Correspondência epistolar ^y
Adeus. Cada vez te peço mais coragem, meu
querido amigo.
Teu
Camillo.
Meu querido José,
Pensou bem o Jayme. A carta, posto que excel-
lente, não convinha. O ar, que tens mantido, de
indiíFerença pelas calumnias, alterar-se-hia com o
apparecimento d'este papel. Se as affrontas gran-
des tem corrido livres, deixar passar as pequenas.
A honra de teu irmão, se foi aggravada, deve sa-
crificar-se. A opinião publica não merece a satis-
fação. Permitte porém que eu te diga que a remes-
sa das jóias para o Brazil tinha sido um bellissimo
expediente da tua nobre alma.
Teu
Camillo.
Meu querido José,
Povoa de Varzim.
Cheguei aqui ds sete horas da tarde, e estou es-
perando a sege que ás duas me ha de levar para
Seide. Estou peorando debaixo da impressão tris-
tíssima que me fez esta feia cousa. Não sou capaz
de esperar que a luz do dia m'a mostre de novo.
Tu não imaginas os dolorosos caprichos d'esta
enfermidade que me está despedaçando. Lá vejo
4^ Correspondência epistolar
no céu a lua sereníssima. O estrondo que me re-
boa nos ouvidos não me deixa ouvir o mar. Assal-
tam-me Ímpetos de loucura, quando penso que es-
te inferno não ha de passar.
Volto para a pobre mãi e para os pequenos.
Soífro lá menos, como quem vê os braços onde ha
de expirar. Não me consideres encarecedor dos
meus padecimentos. Eu estou gravissimamente
doente, e de certo não te vejo mais.
Era um sonho a minha conjectura da associação
dos escriptores ? Não me deixam acabar com alguma
santa tolice na alma ! Parecia-me asneira sem fito
aquella constellação de luzeiros grandes e menores
á volta d'uma terrina de sopa de talharim, cruzan-
do brindes, e ungindo os pulsos de Bordeaux falsi-
ficado para se arrostarem contra a hydra da igno-
rância ! Então, o intuito do congresso, a meu ver,
entende com algum monte-pio que permitta aos es-
tômagos letrados não se ajoujarem á vacuidade dos
craneos ? E' bom. A plêiade não quer resvalar ao
abysmo da gloria pela rampa da miséria. Quer ter
a certeza de que, na decadência do génio, mão be-
nigna e previdente lhe ministre a canja de gallinha
e a bolacha americana ! E' bom. Ha ahi sujeito que
se houvesse de engulir a chave de Gilbert, primeiro
enguliria a alavanca de Archimcdes ; o qual rolaria
este globo e o faria tombar no espaço, se os tivesse
a elles como ponto de apoio da alçaprema. Parece-
mc que estou a parvoejar. Adeus, meu querido
amigo. Se Deus nos deixasse ainda conviver debaixo
das telhas do Ermo, com dous raios de entendi-
mento, que cousas não tiraríamos da lama para o
prelo ! Tenho nos miolos aquelles diabos azues do
Alfredo de Vigny. Parece-me que vem ahi a sege.
Correspondência epistolar 4g
Tenho muito frio. Ha quatro noites que apenas
durmo instantes. Adeus.
Teu
Camillo,
Meu Vieira de Castro,
Sempre é bom saberes que tens um amigo e eu
um admirador em Pernambuco. Mando-te a carta
do homem que me parece bom sujeito. Ha quatro
dias que não te escrevo. Nem isso tenho podido
fazer, único acto em que entra a vontade dô cora-
ção. As noites são as mesmas e atribuladas. Hoje
veio uma sobre-carga de dores nervosas nas pernas
que me privam de andar. No fim d*esta semana
tenciono ir para Villa do Conde começar os banhos ;
espero não passar do primeiro como no anno pas-
sado me aconteceu.
Tu desculpa, meu amigo, estes boletins sanitá-
rios. Entre as contingências da enfermidade esta de
estar sempre a martellar no soffrimento é a mais
dolorosamente estúpida. Torna-se um homem egoís-
ta e quer que toda a gente o esteja contemplando
como o pobre que mostra um cancro nas feiras. Eu
compenctro-me d'este ridículo, e vou gemendo e
queixando-me.
Eu queria saber como tu ahi passas os dias, e
com quem. Disseram-me que tens um dedicado
amigo chamado Pereira de Miranda. Conheço-o de
vista, e ouvi-o estrear-se brilhantemente na cama-
rá em junho do anno passado, se bem me recordo.
Encareço tanto mais a probidade do amigo quanto
elle deve ser dos mais recentes na tua carreira
VOL. II 4
5o Correspondência epistolar
tempestuosa, cujas ondas te hão levado muitos. Al-
guns dos que ellas levaram na ultima procella es-
tou-os a ver um dia no lixo entre as alforrecas da
praia, quando a tempestade acalmar. Espero que
as tuas botas os sintam.
Fujo de te magoar com este assumpto, porque
receio que sejam verdadeiras as minhas suspeitas.
Dize-me «hoje alguma cousa do teu espirito, meu
querido amigo.
Teu
Camillo,
Meu querido amigo,
Accusa uma profunda desanimação a tua carta.
E' a mais triste de quantas me tens escripto e a que
mais dorida impressão me deixa. Os teus raptos de
espirito em antagonismo com essa dor abafada não
me illudem, filho. Receio que estejas escurentando
de mais o teu destino. Estás amparado na tua hon-
ra, embora o mundo te faça suar o sangue de to-
dos os que se atreveram a sahir da craveira vulgar.
Que fugissem de ti uns homens que não podiam
louvar a tua desaíFronta sem se arguirem de infa-
mes, era justo e racional ; mas que os bons e na
apparencia honrados o hajam feito, é indecencia
para que eu não tinha bastante imaginação.
Tenho como certo, rneu amigo, que terias procu-
rado o beneficio da morte, se eu podesse duvidar
da lucidez da tua razão quando cedeste ao impulso
do ódio que devia ser medido pelo amor e pela
dignidade. Eu também, na tua posição, seria o juiz
do meu desatino e cuidaria que me lavava da no-
Correspondência epistolar 5i
doa e grangearia o perdão da victima, suicidando-
me. Quem se lembra, porém, da injustiça do teu
acto ? Por um lado recriminam-te a premeditaçao ;
por outro querem-te abcecado pela allucinação ins-
tantânea. As horas que decorreram desde a infil-
tração do veneno que te assaltou o coração até á
explosão terrivel, não devem chamar-se premedita-
çao. Esse periodo foi o elogio da tua Índole. Deram-
te a punhalada : a chaga cancerou-se, a gangrena
generalisou-se. Era preciso o decurso de horas e
dias. Queriam que tivesses inteirado a vingança
matando um homem que se offerecia como o infame
amarrado á pontaria de algum cobarde maior do
que elle. Abstiveste-te d'essa ignóbil gloria. Bem
hajas tu. Aquelle homem pertence-te. Se o não ma-
tares um dia hei de esquecer-me de que te chamei
amigo. Sei, juro que o matarás.
Estou muito incommodado da cabeça e vou sahir
para o Porto. Ha três noites que não durmo. De
lá irei talvez para Villa do Conde.
Adeus, meu filho. Hombridade, virilidade, har-
monia no teu caracter. Quem viver de hoje a dez
annos, vêr-te-ha um dos primeiros homens d'este
paiz*.
Se eu então viver, mostra-me esta carta, ou mos-
tra-a aos meus filhos, se eu tiver passado este in-
ferno.
1 Profunda ridiculez e miséria dos que tiram vaticinios
sobre horóscopos da dignidade do homem tão dependente
da conectividade dos maus !
52 Correspondência epistolar
Meu caro Vieira de Castro,
Estou em Villa do Conde ha cinco dias*. Hontem
recebi a tua carta devolvida de Seide. Tranquilli-
sou-me quanto ao estado do teu espirito. E' mau ;
mas não é o que eu devo sempre recear da tua
phantasia mais poderosa do que a razão. Tens ain-
da no teu passado uma cousa bella e salvadora. E'
a saudade de uma pedra e de uma arvore. Quando
ha ainda coração para isso, a felicidade pôde renas-
cer com uma luz pequenina, mas serena, por que
é essa a mais barata e fácil de todas, em razão de
a desprezarem os cegos, e serem poucos aquelles
a quem a desgraça abriu os olhos. Raros são os
infelizes que se apartam da sociedade que lhes ca-
vou a sepultura.
Tu vês o Ermo perto ou longe. Ainda que lá ao
pé te pareça menos convidativo, um anno alli ha de
retemperar-te o espirito, e quanto mais solitário te
vires, mais depressa se irá reformando a nova alma
com que has de tornar ao mundo. Se sahires de lá
cheio de ódios, eu hei de dizer-te que são justos ;
se sahires com mais lagrimas que fel para as per-
versões da sociedade, serás um homem extraordi-
nariamente bom. Em todo o caso, o que eu pedi-
ria a Deus no teu lugar seria o que Manfredo pediu
aos gemidos invocados : o esquecimento.
Tenho sentido aqui algumas melhoras. Comecei
a escrever um drama em formas um tanto largas,
contra o costume dos meus esboços. E's tu que o
inspiras. O primeiro personagem reflecte a luz que
eu posso entrever na tua alma através da conden-
sação d'esta grande noite. Quero que elle seja re-
Correspondência epistolar ò3
presentado. O Moutinho espera-o para uma com-
panhia que escripturou ; mas eu hei de ver se ao
mesmo tempo se dá em Lisboa. Tenho o primeiro
acto escripto. O titulo ha de ser o Sentenciado ou
o Condemnado. Escrevo devagar porque tenciono
concentrar-me quanto possa, e porque acho diííi-
culd^ade em escrever. Este incessante estrondo na
cabeça, dia e noite, chega ao extremo de me pôr
diante a morte como remédio único.
Em um dia doestes passei em Moreira. Apeei, e
fui até ao fim do arvoredo da estrada. Não cheguei
a vêr a casa porque me sentia triste, mas d'uma
tristeza incommoda que parou n'uma afflicção toda
corporal. Retrocedi, e disse commigo: «Para outra
vez.» Essa vez, porém, não virá. A poesia de tudo
aquillo está morta. Ainda bem que eu nunca alli
entrei . . .
Vi um opúsculo em tua defeza, vindo do Rio. A
intenção é boa.
Adeus, meu querido José. Escreve-nie quando
te não custar.
Teu
Camillo.
Meu querido Vieira de Castro.
Deus queira que não commopas ninguém ! — escre-
ves tu. — Eu via a minha vergonha nas lagrimas
que eu tirasse aos olhos d'esta ralé. Eu quero lá
que chorem ! quero que te admirem ! quero que se
vexem os corrompidos ; que te odeiem, que me
insultem-, que me tirem a mim para a lama, e que
nos verberem a ambos. Se alguém, lido o meu livro,
54 Correspondência epistolar
dissesse que eu vingara apiedar uma alma por amor
dos teus infortúnios, eu viria á imprensa dizer que
não seria o mais magoado e entranhado dos teus
amigos, se tu solicitasses dos meus escriptos um
estimulo á compaixão alheia; e que tu desprezarias
o amigo que pozesse a tua causa diante da pieda-
de, exigindo ella ser julgada pela justiça que en
tende em pleitos de honra, e não pela misericórdia
que tem lagrimas para todas as infâmias sympa-
thicas.
Infelizmente escrevo pouquíssimo, e isso a oc-
cultas do medico, para quem a minha cabeça creio
eu que está perigosa. As melhoras são sensíveis.
Tenho dormido o bastante, e não me aborrecem
tanto as cousas e as pessoas.
Eu já tinha reparado na canalhice dos jornaes.
Em compensação alegrou-me um folhetim do Pe-
reira Rodrigues. Tu sahirás d'ahi a conhecer a so-
ciedade e envergonhado d'ella. Sahes novo. Tu
colherás o fructo bom da semente das lagrimas que
hoje vertes.
Das grades de uma enxovia é que se pê bem a
lama que anda na rua, dizes. Agradece ao menos
á tua desgraça essas claridades que ella te dá. Co-
ragem, filho.
Teu
Camillo.
Meu José Caridoso,
Faltam-me ha dias noticias tuas. Pelo que li n'um
periódico espera-se o teu julgamento em outubro.
Tu não me falias d'esse dia. Eu penso n'elle, e não
Correspondeficia epistolar 55
sei se tremo se me alegro quando o vejo avisinhar-
se. O meu convencimento, mais do que vaticinio,
é que serás absolvido. Se o não fosses, todo ho-
mem de honra e pejo deveria vestir luto. A tua
condemnação será um marco da franca estrada da
corrupção. Se na vida conjugal d'ahi avante houver
vestígio de dignidade, será isso o resultado da or-
ganisação — a inércia incapaz do vicio.
Tive agora um clarão de alegria quando li no
Primeiro de Janeiro a noticia tirada dum jornal de
Lisboa. Mais tarde te contarei o que é a imprensa
do Porto. Espero contar-t'o e vingar-me ao mes-
mo tempo. Que admirável ! Quando eu estive preso
achei grande diííiculdade em encontrar um jornal
que dissesse que eu soffria da vista. Graças a
Deus ! chamam te honrado. Bemaventurada prisão
a d'aquelles que a imprensa chama honrados !
Alegra-te. Muita gente ha de começar cedo a
ter remorsos de te insultar no teu magnânimo in-
fortúnio.
De mim, filho, nada te posso dizer bom. Tenho
vivas saudades da solidão de Seide. A urbanidade
d'estes sujeitos de Villa do Conde afíiige-me. Está
aqui o Plácido de Freitas Costa que falia bem
de ti.
A minha doença tem tido algumas intercaden-
cias de abatimento ; mas a cabeça peora quando o
restante parece melhorar. Eu não tenho esperan-
ças algumas de cura. Poderei viver alguns annos,
mas sempre atormentado, e incapaz de trabalhar
56 Correspondência epistolar
ou pensar uma hora. Que velhice tão desgraçada,
meu caro José Cardoso !
Quem nos viu em 1857 ! Adeus.
Teu
Cantil lo*
Meu querido amigo.
Tu has de obrigar a senhora do Brazil a ter
pudor na parte que escolheu na tua perseguição ;
has de obrigal-a a respeitar os actos consequentes
ao desastre da filha, e a ver na tua alma despeda-
çada intactos os ligamentos da honra com o des-
prezo dos inimigos. Creio até que virá um dia em
que ella, se se visse a sós comtigo, choraria o des-
graçado que sua filha aqui deixou. Mas, meu que-
rido Vieira de Castro, não te enganes pela vigésima
vez com o coração humano. Procura descondensar
as tuas trevas a outra luz que não seja a do aífecto
d'essa senhora, que ha de inferir da tua condem-
nação a innocencia da pessoa que ella trata de vin-
gar. Tudo isto, assim dito, é baixo cm relação ao
ponto elevado d'onde olhas as cousas ; mas é ver-
dade. Lá do Brazil não vem lagrimas pela filha e
irmã fallecida : vem ódios, e ardente necessidade
de mostrar pelo julgamento que houve um cego
enfurecido por assomos de vaidade. Devo conje-
cturar que indo tu dizer no tribunal que mataste,
e omittindo a culpa, farás sentir áquella senhora
que és uma alma admirável. A consciência dir-lh'o-
ha •, mas a consciência de tal dama receio que
ande de par com a dignidade. Que, medianjte influi-
ções religiosas, se lhe quebrasse o. animo, debaixo
Correspondência epistolar 5j
da tua sagrada dor e da probidade exagerada dos
teus brios, seria possível, se lhe não conviesse
antes dizer que tu mataras uma innocente, por tua
própria confissão ou pelo teu eloquente silencio.
Dito isto, ha de ser-lhe forçoso não desmascarar os
sentimentos de aversão, embora lá dentro chore a
piedade, e o espirito se sinta castigado pela nobreza
do teu proceder.
Por tanto, meu amigo, eu queria primeiro que
tudo vêr-te livre. Se o aífecto paradoxal da senho-
ra brazileira é cousa que se anteponha á longa vida
que te resta, pergunto eu ao teu espirito em hora
de serenidade. Eu queria que as torrentes tempes-
tuosas d'essc immenso mar de angustias em que re-
ceio sossobres, queria, digo eu, que tomassem ou-
tra direcção, meu desgraçado amigo. Sei como a
tua alma é formada ; sei que não tens a pauta com-
mum para os teus actos e pensamentos. Se o não
soubesse, cuidaria que as tuas faculdades podem es-
morecer de enfraquecidas pela tristeza sem um co-
ração onde chores — coração de mãi, ou de irmã —
que homens não sabem o que é chorar como tu
choras.
Meu filho, um dos grandes galardões que tens
dado ao meu affecto fraternal é consentir-me escre-
ver-te com esta liberdade. Não queiras commiserar
essa senhora nem os seus filhos. Tu não podes achar
sensações de contentamento, se vaes com a imagi-
nação procural-as onde eu até hoje não tenho visto
senão á volta de uma dôr de mãi um apparato de vi-
lanias contra as quaes até os teus inimigos se le-
vantam. Um homem que levantou a cabeça por ci-
ma de um fundo abysmo, e se conserva á espera
que o despenhem sem pedir sequer o applauso dos
56' Correspondência epistolar
homens de coração, deve vingar-se de quem o per-
segue tirando-lhe os últimos recursos. E' o que tens
feito. Desde que te atacaram a algibeira, perderam
o direito á tua compaixão. E ao teu amor ? Pelo
amor de Deue !. . . até breve.
Teu
Camillo,
Meu José Cardoso.
São nove horas da noite de quinta-feira. Sahiu
d'aqui, ha uma hora, o teu António, que me esteve
lendo um bello opusculo-biographico.
E' pena que sagradas censideraçóes o forçassem
a rodear a voragem, com medo de lá ser emborca-
do pela opinião, ou — o que mais creio — de ma-
goar a Lua pobre e santa alma.
O meu drama está mal tecido ; mas ha por lá
dores, que é mais duradouro condão que o do
estylo. Esta cousa de estylo faz-me lembrar uma
sazão alegre que florejou na nossa vida. Nós, tu o
verás, ainda havemos de crer que nos estamos re-
moçando alli por Seidc ou pelo Ermo.
A immensa poesia do teu coração não pôde mor-
rer ; nem cuides que fora do coração possas encon-
tral-a. A tua eloquência era d'elle, os teus atre-
vimentos de generosidade eram todos coração. Do
lá te sahiram as flores e os vulcões. Tu terias sido
bastantemente feliz com essa entranha no lugar
commum dos sisudos temperados com um pou-
co de impudor. Lá ao diante, no declive da vida
para a morte, has de olhar para áquem d'esta pa-
ragem, c terás soberba das dores que soífres ; e,
Correspondência epistolar 5g
quando tanta gente conjura em te afogar no fel os
sentimentos de homem de bem, tu serás piedoso
até com os infames.
Teu
Camillo,
Meu José Cardoso.
Recebo a tua de 29.
Na leitura do drama vi correr algumas lagrimas
em caras rebeldes. Um dos que me pareceram mais
dignos da minha condescendência na leitura foi o
Barros, ex-deputado. O Germano é um bello escri-
ptor, e muito teu affeiçoado.
Não te afílija a demora no julgamento. Os teus
amigos desejam-na. Sei bem como tu pensas ; mas
n'esta desgraçada causa não está só o teu coração.
Tu não eras egoísta na felicidade: não o sejas no
infortúnio. Compartem d'elle teus irmãos, e os que
se sentem pela alma teus parentes.
Que tola calumnia a da tua mensagem aos ami-
gos de F. . . ! Ha doze annos teria graça a criança
loura que tu eras então a diplomaciar com os an-
ciãos que se agarraram ás mscripçôes do homem !
Quando os infames vão tão longe, que lamaçaes
elles não terão remexido ! Deves ter annos muito de
prova para rebater as frechas de insultos que te hão
de, apesar de tudo, varar o peito. Coragem para o
dia tremendo !
Teu do coração
V
Camillo.
6o Correspondência epistolar
Meu José.
Não me espanta o que me contas do procurador
régio. Esse homem é muito do ministro do Brazil,
e commensal muito frequente de um tal Ulrich,
deputado, brazileiro, rico, etc. Além de que^ a ex-
periência da cadêa, obtida n'um anno e i6 dias, re-
laciona-me com todos os infames que compem para
dentro das grades. Lembra-te das sovas que eu
dava n'um *** por causa dos insultos feitos á***.
E mesmo eu não tinha contra mim senão o dinhei-
ro d'um sujeito incapaz de sacrifícios grandes, lu
tens contra ti as devassas de Lisboa, incapazes de
gastar vintém, pagadoras generosas em moeda de
couro (já a usaram as matronas matriarchas) ; mas
é para recear a algibeira da senhora do Brazil que
me dizem ser rica e quasi tanto como respeitável.
Não suspeito que ella vingue prostituir a imprensa
de cá. Os jornaes portuguezes com vilissimas e ra-
ras excepções, se não tem procedido briosamente
também se não tem emporcalhado. Bem é de crer
que se hajam tentado com dinheiro forte alguns es-
cribas. Os temiveis não acceitariam; os desprezí-
veis ninguém quer alugai -os. Eu vou vêr se o Pri-
meiro de Janeiro me deixa por lá ir frechando a vara
de porcos d'ahi.
Trato de vêr se se imprime o drama a tempo de
eu ir em pessoa entregar a cada jurado um exem-
plar com dedicatória. Este acto não pôde ter con-
sequências boas nem más. No drama ha de appa-
recer uma carta que te hei de escrever.
Quando eu estava compondo esta frouxa compo-
sição, podia dar-Ihe bons matizes de sentimento,
Correspondência epistolar 6i
copiando alguns trechos das tuas cartas, e collocan-
do-os na bocca d'um personagem que lá representa
o teu sagrado infortúnio. Não o fiz temeroso da pro-
fanação. As tuas cartas hão de ser lidas quando tu
e eu estivermos em cinza. Ainda tenho entre mãos
o romance. Esse não me corre como contentamento
(que palavra tão mal cabida !) do drama. Como ha
n'elle menos allegorias, a dor é mais funda, e a cada
passo sinto atrophiar- se-me o cérebro.
Teu do coração
Camillo Castello Branco,
Meu amigo.
Era bem de esperar que a Biographia desse mar-
gem grande a commentarios infames. Por alli não
hade o causidico provar o teu atheismo \ a pontaria
é feita a outro escopo. Tu bem a descortinas. A de-
feza d'uma adultera ha de ser apresentada no tri-
bunal como desmoralisação do defensor, e prova de
incapacidade d'elle para se desforçar da affronta.
Entretanto, creio que não defendes lá a culpa ; ape-
nas invectivas contra a villania da perseguição. So-
bre tal assumpto, creio que =^*^ te escreverá, não
sei para quê. Eu por mim terei grande prazer se lá
no tribunal for injuriado juntamente comtigo. Não
obstante, esta satisfação não tira que eu converse
com o advogado da senhora do Rio.
Não gostei de ver a noticia do teu esperado jul-
gamento ainda em novembro. E' cedo; releve-m'o
a tua justificada impaciência.
02 Correspondência epistolar
As cartas vindas do Brazil são documentos do
grande descaramento que lá vai ! Com que gente
te mettcste, meu filho ! Afinal te convencerás de
que a differença que fez Aristóteles entre homem e
homem, se não é bem christã, é verdadeira. O peor
é a surpreza que a tua carta, acerca do Trovisquei-
ra, vem fazer na sociedade. Ninguém imaginava que
elle podesse proceder deshonestamente.
Mostrei ao Germano a tua carta. Gosto que ve-
jas o que elle de ti pensa. Dize-me se com certeza
és julgado em novembro.
Teu
Camillo.
Meu querido amigo.
Tenho as tuas cartas que são duas. Não respondi
por por ter estado incessantemente occupado no
traslado do drama.
Gostei que me não mandasses alguma das mi-
nhas cartas: em verdade, eu teria pena de as ver
debaixo dos olhos de muito infame. Ensoberbeço-
me de que as tenhas em tanta valia. A tua alma fez-
me justiça vendo n'ellas mais alguma cousa que pa-
lavras meditadas de banal consolação.
A imprensa, meu caro José, não tem sido com-
tigo villã como o foi commigo. Espanto-me !
Quando eu estava preso, um jornal do Porto es-
creveu o seguinte : «O snr. D. Pedro v, visitando
as cadêas da Relação, desejou conhecer dous pre-
sos notáveis: José do Telhado e Camillo.» Isto é
que é refinar a injuria !
Correspondência epistolar 63
Devia ser-te dolorosíssima a solidão. Esse moço
desafortunado que estava comtigo de noite devia de
ser-te agradável companhia ; mas espero que te não
quebrem o coração com isso. Tens obrigação de não
ter sensibilidade. Dor houve uma só na tua vida :
as maguas que vierem serão abençoadas, se te fi-
zerem chorar.
.Volto para o Porto amanhã com o manuscripto
do drama. Ja lá se falia contra elle, dizendo que
insulto a cidade da Virgem. Não ha palavra que in-
sulte ninguém. Provavelmente estão-se conjurando
para a pateada.
Affectos.
Camillo.
Meu presado Vieira de Castro.
Encontrei aqui a tua carta de i6.
Não me dás novidade com os amores da senho-
ra F..., pessoa que eu muito pesarosamente não
podia respeitar conformando-me sequer por delica-
deza comtigo. Era-me já notória a sua garridice de
casada, e conjecturou a minha experiência que os
lutos lhe não abastardariam a condição. Eu sabia
isto de pessoa tua quasi inimiga : acreditei ; e, ca-
lando-me quando tu m*a encomiavas com insólita
deferência, dei a suprema prova do meu respeito
ás tuas illusÕes. Agora, visto que ella nada é já em
tua alma, direi apenas que . . .
Os jornaes escrevem que serás julgado no dia 28.
Creio que será deferido o julgamento pela razão que
me deste de se interessar a accusação na delonga ;
eu, contra os teus votos, peço a Deus que sejas jul-
gado mais tarde.
04 Correspondência epistolar
Reli a Biographia procurando os pontos vulnerá-
veis. Pouco vi que oífenda a moral ; e nada que não
seja digno da tua alma aíFectuosa. Por esse lado é
clara e segura a boa sabida do Jayme. E, se elle
attende ás pequenas cousas, contemos com mais
forte applicação ás grandes. Não sei como elle en-
tenderá a tua defeza : oxalá que elle proponha a tua
generosa abnegação, deixando a ao respeito dos bons
espíritos.
A imprensa conta o caso de um padre que te
acompanha muitas horas na cadêa. Eu não sabia
d'isto, nem creio. Apenas conheço um primo teu que
o podesse fazer. Prouvera á Providencia dar-te esse
contraste para contrabalançar no peso de algumas
dúzias de infames.
Está o drama a imprimir. Escrevi uma dedicató-
ria pouco palavrosa. Juro-te pela vida de meus fi-
lhos que não dou valor algum ao escripto como coo-
perador para influir no animo do publico. Fora ne-
cessário que eu não conhecesse esta e essa gente.
Adeus. Teu, sempre teu, meu querido infeliz.
Ca mi lio.
€\deu querido amigo.
Vão-te de mim estas alegrias no dia do teu jul-
gamento. De mãos erguidas peço á Divina Provi-
dencia que, a não poder ella alumiar o coração dos
teus juizes, te dê tanta coragem quanta te for pre-
cisa para coroares o teu infortúnio. Eu tenho o co-
ração cheio de lagrimas n'esta hora, e não acho mais
consolação que a da esperança de morrer e saber
Correspondência epistolar 65
que não viverás n'este mundo mais do que os feli-
zes.
Adeus, meu querido filho. Não te peço que me
dês uma nova que me enlouqueça de alegria, por
que a não espero. Adeus.
Teu
Camillo,
Meu José,
Está a terminar o teu supplicio. Depois d'essa
provação do julgamento começarás a sentir Deus.
Tens padecido immenso porque não perdoaste *, e
não perdoaste porque eras homem ; porém, a mão
de Deus vai erguer-se sobre a tua alma, e então a
sentirás em toda a plenitude da honra. Eu sinto no
meu coração um impulso sobrehumano a chamar-te
o espirito atribulado para fora d'este mundo. Sin-
to-me religioso ao mesmo passo que conheço a ne-
cessidade de igual esteio para ti. Pôde ser que Deus
nos queira dar ao mesmo tempo esta consolação.
Elle tem visto a dolorosa piedade e a admiração
respeitosa com que tenho assistido á tua desgraça.
Dirá elle á minha alma que te abra diante dos olhos
lagrimosos os livros que ensinam as crenças de La-
cordaire — o racionalista que experimentou o toque
divino de Paulo — , do padre Félix e de tanto espi-
rito de hoje que provaram a fé ardente com que
creram pela santa morte que tiveram ? Porque não
ha de ser verdade, meu querido filho, a divindade
de Christo, e a santa coragem dos martyres ? Por-
que ousamos duvidar da celestial origem da reli-
gião em cujo seio os mais desamparados dos bens
VOL. II 5
66 Correspondência epistolar
da vida encontram a doce preexistência da bem-
aventurança ?
Eu, ha seis mezes, que vergo a um peso im-
menso de desventura, traspassado de dores de cor-
po e alma, e a sentir ainda sobre o coração o peso
d'estas duas crianças. Tenho tido relâmpagos de
lu^, que de súbito me levam a esperança para Deus.
Tenho orado, e hoje ouvi com profundo recolhi-
mento os meus filhos orar por ti.
Quando um homem chegou a essa ultima bar-
reira de desgraça em que estás, ou morre esmaga-
do e suíFocado sob o peso dos inimigos, ou se le-
vanta inabalável com os olhos postos em Deus.
Crê, filho, e sentir-te-has a triumphar. Olharás pa-
ra os algozes sem os ver ; e refugirás do passado,
dando o restante das tuas lagrimas aos teus cruci-
ficados irmãos que choram ao pé de ti.
A minha alma irá onde estiveres, martyr !
O que tenho visto escripto contra ti são os dous
libellos e este papel. Que inimigos tens, filho ! Co-
mo a honra da intelligencia humana se ha curvado
diante das tuas dores ! Se não houvesse um ou
dous infames, quem sahiria contra ti pela impren-
sa ! O' meu amigo, que enxovalho vês tu n'esse
papel ? Não o vejo eu. Alli ha um couce de ranco-
roso inimigo. Com a tua desgraça não é possivel a
zombaria.
Não terás tempo para lêr mais, nem eu cabeça
para te escrcNer. Sahi da cama, ha momentos, e
torno para alli onde parece que me negreja a tris-
teza do tumulo.
Alma, meu desgraçado !
Teu
Camillo,
Correspondência epistolar 6j
Meu Vieira de Castro,
Se Deus me desse saúde para eu estar ao pé de
ti, agradecer-ih'o hia com as mãos erguidas. Eu
desde hontem que estou anciadissimo por saber de
ti alguma cousa. Pedi a duas pessoas que me tele-
graphassem. . . Chega o Commercio do Porto, Por
elle soube que deviam chorar as almas que te viram
abatido. Fulgurou-me n'alma um relâmpago de es-
perança n'este momento ! Quem sabe, meu Deus !
quem sabe se te absolvem, meu filho ? Como eu
curvaria a cabeça diante de Deus, se ainda te visse
livre nos meus braços ! Terrivel nova me dás ama-
nhã, se este raio de luz não vem da Providencia !
Meu querido amigo, seja o que for. Salve-se a tua
razão e o teu talento, assim como a tua honra se
salvou aos olhos mesmos dos que te condemnarem.
Vive, meu filho, vive, que o resplendor do teu
martyrio é formoso. A alma que te arrastou até
ahi, não poderá jamais espertar em teu coração um
acordar de remorso. Tudo isso era preciso para
que os annos da velhice te não fossem lacerados
pelos remordimentos que travam da alma ao avisi-
nhar-se da barreira eterna. Tu vaes perante Deus
com a expiação cumprida do que houve desmiseri-
cordioso no teu desastre. Os homens o que fizeram
foi levantar a tua desgraça em pedestal bem alto.
Quando os teus sobrinhos forem homens elles cita.
rão com orgulho a honra que te crucificou; e a allu-
cinada senhora, que te manda ultrajar, deixará aos
seus successores a memoria de ter delapidado os
bens ganhados com honra para defender o crime
de sua filha.
68 Correspondência epistolar
Alma, Vieira de Castro. Se ahi não tiveres um
peito bem cheio de coração — lagrimas, vê Deus
n'essa solidão, e vê-me de mãos postas diante de
ti e d'Elle.
Teu
Camillo.
Meu Vieira de Castro.
Estarás julgado? Se no meu coração fallasse
Deus, estarias obsolvido. A esperança de hontem
reforçou-se com os artigos da defeza. Magnificos !
São a amostra do superior talento do Jayme. Quan-
tos hoje me vieram perguntar por ti, e tinham lido
o supplemento do ^rimeir^o de Janeiro, me alenta-
ram com as suas esperanças. Crê-se possível a tua
absolvição ; mas, ao mesmo tempo, releio a tua
carta, onde dizes : «E' certo que serei condemna-
do.»
E, se o estás a esta hora, eu antes queria essa
dor grande da minha vida \ a incerteza atribula-me.
Porque me não dizem d'ahi a terrível nova que eu
pedi ? Isto faz-me suppôr que foste condemnado.
Se o foste, choremos e levantemo-nos d'este
abatimento. Separa o passado de ti ; entre o que
foste e esperavas ser, e o que és e serás, está uma
cousa esmagadora como a morte. Renasceste. Não
tens passado ; começas hoje. Ao que foste apenas
te liga o que a honra, n'alguma hora, te disser que
sejas. Se n'esse ponto, embora negríssimo, pozeres
os olhos, já tens uma razão forte para que vivas.
Tens de completar o teu caracter. Aniquilaste o
Correspondência epistolar 6g
punhal que te feriu : é mister quebrar o braço que
o vibrou. Grande e nobre aspiração para homem
dos teus sentimentos. Eu peço perdão á Providen-
cia, se ha n'isto um rancor que não serve para con-
solar desgraçados da tua condição. A um homem
ordinário e vulgar seria como instigal-o a ser o
que a honra lhe não aconselha. A ti, não, Vieira de
Castro. Em matéria de dignidade creio que não te
suscito pensamento que não haja ganhado em tua
alma a consciência d'um propósito inabalável. Em
uma das tuas cartas ha uma phrase que m'o asse-
gura \ e, . ainda sem ella, adivinhava-te por causa
mesmo do teu silencio.
Se eu te via absolvido, aqui, comnosco, meu
querido amigo ! Se Deus me desse, no concurso de
tantas dores, esta alegria! Eu sei que nunca mais
um riso bom te alumiaria o rosto. Sei que tarde se
descondensaria a negrura que envolve o teu pas-
sado. Mas que immensa confiança eu tinha no amor
de teus irmãos e no meu !
A estjs horas se está representando no Porto o
drama. Hontem me asseveraram de lá que os . . .
cm obsequio á viuva do Brâzil, iam reprovar com
os pés a audácia. Não o patearão, porque os pon-
tos, em que podiam fazel-o, não os percebem. No
restante, como te não vêem no palco, espantam-se
de não achar a occasião opportuna do desforço.
Oxalá, porém, que o nrieu drama tenha essa imme-
recida gloria.
Estou ancioso pelo correio d'ahi. Sei que me não
podes escrever \ mas alguém me escreverá. Se tu
fosses absolvido, pôde mesmo ser que teu irmão
m'o dissesse. Não sei, meu Deus! Porque conheces
a impaciência das minhas dores, aceita-me esta
70 Correspondência epistolar
como d'um infeliz que não sabe amar senão infeli-
zes maiores. Adeus, meu filho.
Teu
Camillo,
Meu amigo.
Sei já tudo. Sinto vontade de te felicitar. Hoje
comprehendo que nenhuma outra situação te con-
vinha. Tens por ti o respeito de muitos que te ha-
viam vituperado. Adivinho a apinião publica — a in-
fame que colhe as flores de sobre a lama que atira
aos infelizes e coroa os com ellas. A sociedade tem
penetrantes remorsos de te haver injuriado. Hon-
tem pedia a forca; amanhã alcunhará de iniqua a
sentença que te não abriu as portas do cárcere, para
ella ter o jubilo de te insultar outra vez. Bem. Dez an.
nos de degredo. A Relação converterá isso em cin-
co. Tens trinta e um annos. Estás honrado, estás
pobre, estás debaixo d'um castigo que te depura do
que se passou menos piedoso na tua catastrophe.
Não ha no teu infortúnio senão gravidade trágica,
desgraça para assombro e lagrimas. Compaixão!
para quê ? Basta-te o respeito. Passas assim, nobre
condemnado, para que ninguém ousasse motejar-te.
Odiaram-te? Optimamente. As devassas tripudiam?
Bem ! a humanidade, a sociedade o pagrá. uSei que
pratiquei- um grande crime; mas isso não é commt-
go,^ Bravo! meu querido amigo! Não ha nada mais
alto, mais santo, mais lagrimavel ! Lagrimas, porém,
de veneração por essa tua egrégia alma. Em que
estás pensando n'esta hora, meu filho ? Não farás
de ti mesmo este alto conceito ? Fazes. Não ha quem
Correspondência epistolar 7/
mais de animo frio assistisse ao ruir espantoso da
sua felicidade. Ergue-te d'essas ruinas, e verás que
és mais que um homem.
Agora, meu querido José, peço a Deus que me
deixe erguer cedo d'esta cama para te ir abraçar.
O meu terror passou. Hontem fui victoriado no
theatro por amor de ti. Hoje creio que lá serás ado-
rado no infeliz que tem uns traços remotos da tua
desgraça.
**'^ tem chorado esta tarde. Porque ? Ella espe-
rava-te livre, esperava-te aqui; e todavia a cada ho-
ra a assaltava a convicção de que não podias ser
absolvido, depois que a honrosa franqueza das tuas
respostas no tribunal exigia que tamanho triumpho
de dignidade não sahisse á praça d'este infame mun-
do sem pungente castigo.
Meu filho, adeus. Beijo as tuas faces; mas que-
ro-as enxutas de lagrimas.
Teu
Camillo.
Meu presado amigo.
Não te escrevi hontem nem ainda hoje posso di.
zer-te parte do que me enche o coração. Tenho
agradáveis noticias da tua heróica conformidade
Não me enganei comtigo, filho. A carta que hoje
recebeste encontrou-te descarecido de alentos. Ces-
sou a minha missão de consolador. D'ora em diante
os teus amigos devem pedir-te coragem nas suas
angustias.
Estou de cama : perdi ambos os ouvidos : ficaram-
me horrendas dores, que me tomam toda a face.
7 2 Correspondência epistolar
Não ha que fazer d'este podre estojo de uma alma
que Deus deixou acabar alanceada por obscuras di-
lacerações. As tuas desgraças, meu querido amigo,
encontram-me abatido demais para que eu me res-
tringisse a lamental-as. Soífri muito pensando nas
tuas noites de cárcere. Não hei de softrer pensando
nas do desterro, porque hoje creio que vai Deus com-
tigo.
Asúm se julgava em Jerusalém. . . Que sublime é
aquilio!
Adeus, Vieira de Castro. Beijo as tuas faces com
extremos de pai.
Teu
Camillo.
Meu Vieira de Castro,
Recebi a tua carta escripta depois do julgamento
e outra hontem. Algumas terás minhas que se tem
encontrado com as tuas. No concurso de desventu-
ras que te assoberbam, tem faltado a da doença.
Não sei se este beneficio te é concedido para que
toda a força da sensibilidade se te concentre na al-
ma, visto que as dores corporaes quebram as do es-
pirito. A mim, graças a Deus, equihbram-se umas
com outras, de maneira e forma que me não seja
pcrmittido um instante de contentamento, nem se-
quer de esperança n'elle. Este tormento dos ouvi-
dos é d'uns que eu d'antes imaginava que me en-
doudeceriam se durassem uma hora. Como se não
bastassem vinte mezes de ouvir incessantemente
uma zoeira de mar tempestuoso e um silvo de va-
por, accresceu agora a dor penetrante de lado a
Correspondência epistolar jS
lado. Ora vê tu, filho, no que se tornaram aquelles
dous rapazes que em i858, na travessa do Laranjal,
diante de um inspirativo fogão, conversavam acer-
ca de. . . Que tombos do mundo e de nós ! Tu es-
tás ahi a olhar para as trevas que vem; e eu, enve-
lhecido, acurvado para o tumulo, e a resvalar para
elle por entre os braços de dous filhos !
E onde, meu filho! onde doze annos depois, pa-
ramos a olhar para o passado ! Não sei se um quar-
to de cárcere cederia em tristeza a um em Villa do
Conde.
Passam-se semanas sem que eu tenha sequer ani-
mo para sahir da cama. Não posso trabalhar, e dif-
ficilmente entendo o que leio, quando os olhos se
não esquivam.
Deliberamos ir para ahi no principio de janeiro,
não obstante eu ter de lá sahido doentíssimo. É
bem de suppôr que ahi estejas ; mas, se houvesses
de sahir mais cedo, eu iria já. Presumo que não po-
des sahir sem que a Relação responda ao aggravo.
Mil cousas te quero dizer, menos próprias d'esta
carta. Adeus, meu querido amigo, santa aífeição que
symbolisas todos bem que poucos dias de alegria no
fim da minha mocidade. Mortos somos ambos. A
posteridade, sempre curiosa, notará que dous tama-
nhos desgraçados se houvessem prezado tanto. Não
é isto vulgar. Deus me deixe viver para que eu pos-
sa escrever a tua biographia, e sentar me no banco
dos réos a responder á pergunta infame da razão
que eu tinha por te julgar tão honrado, tão bom,
tão martyr, e tão digno de se padecer por ti. Adeus,
meu filho.
Teu
Camillo.
7^ Correspondência epistolar
Meu amigo do coroação.
Que valeriam dramas, se a tua desgraça não fos-
se o drama ? Uma idéa no theatro, e essa escripta
a medo, como quem receava damnificar a tua po-
sição, é o que é a obra que o mundo, este mundo
do Porto, teria reprovado, se tu não transpareces-
ses alguma vez no personagem em que os parvos
quizeram vêr-te. Ainda bem que os doutos não vi-
ram no meu drama armadilha á curiosidade, e me-
nos especulação vil. E' aquillo que te digo na dedi-
catória : uma composição em que fluctuam idéas
que alguma vez esvoaçariam no teu animo.
A opinião publica desfizeste-ae refizeste-anomodo
como respondeste ao juiz. Poucas palavras vinga-
ram mais do que o óptimo discurso do Jayme. O
que geralmente se diz de ti é que íipeste ra{ão. Não
pôde dizer-se mais, senão que te absolveriam to-
dos se fossem jurados. Eu não os creio, meu ami-
go. Urgia que o jury estivesse fulminado pela tua
dignidade para dizer que não estava provado o que
tu confirmavas, honrando-te com o feito de homem
de bem. Foi a coroa de esplendido martyrio com
que remataste a tua magestade no infortúnio. Se
houvessses fugido em vez de te apresentares á jus-
tiça, terias procedido com vulgar e leio desaccordo.
Se sahisses absolvido, ser-te-ia impossivel com vin-
te annos de solidão conseguir a rehabilitação que te
deram em três dias.
Se estas crianças me não tivessem como chum-
bado n'este grilhão de soífrimentos, eu pedia a Deus
licença para me dispensar do peso da vida. Adeus,
Correspondência epistolar jS
meu filho. Até qualquer dia. Sinto uma tristeza in-
fernal.
Teu
Camillo.
Meu querido filho.
Teu irmão levantou os olhos da alma para onde
eu fitara os meus. Bello coração e superior enten-
dimento. Vou fazer novo estorço por te ver. Hoje,
tenho tido uma leve melhora. Acabo de ler um li-
vro que me fez chorar. Chama-se Nossa Senhora
de Lourdes, E' uma traducção que d'ahi me en-
viou não sei quem. Tem uma maviosa historia a
recepção d'este livro. Eu estava na cama ás 7 ho-
ras da noite, tristíssimo, aborrecendo quantos livros
me lembravam. Pedi que me trouxessem um mau
livro de Gauthier : Mademoiselle de Maupin, Abri-o;
enojou-me. N'isto, chega o correio com o livro de
Nossa Senhora de Lourdes, Abri seis paginas no pro-
pósito de não ler mais. Li tudo, li 465 paginas. Cho-
rei ! Bella cousa chorar ! se sentires um raio de fé
na tua purificada alma, lê ao menos seis paginas.
Adeus ! quem me dera vêr-te nos meus braços !
Teu
Camillo,
Meu querido José,
Li todo o processo. Eu não pensava que umas
cartas de bacharel facultavam o alvedrio de tão su-
j6 Correspondência epistolar
perlativas infâmias como ahi vão no insulto do ad-
vogado da authora ! Aquillo, se não é original, foi
imitado de algum causidico que sahiu da taberna
para o foro, e d'aqui para o esquecimento da hu-
manidade envergonhada. (Nota 2.*). Lá me vi en-
xovalhado ; mas que direito temos nós a queixar -
mo-nos, se tu não te queixas, meu amigo ?
A' volta do pedestal d'um anjo de bello mármo-
re apparece ás vezes n'um jardim um sapo com a
sua pelle rugosa a reçumbrar peçonha. E, por des-
graçada analogia, estava ao pé do vomito bilioso do
canalha o discurso de Jayme Moniz. Que bello fei-
xe de fiôres orvalhadas de lagrimas ! Que talento a
competir com o coração ! Eu chorava lendo-o. Que
doce angustia não seria ouvil-o !
Vi-o uma vez. Era um semblante doentio, elegia-
co. Espalhava-se-lhe nos olhos a luz da fronte, onde
um formoso anjo da tristeza parecia ter bafejado
inspirações das que vem de outra vida. Gontem-
plei-o, e cada vez que os periódicos fallavam da en-
fermidade d'elle, eu contristava-me como se o ti-
vesse no coração. Mas o mais bello da tua defeza
não foi a eloquência d'elle : devia de ser a commo-
ção. Que triumpho elle alcançou, podendo chegar
ao periodo final sem o exprimir soluçando! A tua des-
graça deixa aquelle discurso, como as estatuas que
se curvam a chorar sobre as urnas das cinzas nas
sepulturas. Sc um dia poderes dar-me o retrato do
Jayme, eu t'o agradecerei muito. Adeus.
Teu
Camilio.
Correspondência epistolar ']j
Meu querido José,
Não te escrevi ha quatro dias. Desejei conversar
com o teu mano António, que fez o favor de me
procurar; mas não pude ir á hora em que elle es-
tivesse desoccupado.
A tua ultima carta deixa-me uma suave esperan-
ça de que as tuas lagrimas emfim se esgotem, e o
luto não vá além do tempo em que pôde vestil-o
uma honrada alma. Quanto me revelas de profun-
das commoções t'as adivinho eu pela intuição que é
o talento dos grandes desgraçados. Distingues a al-
ma que trahiu da alma que amou; d'esta chamou
Deus a si a luz que era sua, e por isso ainda te
alumia as visões e t'as amargura com saudades.
Resta-te, pois, esse vasto infortúnio, a religião, o
mysticismo que mais tarde se desfigura em tranquil-
lidade absoluta de consciência, absorvida toda na
honra, que tem sido, e só essa, o teu amparo.
Eu nunca te disse, meu querida amigo, que todo
o meu terror consistia na idéa de que a final o cri-
me te parecesse inferior ao desforço. Desde a hora
em que oscillasses na injustiça ou demasia da tua
vingança, o teu tribunal intimo matar-te-hia, antes
do julgamento cá de fora. Depois, porém, que li o
processo, desfez se-me todo o receio, e alegrei-me com
vêr-te absolvido diante de ti próprio. Insisto em te
dizer que os dez annos de degredo são o preço por
que com_:iraste o direito de ser encarado com res-
peito pela maioria, e com ódio por alguns ; mas com
motejo, com piedade insultadora, por ninguém. A
ti o que te matava fulminantemente seria a irrisão.
Essa foi que tu sopesaste para todo o sempre.
7<5* Correspondência epistolar
N'outra situação — na vulgar dos que toleram — as
tuas lagrimas seriam ridículas ; as que hoje chora-
res, ou por excesso de compaixão, ou por amor ex-
traordinário, são respeitabilissimas. Adeus, meu
Vieira de Castro. Dá-me a consolação de saber que
ha uma hora em que vês alguma luz diahte de ti.
Teu
Camillo.
Meu amigo.
Sente-se no coração a causa de me não enviares o
retrato do Jayme. Como é que ainda ha almas as-
sim ? Com que perfumes do céo resistem ellas á
peste do mundo ? Por isso esse rapaz vive tão só
comsigo, tão apartado da gente. Uma noite, encon-
trei-o n'uma rua despovoada, quasi reclinado sobre
o hombro de uma senhora. Creio que toda a sua
vida era ella; nas lagrimas d'esses olhos se teria
elle visto, em noites de doença, e nos dias sem sol,
sem alegria, sem outra consolação que a das lagri-
mas que fazemos chorar. Os desterrados que se
afazem ás tristezas d'uma convivência assim santifi-
cada por a própria indiíFerença da sociedade, por via
de regra são bons, e mais depressa acham o raio
de luz que leva á Divindade. Entre as cousas divi-
nas vê-se a alma chorada da mãi e a certeza de ou-
tra existência. E depois, deixar ir a vida de tempes-
tade em tempestade ; a salvação é segura ; o farol
do porto nunca se apaga.
Dize-lhe que nós lhe agradecemos infinitamente o
affectuoso respeito com que mandou desviar a inju-
Correspondência epistolar 7^
ria de sobre a sepultura das nossas alegrias. Dize-
Ihe que ella penou dezenove mezes encarcerada en-
tre paredes que gotejavam, e que desde então, ha
onze annos, ainda não teve um dia em que a des-
graça a não pozesse diante dos insultos da socieda-
de. Dize-lhe, em fim, que ella teria abençoado o
marido se a matasse, visto que esta sociedade não
prescinde de atirar lama ás que não morrem, e san-
tifica as que morreram. Está muito castigada. Digo-
t'o eu como um penitente o diria a Deus para ha-
ver misericórdia pela humildade da confissão.
Sinto-me hoje muito doente, meu filho, e incapaz
de pensar. Adeus, até breve.
Teu
Ca mil lo.
Meu querido amigo.
Escrevi hontem e hoje um opúsculo que te dedi-
co. Suggenu-m'o uma conversação que tive com um
abbade, no caminho do Porto para aqui a teu res-
peito. Este homem havia sido condiscipulo em Coim-
bra de teu tio António Manuel. Contou-me elle um
caso de adultério, que eu refiro. Guardei quanto
pude e quanto devia respeito ás cinzas da snr.*
D. Claudina — respeito á porção da alma immacu-
lada que tu extremas do que houve deplorável na
condição d'essa senhora. A'manhã vou ao Porto fa-
zer imprimir esta pequena cousa, que valerá tanto
como as outras no teu destino. Nada, miseravel-
mente nada. Este e outros escriptos meus em que
o teu nome vier, são legados que eu deixo aos meus
filhosy^^para que elles os transmittam como prova de
8o Correspondência epistolar
que eu te quiz muito, e dei testemunho da tua digni-
dade. Bem sei que, a feição d'esse villanaz do tri-
bunal, a sociedade me está asseteando com insul-
tojs. Quando appareceu o Co;/<i^/72;7ac/o, uns perió-
dicos portuenses de dez réis assobiaram-me a valer.
Um d'elles pedia-me que escrevesse o drama do
meu crime com uma mulher que fizera morrer de
paixão o marido. Achei certo bom senso n'isto, dada
a hypothese da capitulação pathologica da moléstia
do defunto. Adeus. O Santos crê que o drama se-
ja bem acolhido.
Teu
Camillo.
Meu querido amigo
Lá vai o anno que abriu a represa das tuas amar-
guras. Nenhum da minha vida foi tão acerbo como
este. Nada espero do que vem, nem dos outros. Al-
gum tempo a espectativa da morte consolou-me de
muitas dores. Isto succedia no tempo em que eu
não tinha justiça quando me queixava da sorte. Ago-
ra, depois que estas creanças brincam felizes na
minha negra atmosphera, e a respiram com delicias,
a morte apavora-me.
Ha três dias que estou na cama olhando para
estas neblinas do mar que me gelam a alma. Lem-
bro-me de ti, atando o passado com o presente, e
fugindo da perspectiva do nosso futuro de ambos.
Punge-me quando quero, — e não sei nem posso —
dar-te consolações. Meu querido amigo, não tens
amigo mais dedicado nem mais infeliz. Assim devia
Correspondência epistolar 8i
ser. Os afortunados não saberiam chorar por ti por
não haverem chorado por si mesmos.
Meu filho, esperemos.
Teu
Camillo.
oMeu querido filho.
Esta tua carta, meu amigo, deveria eu aceital-a
como merecida, se eu houvesse escripto o drama co-
mo eu sei que o podia fazer, cheio de inspirações da
tua desgraça. Tenho diante de mim dous invenciveis
empeços: um e principal o sagrado respeito que não
deixava transferir d'ahí para um palco um homem
como tu ; o outro, era o medo de que a gentalha
infamasse o escripto com as vaias de especulação.
Desviei-me pois muito de ti, e apaguei no meu es-
pirito quanto pude a trágica poesia que paira sobre
o tumulo. Bem viste que fiz gravitar a acção do dra-
ma para uma filha com que eu quiz affrontar a sus-
peita de que eu ia pintar-te, ao par de não sei que
infame.
Desejo muito que appareça o opúsculo que escre-
vi. Lá deixei fallar mais o coração e espirrar o fel
sem que elle bata na cara senão dos que vivem. Es-
crevo-te com grande difficuldade na cama. Estou
bem doente, meu filho.
Mcu querido amigo, eu não me lembro de ti sem
lagrimas. Adeus.
Teu
Camilio.
VOL. II
82 Correspondência epistolar
Meu amigo,
Dize-me como está a tua alma, filho. Quando me
faltam as tuas cartas, receio que a saúde, ao cabo
de tantos abalos, se te enfraqueça. E' bom e justo
conjecturar que não desejas viver ; mas eu que pre-
vejo uma épocha de tranquilidade no inverno da tua
vida peço a Deus que lá te deixe chegar, e que os
meus filhos ainda deponham nas tuas mãos as car-
tas que recebi tuas n'esta desgraçada occasião.
A verdade terrível que eu já vou experimen-
tando é uma tristeza com anciãs de desesperação
que me não deixam trabalhar, e que tudo me ves-
te de negro. Estou adivinhando, persinto o abrir-se
um abysmo que me vae devorar a vida, ou, peor, a
razão.
Deus se doa de desgraçados como tu e eu.
Teu
Cantil lo.
Meu querido amigo do coração,
Peço-te perdão pelos desgostos novos que o meu
drama te está grangeando. O primeiro é o artigo
do Jornal do Commercio de sabbado. Se aquillo é
verdadeiro, o drama desagradou e cahiu a pontapés
da moral publica. Se aquillo é mentira, é mister
desfaçatez muito animosa para vir assim adulteran-
do o que o publico pensou do drama. As recitas se-
guidas parecem desmentir o critico. Seja como for:
Correspondência epistolar 83
protestei ; viu-se o protesto ; pateiem-me ; mas que
te poupem, meu querido amigo. O Diário de Noti-
cias, cujo couce eu esperava, houve-se mais beni-
gnameme. Ha jornaes que nada dizem, e louvados
sejam por isso.
Parece-me que escreverei algumas cartas ao G.
de Meirelles acerca do meu drama, se a imprensa
d'ahi me provocar. Então é que eu hei de revolver
ódios e fedores de boas almas remexendo a fundo
nas latrinas. A tua desgraça ha de apertar mais a
orbita de degredo da sociedade — degredo em que
eu me expatriara ha muito. Não deixarei de mim ou-
tra memoria boa.
Com muito prazer dedicarei o livro ao teu amigo
de Pernambuco. Tenho pena que m'o lembrasses.
Teu
Camillo.
Meu querido amigo.
Estou espantado. O que ahi se diz do drama é
tudo quanto eu não podia imaginar. Pesa-me que a
imprensa o não diga. Hoje escrevo a * =* * pedindo-
Ihe que me remetta o que se houver escripto con-
tra o Condemnado, Estou reunindo os elementos
para escrever uma carta que, se me não engano, ha
de valer mais que o drama. O Jornal do Commer-
cio será o escopo ostensivo ; mas cu queria envol-
ver nas roscas do vergalho o F. . . e o F. . .; e, se
o F. . . me dér azo a inflamar-lhe os seus antigos
brios, estimarei. Eu sou menos bom do que tu. Que-
ro me só com os infelizes bons. Que saltem para o ou-
84 Correspondência epistolar
tro lado todos os infames. Não ha ninguém mais inde
pendente com a resalva d'um caldo de couves. A
raiva do J. .. desafiei-lha com duas ailusões a um
famoso artigo sobre a Inviolabilidade da vida hu-
mana^ qce o Herculano mandou de Casal de Lo-
bos, segundo é fama.
Os olhos não me deixam escrever, filho. Estão afo-
gados em lagrimas ; mas olha que são de ophtalmia.
Alvoroça-me uma alegria vinda não sei d'onde.
Tu não irás para a Africa. Deus não te abandona-
rá a estes cafres nem aos outros.
Teu
Camillo,
Meu querido José,
Escreveu-me hoje o Santos, espantado da guer-
ra surda que lhe faz a imprensa, e, ao mesmo tem-
po, diz que o drama é applaudido. Gonta-me da
pateada é inaugurada por dous, que succumbiram ao
estrondo da manifestação contraria. Este espanto
do homem é irrracional. Eu sinceramente te digo que
esperei a noticia de terem sido quebrados os ban-
cos na primeira representação. Pois é possivcl que
dez grosas de cocottes inéditas não dispozessem
das ferraduras dos maridos e amantes contra o dra-
ma ? ! Onde está o brio d'esses alcouces ?
O Condemnado devia ser já retirado da scena,
visto que está impresso.
A' excepção do Primeiro de Janeiro^ não houve
um jornal que dissessse duas palavras aíFectuosas ao
livro, e este mesmo desde que viu a catadura da
imprensa de Lisboa, encolheu-se silencioso, e com-
Correspondência epistolar S5
mungou no conciliábulo do que por ahi chamam
respeito á moral.
Eu lucto. Vou escrever logo que d'ahi venham
farrapos com que eu possa bandarilhar essa gente.
Que queria o F. ? Que queria esssa senhora de
quem a sociedade diz o que eu não ousaria bosque-
jar muito em sombra ? Oh meu caro amigo, se Deus
me desse saúde, e um clarão de alegria, com que
amor d'arte eu não entraria de tamancos por esses
lamaçaes dentro !
Levantei-me á noite, porque a alma me dava phre-
neticas vibrações. Tenho andado duas léguas no
âmbito do meu quarto, e não comsigo acalmar a fe-
bre nervosa que me faz o pensar na impossibilida-
de em que me vejo de fugir para sempre d'este in-
fame paiz com os meus pobres filhos.
Reparte commigo das tuas dores que eu tenho co-
ração para ellas.
Teu
Camillo.
Meu Vieira de Castro,
Alegrou-me a tua carta de hontem, meu querido
amigo.' As que me tens escripto depois do julga-
mento convencem-me que a desgraça não feriu a
tua poderosa compleição intellectual. Lá está o teu
espirito, a graça fulgurante, o lume vivo dos coris-
cos de sarcasmo que são, a meu ver, o supremo ta-
lento d'este século — a feição litteraria que unica-
mente quadra ás cousas e ás pessoas do nosso tem-
po. Parecer-te-ha puerilidade ; mas alargou-se-me o
86 Correspondência epistolar
peito de jubilo quando pude rir-me, pela primeira
vez, depois que me esereves d'essa casa.
Quanto a entender com a imprensa de Lisboa,
não poderei aceitar a teu parecer. Se não for já,
será na 2.* edição do Condcmnado, se se fizer de-
pressa. Se não, escreverei no Primeiro de Janeiro,
A'manhã fica prompto o opúsculo. Vale pouco co
mo estylo e como tudo. Tem valor intrínseco, só para
ti. Olha que o padre já morreu depois que eu co-
mecei a escrever a narrativa. Era abbade nos su-
búrbios de Guimarães. Lê a ultima pagina e dize-
me que raivas eu vou accender n'esses peitos de
matérias azotadas inflammaveis ! Eu queria que es-
sas duas paginas finaes fossem desenvolvidas pelo
talento do Jayme. Se eu te podesse defender, fal-
laria n'aquelle sentido duas horas, e pouco mais
diria. Não citaria criminalistas nem physiologistas.
Desprezaria as futilidades do alfayate, das econo-
mias, da casa alugada ou devoluta, etc. Pôde ser
que d'ahi resultasse o darem-te condemnação de
maior pena. Eu tenho dito que só um homem po-
dia defender outro na tua situação : eras tu. N'este
paiz, ninguém mais. Tu eras, e serás o mais elo-
quente homem de Portugal. Quando tiveres a mi-
nha edade, terás restaurado a tua primazia. Eu já
te não ouvirei ; mas pedirei aos meus filhos que se
façam vistos de ti. Has de ser tu quem os ha de fa-
zer homens. D'aqui t'o peço.
Teu
Camilo.
Correspondência epistolar Sy
Meu querido José,
Devemos hoje receber o opúsculo. Não ajustam
as idéas finaes que vão n'elle ao que tu adoptarias
na defeza de um réo nas tuas circumstancias. Eu
não saberia, meu filho, tirar da fria premeditação as
illações directas e commoventes da desculpa. Um
realce d'alma, uma concepção introversa deixa-me
entender o teu espirito ; mas com palavras, com ar-
gumentos não vingaria ninguém, que não fosses tu
com o teu talento e as tuas experimentadas angus-
tias, convencer nem sequer persuadir. Desforços de
tal ordem serenamente meditados ! Deus me livre
da sombra dos infernos que atravessaste até che-
gar ao leito onde o teu coração já não podia receber
um abalo de piedade. Eu concebi que os dias ou ho-
ras que intercorreram desde a affronta ao desforço
foram uma cadêa de idéas, umas a derivarem das
outras, fechada em fim pelo elo da morte. Poderei
ter-me enganado. E porque não ? Quem é que pôde
julgar-te? A tenta da psychologia não alcança o abys-
mo onde tu meditavas ou premeditavas. Parece-me
pois que me desencontrei da tua alma e razão no
modo como expliquei muito superficialmente o que
foi em ti a premeditação. Esta tua carta deixa-me me-
ditativo, a scismar como um hábil artista da pala-
vra, mais ou menos accêsa pela paixão, poderia aba-
lar a consciência d'um jury. Hei de tentar, como ar-
tista, como romancista alguma vez esta these que
me causa um assombro ligado ao desejo de a poder
seguir de modo que tu a applaudisses.
Os meus filhos receberam os teus recados. O
88 Correspondência epistolar
Jorge vê muito o teu retrato, e fixa-o com tristeza.
Adeus, fiiho.
Teu
Camillo,
Meu querido amigo.
Recebo duas cartas, incluindo uma a Secreta que
hei de ler devagar. Já a li de fugida, e folguei de
vêr que tocaste os pontos capitães em que eu as-
sentaria a tua defeza a dentro do rigoroso circulo
da premeditação.
Agora fallemos da tua mágoa por amor da má
interpretação que a maldade ou a estupidez podem
dar á narrativa. Primeiro que tudo, contei uma his-
toria ouvida, e essa historia não era a tua. Em se-
gundo lugar, seria inverosímil que a mulher agoni-
sante dissesse ao sacerdote: amei e fui amada:
se amou, esqueceu o amor ao través do supplicio
de annos; se foi amada, não ousará dizel-o ainda
que o sinta. O que ahi ha não só verosimil, senão
verdadeiro, é o marido dizer: «Mentiu-me! se me
não amou, fingiu-o ; eu aceitei a mentira e a mu-
lher; cahida a mascara, vi a infame; castiguei a na
extensão da perfídia. Quiz demorar-lhe a agonia
tanto quanto podesse, aproximando-a da duração
da minha irremediável desgraça — coração e orgu-
lho esmagados.»
Mas a que vem isto ? Repito : eu não quiz con-
tar a tua desventura nem no Condemnado nem n'es-
te folheto N'aquelle criei o que quer que fosse que
defrontasse um caso verosimil e desse ares de ana-
logia com o verdadeiro. Na narrativa, aceitei uma
Correspondência epistolar 8g
historia que julgo verdadeira, e que me parece bem
trazida ao intento. Se n'este ou no outro escripto
eu intentasse bosquejar muito em sombra a snr.*
D. Claudina havia de vestir-lhe a memoria de lu-
tos molhados de piedosas lagrimas ; mas a severi-
dade não inclinaria reverente a cabeça diante do
seu tumulo. Ora por isso mesmo que eu o não po-
dia assim fazer, é que, de todo em todo, abstrahi
de referencias reprováveis a tal senhora a quem tu
has de perdoar primeiro de que os teus amigos.
Que a sociedade esgaravate nos meus dous escri-
ptos referencias, personalisações, pontarias cobar-
des, embora; mas tu, meu amigo, não deves ahi
ver senão hypotheses, pretextos, inquaciraçôes em
que o dramaturgo ou romancista busca mostrar as
correlações da tua catastrophe.
Quem ha de inferir do que eu escrevi a incer-
teza em que estou da probidade com que diligen-
ciaste o teu casamento? Pois não bastaria para mim
o que basta para os teus inimigos — as cartas im-
pressas no processo ? Vês o lado péssimo das cou-
sas, e sobejam-te direitos á desculpa. O folheto
(verás) não impressiona ninguém para bem nem
para mal. Devo dizer-te que as tuas expansões só
me magoam por que exprimem o teu desgosto. Não
obstante, eu me consolo com a certeza de que elle
— o folheto — não será these para allusões, nem
ha de ser ferido pelo lado que se te figura.
Adeus, meu querido José. Abraçote.
Teu do coração
Camillo.
go Correspondência epistolar
Meu amigo.
Reli as magnificas paginas da tua inexprimivel
dor. Bem m'o dizia eu que só tu eras idóneo para
arrancar um réo ás presas da justiça; e direi ago-
ra mais, que nem tu, se a experiência te náo desse
o baptismo d'esse fogo infernal que faz os athletas,
os esmagadores da hydra que se chama a Razão
social. Esta razão tem momentos de se aquecer e
diluir a um raio do céo; o raio é a palavra que en-
tra, punge, dilacera e repuxa do pedregal a fonte
das lagrimas. Um jury assim íjopesado e como coa-
cto, é misericordioso, é compassivo, é bom sem o
querer ser. O homem que assim o subjugou é a
mais sublime cousa humana que Deus creou. E' o
que tu foste uma vez, quasi brincando com o teu
talento; é o que ninguém podia ser em Portugal,
desde que tu cerraste os teus lábios com a mão que
beijaste na primeira hora da tua viuvez.
Ha não sei que semelhança entre a eloquência
e o raio O raio abraza, pulverisa quasi sem quei-
mar; a eloquência deslumbra quasi sem persuadir.
Nos lances supremos da espécie do teu desaggra
vo levado a juizo, cumpria raciocinar menos e aper-
tar mais o coração. A lógica das multidões é a dos
jurados. Da lama petrificada não ha fusil que tire
faisca. Pareceu-me argumentador sobre-excellente
o Jayme; e, depois que o reli, sem deixar de o
admirar muitíssimo, notei que apenas uma vez o
ecce Deos lhe relampagueou no espirito.
A que vem tudo isto, meu- amigo? Ah! queria
dizer-te que n'este papel que hoje te devolvo está
tudo o que não estava no discurso da tua defeza,
Correspondência epistolar gi
nem nas cousas que eu tenho escripto indirecta-
mente apropositadas a ti.
Mais tarde poderás escrever um formoso livro
com lagrimas ; mas não o escreverás. De hoje a
dez annos, do homem que és, não existirá um áto-
mo: tudo se haverá desfigurado em alma, em fa-
culdades, em impressões. A desgraça não vai além
de certas balizas, e dentro d'ellas ou mata, ou suc-
cumbe. As saudades eternas são as que deixam as
almas que nos felicitaram, que nos dulcificaram o
travor das cousas baixas da vida, que nos honraram
o talento ostentando a soberba de serem nossas.
Essas sim ; lembram-nos sempre, porque nos fal-
iam do céo. e não nos estão contemplando de lá
nos cárceres ou nos desterros. Perdão, e adeus, fi-
lho.
Teu
Camillo,
Meu querido amigo.
Ha muitos dias que não te escrevo. Tenho es-
tado como atrophiado de alma e de corpo debaixo
d'um peso de tristeza que me esmaga. Estas crian-
ças estão-me sempre a pedir contas do futuro que
lhes vou preparando — um ponto negro que me
salta ao espirito cada manhã e me faz dos dias uma
cerrada escuridão. Ainda bem, meu pobre amigo,
que são desgraçados os que mais te querem, e por
isso se sentem impellidos para as tuas dores que
ensinam coragem aos mais cobardes.
Dize ao Pedro dos Reis que o seu escripto sahe,
precedido d'uma carta minha, no Primeiro de Ja-
g2 Correspondência epistolar
neiro. Gostei muito da idéa e da forma. Bom seria
que esse moço empregasse as suas horas a traba-
lhar, de modo que ao sahir d'ahi possa vender as
suas desgraças, como eu fiz quando sahi da cadêa.
Hoje, toda esta carta é de quem pede uma con-
solação á alma generosa que ia velar as horas do-
lorosas de um enfermo de typho. As tuas lagrimas
devem ser boa consolação para quem as merecer.
Os pequenos são felizes : este contraste é o dos
anjos a brincarem á volta d'urr)a voragem, d'onde
eu os vejo a resvalar para o meu seio. Deus m*os
não tire ainda assim. Hontem, vi e festejei um teu
sobrinho. Tirei-o pela semelhança comtigo e com o
António.
Teu
Camillo,
Meu José,
Não me tem faltado alguma das tuas cartas. Pal-
iei ha pouco ao Germano de Meirelles no sentido
da tua carta. Disse-me que os folhetins escriptos á
pressa e na occasião sentiam-se da falta de harmo-
nia, e requeriam ser refundidos para sahirem mais
lustrosamente em livro. Além de quê, alguns apre-
ciadores de má fé e má alma lh'os tem menos-ca-
bado com a pecha de muito lyricos e pouco lógi-
cos. Por maneira que o talentoso rapaz teme-se de
cahir no desagrado dos litteratos. Seja como for,
instado por mim, espero que elle os retoque e re-
produza. Se elle apanhasse o estylo e amputasse
parte dos adjectivos explicaria melhor e persuadia
mais. Ainda assim, o Meirelles tem muitissimo ta-
lento a germinar para ao diante, não te parece?
Correspondência epistolar gS
Alegra-me a esperança de que virás para o Por-
to, se a pena te for commutada em algum tempo
de prisão. Eu cuidaria que te tinha mais perto de
nós, e que a privação da liberdade te seria adoça-
da pela continua presença dos teus, e dos amigos
que te mereçam tal nome. Adeus, meu querido
José. Abraçamos-te todos com saudade e esperança.
Teu
Camillo.
Meu querido Vieira de Castro,
Commoveu-me o teu aífecto aos meus filhos. Agra-
dece-t'o a minha alma. Eu não comprehendo o apar-
tar-me d'elles, senão para morrer. E' de esperar
que, passados annos, a necessidade me dê forças, e
elles mesmos me dêem exemplo do desprendimen-
to. Elles hão de facilmente desligar-se de mim como
eu, ha trinta annos, suspirava por não ter familia
que me nublasse o sol dos quatorze annos. E' tudo
providencial. Estas avesinhas emplumam e alam-se
para regiões onde os pobres velhos dos pães não
podem acompanhal-as. E' então que a gente desce
d'ellas, que vão voando, os olhos para a terra onde
nada nos fica, e dizemos: «Acabou-se tudo: agora
podemos morrer.»
Entretanto, meu caro amigo, se elles deverem a
ti o seu futuro, formarão uma das paginas mais la-
grimosas da tua biographia — lagrimas que são a
delicia das almas que só sabem chorar quando a ad-
miração toca o enthusiasmo, e chegam a entender
que ha n'este mundo alguma cousa em que a luz
de Deus ainda reverbera.
g4 Correspondência epistolar
Como não receberia eu no coração o teu alvitre
de impellir os meus filhos para fora d'aqui !.. . Se
elles forem um dia, pedir-lhes-hei que não voltem.
Deixa-mc triste o que me dizes da Relação. A'
vista dos teus receios, eu antes quizera que o pro-
cesso chegasse ao supremo tribunal e lá fosse an-
nullado. Sei que te aterrra o supplicio de um novo
julgamento ; mas que abençoadas torturas se sabias
d'ellas com a liberdade de envelhecer e morrer de-
baixo das tuas arvores ! Que te estou eu fallando
em velhice e morte ? Vaticino que terás ainda n'esta
terra a posição de que te precipitou a fatalidade.
Como na tua queda não pesou sentimento infame
nem degradante, a rehabilitação é tão natural e ne-
cessária que nem tu farás esforços para ella, nem
o mundo concessões para t'a dar.
Folgo de me não haver enganado com respeito ao
opúsculo. Os que ahi falaram d'elle superficialmente
não viram sombra das tuas suspeitas. Consta-me
que a extracção tem sido mediana aqui e ahi. Meu
querido amigo, peço-te que não dês grande pezo ás
minhas tristezas. Eu pejo-me de me haver queixa-
do da sorte, a quem só por um supremo esforço de
coragem poderá consolar dores alheias. Adeus.
Teu
Camillo.
oMeu querido collega.
Chamo-te collega porque fazes sermões. Aqui,
ha dçis mezes, um padre de P. . . (vê tu onde che-
ga a minha fama agiologica !) escreveu-me, pedin-
Correspondência epistolar g5
do-me um sermão sobre não sei quê, pelo qual me
oíferecia 45j5(ooo réis fortes. Nunca do púlpito da
minha cabeça teria sabido cousa tão cara, se eu po-
desse pregar. N'aquelle lance o intelecto estava fa-
nhoso e a piedade fria. Respondi que não. Mas no
paquete seguinte vieram as dez libras. Agora estou
á espera que o padre me declare um Bossuet lara-
pio. Tenho a ordem á espera que elle a peça, ou
que me incumba de converter o gentio de P. . .
Has de mostrar-me um dia o teu sermão. Falta-
va-me vêr isto ! Tu, meu José, a compulsar os
Ghrysosthomos e os Damascenos através d'uns ócu-
los de prata.
Resolvi o Germano a tirar o folheto ; supponho
porém que elle o não poderá fazer até ao dia 12,
em razão de querer retocar os folhetins e concate
nal-os mais logicamente. Hoje lhe direi o que for
preciso para activar a impressão. O Condemnado
foi para o Rio em pequeno numero de exemplares.
Penso que foram cem. Duvido que o lá represen-
tem, sabido o effeito de Lisboa. Os artistas, a meu
vêr, querem estar de boas avenças com as maiorias,
sejam ellas boas ou más.
Não me admira a pequena venda do folheto de
teu irmão. * Em primeiro logar não contava cousa
desconhecida. Em segundo estava escripto sem acri-
monia e com a máxima seriedade. Em terceiro lo-
gar era muito barato. A inducção que tiraste do
desafecto por ti é inexacta. Esta gente queria que o
1 A I." edição biographica de Vieira de Castro, escripta
admiravelmente por seu irmão António, está esgotada ha
muito tempo.
g6 Correspondência epistolar
folheto revelasse os pontos culminantes da tua vida
em relação á catastrophe. Sobejam as revelações no
processo \ mas esperavam que teu irmão se detives-
se n'aquelle passo. Além de tudo, se a biographia
fosse assignada por outro qualquer nome, embora
obscuro, vender-se-hia abundantemente. Isto não
impede que tu olhes para o mundo como antes o
vias. Eu queria escrever sobre o opúsculo no * * *;
mas tu ignoras quem são aquelles rabbis da impren-
sa ? Aquelles homens lançam na cuia da balança as
idéas, e na outra cuia quinze tostões. Se os quinze
tostões sobem, a idéa lançada á circulação é boa ;
se descem, a sociedade pôde subverter-se. Razão
porque não quero entender com elles, e ha muito
que os não trato. O Germano escreveu acerca da
tua biographia. Não obstante, fallarei com elle, pe-
dindo-lhe licença para escrever depois que elle o fez.
Adeus, meu querido amigo.
Teu
Camillo.
Meu José,
Não me tens dito nada das tuas occupações n'es-
sa casa. Sei que tens ahi bastantes livros ; * mas
1 A livraria de Vieira de Castro, no Limoeiro, constava dos
seguintes authores: Cícero^ Beschcrelle, Cavour, Chateau-
briand, Gui:^oí, Félix, Camões, Cinq-Mars, Agrícola, Pelle-
tan, Lamartine, ^anmon, "Barrot, Qainet, Macaullay, Cas-
tilho, Gautier, Girardin, Rap et , Byron, Mepères, Heine Bos-
suet, Homero, Lamennais, Ler?7iinier, Goethe, Filinto, Shaks-
peare, padre A. Vieira ^ Ovidio, V. Hugo, Villemain, Fléchier,
etc.
Correspondência epistolar gj
não sei se podes ler com attenção. Escrever é q
que mais quadra ao teu espirito. As idéas alheias
não podem entrar em coração e alma onde ha en-
chentes de amargura. O allivio que pôde dar a in-
telligencia é o da expansão, o esvasiar-se em affe-
ctos ou ódios a superabundância do rancor ou da
saudade.
A tua saudade deve ir até onde .a honra te po-
zer a baliza. Pôde ser que o coração por vezes tra-
ve lucta com a tua dignidade, se te deixares ir com
elle provas para mim a doçura do teu caracter e a
profundeza do amor que te levou ahi. Todavia, eu,
se Deus me ouvisse, pedir-lhe-ia que tivesses sem-
pre o fito posto no futuro, e te compenetrasses da
certeza de que na tua vida se abriu um intervallo
negro, uma vicissitude que ha de ser allumiada for-
çosamente pelo sol de dias bonançosos.
Adeus, filho. Hoje estou soffrendo muito da zoei-
ra e d'uns vagados que me assustam. Esta infelici-
dade da doença não me deixa ir vêr-te. Figura-se-
me que me ha de apanhar longe de casa uma febre
cerebral. Que terrivel é este soífrimento ! Se me
dissessem antes de eu adoecer que havia de estar
assim dous annos, eu cuidaria que ao fim de pou-
cos dias preferiria a morte. Assim são os cegos e to-
dos os desgraçados a quem a Providencia lhes deixa
uma alma contente nas suas trevas. Mas eu ! como
está esta pobre alma, Vieira de Castro ! Adeus, fi-
lho. Olha que eu sô tenho estes desafogos comtigo.
Se fosses feliz, não me queixaria tanto.
Teu
Camilio,
voi,. II 7
g8 Correspondência epistolar
Meu José,
Todos os jornaes publicaram a dadiva e a rejei-
ção. Como isto está ! Espantam-se de o delegado
não receber de bom rosto o ferrete na testa ! Es-
crevi agora uma local para o Primeiro de Janeiro,
e já a enviei a ver se amanhã a publicam. Receio
que a achem mordente. Se m'a rejeitarem man-
do-t'a.
Respeito a sermões, meu filho, escrevi algumas
dúzias d'isso. Nunca li nada nem sei onde se lê a
boa doutrina. Sabido o texto (o que se aprende
no Evangelhe do dia) pegava a discorrer e a cor-
rer segundo a piedosa phantasia me esporeava. Al-
gumas vezes collaborava o coração mais ou menos.
Todos os meus sermões eram ignorantes de theo-
logia como qualquer bispo, exceptuando o de . . .
que esse é mais ignorante que qualquer bispo. . . O
que elles tinham melhor que a theologia era lingua-
gem commovente. Quem tiver isto em maior copia
será o melhor fabricante de sermões. Ora que não
farás tu, se quizeres ? Mas, pelo que vejo, queres
escrever alguma bibliotheca de pregadores ! Pois
escreve, filho : escreve tudo que te entretenha.
A local sahiu. Ainda assim estrellaram^n^a, Vê-
se que respeitam quem dá prendas de dous contos.
Ou seria antes em deferência ao M. . . ?
Adeus, meu querido José.
Teu
Camillo.
Correspondência epistolar gg
Meu José.
Porque me não escreves ha tantos dias ? A' es-
pera de carta vou adiando escrevêr-te, e quem sabe
se estás doente, ou triste a ponto de te aborrecer
escrever ? Teu mano esteve aqui ha dias, e pareceu -
me menos descontente do teu estado.
Ha muito tempo que náo fallei ao Germano \
mas teu irmão lhe fallou ; talvez saibas se elle trata
de publicar o folheto. N'esta casa pesa uma atmos-
phera de fria tristeza, tanto maior quanto lá fora ha
alegria. Para consolação nossa, sabemos que estes
gritos não deixam ouvir os gemidos de muitos infe-
lizes em maior grau. O teu carnaval, meu pobre
amigo, foi como o meu de i85i. Eu era então mais
feliz, por que n'esses três dias ninguém me procurou*
Penso que sou hoje mais desgraçado, porque então
olhava para a vida doze annos depois, e imaginava-a
pelo coração d'aquelle tempo. De hoje a doze an-
nos sentirás um vácuo maior na alma, a qual se re-
cordará do tempo que hoje te parece calamitoso.
Tens tu saúde, meu querido amigo ?
Teu
Camillo.
Meu querido José,
Eu não esperava que raios tão intensos de ale-
gria rompessem a escuridão da tua vida, e menos
ainda que alguma hora eu sentisse o prazer de aben-
çoar uma parte d'esta sociedade, na qual eu imagi-
nava extinctos todos os bons sentimentos. A coroa
100 Correspondência epistolar
dada ao Jayme Moniz tem a mais brilhante signifi-
cação ; e, vinda do Brazil. E' tudo que a provi-
dencia te podia dar. Eu hoje tenciono escrever a no-
ticia para o Primeiro de Janeiro.
Ouvi ler as cartas do Brazil. Tocou-me a sim-
plicidade da carta do Albino. Aquillo é um homem
ás direitas. Peço-te que digas ao doutor Jayme que
eu não podendo dar-lhe diamantes para a coroa,
quizera poder dar lhe as lagrimas de alegria que
elle apreciaria superiormente.
Teu
Camillo,
Meu José.
Folguei que te agradasse o folhetim. Sei que no
Porto foi gostado de muitos e reprovado como vi-
rulento por alguns. Regala-me a apreciação dos se-
gundos. Mas o que me lastima é que d'ahi nem de
cá me não falle ninguém á mão. Anda o Germano
a desafiar a imprensa, e não ha sequer um anony-
mo que nos ladre. Desprezo ou cobardia ? Se esse
homem chamado Ernesto querelasse ao menos!
Hoje respondi á academia dramática sobre li-
cença para representar em Coimbra o Condemna-
do. Por affecto de rapazes que te lá conheceram é
que o drama se representa. Em Villa Real também
se está ensaiando. Veremos se se annuncia em Ca-
beceiras de Basto.
Ha três dias que me dava cuidado o teu silen-
Correspondência epistolar lOi
cio. Hoje não esperava eu carta. Afiflige-me o teu
abatimento. Comparo-me comtigo Jios dias de ha
onze annos, e vejo-te incomparavelmente mais in-
feliz. Se eu soíFria, com que palavra se ha de di-
zer o que passa em tua alma ! Certamente a liber-
dade em Africa te ha de alumiar a alma escureci-
da ahi ; mas, olha, filho, os teus amigos esperam
que lá não vás, e contam com a tua condescendên-
cia e conformidade. Estas delongas na Relação
parecem-me bom annuncio, e estou convencido de
que ha quem trabalhe poderosamente a teu favor.
Eu queria que te convencesses como eu, e até que
te interessasses na tua redempção, para que a es-
perança te fosse amparando. Vê que estás muito
novo, meu amigo, que a tua alma não pôde nem
deve cahir. N'essa escuridão deve alumiar-te a
honra — a honra que todos vêem, e até os teus ini-
migos confessam.
Deus permittirá que a nuvem tenha passado e
o teu espirito volte á prodigiosa serenidade que tu
me deixavas entrever nas tuas ultimas cartas.
Adeus, meu filho.
Teu
Camillo,
Meu José.
Dou-te uma boa nova. O morgado de Pereira
vai comtigo para Africa. Este homem tem a sua
casa perdida ou muito empenhada, e espera, bem
fundado, resgatal-a com o negocio em Africa para
o qual elle tem vocação, força, saúde e coragem.
Não leva mais de um conto de réis ; mas tu lhe da-
J02 Correspondência epistolar
rás a parte correspondente nos interesses, ou maior
segundo os grandes serviços que elle pôde prestar.
Tu serás o espirito, e elle o braço Se a agricultu-
ra te convier como fonte mais copiosa de riqueza,
deixa-lhe a elle a direcção d'esse mister, que tens
um homem ao pintar. Além de tudo, levas comtigo
um homem que sabe ser amigo como um cão e que
tem alma á proporção da força Eu exultei quando
o vi enthusiasmado com esta idéa. Ahi o tens no
principio da próxima semana, e a mim com elle.
Quer conversar còmtigo, e fazer-te sentir que não
mudará de propósito, e que não voltará para Portu-
gal senão comtigo. Deixa a mulher e os filhos ; e
como a casa em que vivem tem de ser vendida para
pagamento de dividas cujo juro devora os restantes
bens, vão ella e os filhos para a casa de Seide que
D. Anna lhe oftereceu. Isto tudo parece-me que te
deve alegrar, meu filho.
Já deves saber que o F. . . sahiu depois de uma
escandalosa exposição de torpezas que durou vinte
e cinco horas. Como a tua situação me parece ma-
gestosa depois d'este ultimo brado a teu favor !
Eu, infelizmente, não posso escrever a tal res-
peito ! . . .
Até terça-feira, penso eu.
Teu
Camillo,
Meu José.
O Condemnado levantou-se. Com a máxima sin-
ceridade te digo que eu desejei quando o concluí
vêl-o repellido em Portugal como lá foi no Brazil.
Se a sociedade me recebesse aquillo bem, dir-se-hia
Correspondência epistolar io3
que o meu protesto era vão, e o escripto uma su-
perfluidade. Se eu affrontei os infames, porque me-
hei de doer do desforço d'elles ? Eu não vim a con-
verter, filho, vim provocar. Ora agora contra o cou-
ce é que eu não protesto.
Vamos ao importante. A local da coroa sahiu ho-
je. A coroa levantou grande poeira no Rio: tornou-
se de espinhos para a tua sogra. O Condemnado^
como drama, é que não podia nem devia offendel-a
por metade. Se ella alguma hora o ler, verá que eu
respeitei quanto devia e podia a memoria de sua fi-
lha. Se tu não encontraste alli desdouro, com que
direito o encontraria ella ? Na coroa, porém, ha acin-
te, ha apologia do teu acto significada no brinde a
quem t'o justificou como lance de honra. Talvez
que nem os signatários comprehendessem bem o al-
cance do presente, e os ódios que hão de seguir-se.
Teu irmão está tão enlevado nas tuas propen-
sões ao negocio de Africa que não será maravilha
lá vêl-o. A' senhora já elle disse que talvez fosse a
Africa estar seis annos. Ella porém, sem lhe impu-
gnar o passo, disse que o acompanharia. Esteve elle
contando-me o que tenciona fazer para que o teu
commercio se estenda a Inglaterra — o de marfim
especialmente. Eu tenciono pedir-te que me deixes
ter cá sociedade com teu irmão. Bello futuro para o
grande orador, e para o romancista invalido ! De-
pois as crianças serão homens, e apenas saberão ler
o meu nome nas capas dos livros. Isto encanta-me !
Teu
Camillo*
104 Correspondência epistolar
oMeu José.
Devias ficar pasmado da minha sabida ; se náo
antes da minha desgraça. Quatro noites sem dor-
mir, a violência das duas jornadas, e em meio d'isto
a alma esmagada no centro d'umas trevas mais,
muito, incomparavelmente, muito mais negras que
as tuas. Gomprehendo que as moléstias te dobras-
sem mais cedo que as desgraças moraes. Se eu ha
doze annos, quando comecei a ser tão infeliz, pade-
cesse como hoje, ter-me-hia matado. Estes peque-
nos em vez de me adoçarem a vida, amarguram-
m'a com o que são e com o que hão de ser. Que
será d'estes infelizes a quem Deus fará gemer com
o peso do meu castigo ! A's vezes cuido que d'ou-
tro mundo se contempla a continuação ou o effeito
das más obras que se cá deixaram a fructificar. Os
filhos expiando a culpa dos pães seria estúpida
crueldade, se os pães, com o inferno na alma, os
não vissem d'outro ponto, sem lhes poder enviar
um estremecimento de angustiosa compaixão. E' hor-
renda, e é assim inintelligivel a eternidade das pen-
nas.
Adeus, meu caro José. E' bem de esperar que eu
ahi volte brevemente.
Teu
Camillo,
Correspondência epistolar io5
oMeu querido José,
Assim como tu me dizes que o meu folhetim é
bom, costumo eu dizer aos doentes irremediáveis
que o ar do semblame não accusa a gravidade da
moléstia. São delicadezas bem entendidas, filho. O
que me resta do que fui é*um descernimento lúcido
para lamentar o que sou. Esta debilidade de espi-
rito explica-m'a de sobra a doença cerebral. Em
quanto padeci grandes dores nervosas, escrevi com
phantasia e facilidade ao passo que ellas me estor-
ciam os nervos ; mas, depois que a moléstia se lo-
calisou na cabeça, o deperecer foi rápido. Se ainda
hoje a muito custo escrevo d'isso que vês, ante-vejo
a completa paralysia do cérebro, e em seguimento
a morte.
Basta de choradeira.
E' admirável a dedicação do Albino Guimarães
e a idéa então é soberba de honradez, de pondo-
nor e respeito a ti.
Teu do coração
Camillo,
Meu caro Vieira de Castro-
Magoou -me a noticia do fallecimento de teu tio.
Ainda ha pouco falíamos d'elle quando jantávamos
ahi. Posto que a tua'alma transborde de dores, creio
bem que te não achou impassivel a nova triste. Deus
sabe se a tua desventura lhe pesou bastante nos fios
consumidos da vida ! Aquelle pondonoroso velho de
io6 Correspo7idencta epistolar^
certo louvou o teu desforço, mas sentiu profunda-
mente a tua desgraça.
Teu irmão enviou-me hontem as obras do Alva-
res d' Azevedo. Agradeço-t'as. Eu queria-as somen-
te emprestadas para as ler *** ^ porém, trazem es-
cripta uma dedicatória em teu nome. Ficam como
estimado mimo entre os poucos livros estimados.
Teu
Camillo,
Meu José.
Folgo muito de saber que escreveste. Manda-
me o teu artigo; mas dize-me se é desagradável
para ti que se saiba a procedência. Lerei cuidado-
samente as provas. Não te prometto que elle se
publique d'uma assentada, porque o jornal está
carregado de matéria ; e o B . . . tem muito d'olho a
matéria que lhe estruma o papel e o abrolha em
fructos de coroas. No entanto verei se o consigo.
Passei duas horas deliciosas com o teu Antó-
nio, que me leu um bom folhetim sobre o affecto
ás velharias. Aquelle sadio e previsto espirito sa-
be o que é fazer que as boas letras e o brilhante
estylo sirvam os interesses do seu commercio. Tua
cunhada tem a aureola da mãi terna e da esposa
carinhosa. N'um relanço de dez minutos vi-lhe bem
todas as formosuras da alma que Deus lhe doura
com a felicidade domestica.
Recebe um abraço de todos, e o coração do
Teu
Camillo.
Correspondência epistolar loy
oMeu José,
Achei o teu trabalho excellente como estylo,
e creio que o é como doutrina. Prezo-me de não
entender a parte mais substancial d'elle. Quanto
a alterações apenas fiz uma que verás no começo
por causa de um periodo de setenta linhas, que era
preciso rarefazer. Também substituí a palavra pa-
rir, e o rebotalho; uma por muito physiologica, a
outra por não ter foros de fidalga lusitana. Não
digo bem: a palavra é portugueza; mas não está
bem no teu artigo que é todo selecto e escripto,
como lá dizem, de luva branca. Isto me relevarás,
por que m'o exigiste.
Eu estimo que teu mano ahi esteja n'esses dias,
Permitta Deus que elles não sejam mais amargu-
rados que os outros.
Vou vivendo, meu amigo. O Jorge está muito
magrinho e privado de ir ao ar. Estou a ver quan-
do Deus me põe aquelle cadaversinho sobre o co-
ração. Se assim fôr, digo-te adeus para sempre.
Teu
Camillo.
oMeu querido José *.
O dia de hoje não tem de ser mais angustiado
para ti que o de hontem e o de amanhã. As com-
memorações pungentes, meu filho, são as da sau-
dade. Tu eras mais desgraçado no dia oito. A' vol-
No anniversario da morte de D. Glaudina Guimarães.
io8 Correspondência epistolar
ta de ti estavam infames que te viam aíFrontado.
No dia de hoje o rugir dos ódios dizia que tu não
eras homem para ser escarnecido nem lastimado.
Se hoje vivesses tranquillo e ignorante do oppro-
brio que duas ou três pessoas conhecessem, eras
incomparavelmente mais digno de compaixão. Se eu
fosse um dos que o soubesse, não poderia fitar-te
sem me saltarem as lagrimas.
Agradeço a Deus estar comtigo teu irmão. Eu
não sei que te possas queixar da sociedade tendo
por ti a alma d'elle que poderia ser extremosa, mas
não ser recta e grande da honra, que é o aço que
mais lhe retempera as qualidades de amigo. Dá-lhe
um abraço meu. Envio-lh'o como commemoração
d'este dia em que tu subiste pela escaleira da
desgraça a uma altura d'onde assoberbas os infa-
mes.
Teu
Camillo,
Meu caro José.
Eu adivinhei todas as afflicções que te levou o
Santíssimo Viatico á cadêa. Quem lá o acompa-
nhou e te foi insultar com as phrases e com a cu-
riosidade, honrou o Ghristo como se quer. O que
eu admiro é que Elle se não peje dos obséquios de
tal canalha.
Eu n'estas cousas de actos religiosos estou bo-
nito. Cada dia, filho, me sinto mais escurecido,
mais atheu. A razão, a experiência, o mundo de
baixo, não ensinam mais nada. Ora quem é que ha
de sacudir as azas da lama, e voar para cima ? Hei
Correspondência epistolar jog
de morrer como quem se vinga e escarnece das
amarguras que me esperavam no inferno de cá —
porcaria que nos dispensa de crer na outra de lá.
Olha, se eu lá estivesse, quando ahi foi essa horda
de senhoras, eu sahia-lhe ao cimo da escada, e per-
guntava-lhes o que queriam. Depois, despiria o ca-
saco para lhes fallar, em mangas de camisa, o mais
selecto palavriado das cavalhariças. E acabaria por
pedir-lhes o attestado que mundifica as toleradas.
Ora aqui tens a lição que eu daria.
Teu
Camillo.
Meu José,
Escrevo-te de Braga onde cheguei agora. Veio
commigo um ricaço de Benguella, com três filhos
mulatos. Este homem quiz ir vêr-te ao Limoeiro;
mas não achou quem o apresentasse. Esteve vinte
e nove annos em Africa; enriqueceu a agricultar
cana para agua-ardente. Disse-me que tu, empre-
gando na agricultura oito a nove contos de réis,
deves ter duzentos no fim de dez annos. Achei-lhe
demasiado espirito prophetico quando elle por fim
me disse : «O Vieira de Castro não ha de negociar
por muito tempo ; porque elle ha de ser o motor
do desmembramento das colónias e o presidente
da republica.» E ajuntou : «O governo se fosse es-
perto nunca para lá mandaria semelhante homem
com tanto talento.» Cousa singular ! Este homem
é fino. Chama-se M , e é da Povoa de La-
nhoso.
Confrontando os teus artigos com as previsões
jio Correspondência epistolar
d'este sujeito, não pude deixar de o admirar e sau-
dar-te desde logo imperador de Angola. O que é
certo é que tu tens destinos extraordinários, e es-
tás no primeiro acto da tua funesta celebridade.
Não viverei para ver os outros; mas adivinho que
o ultimo será uma cousa, seja o que for, deslum-
brante. Uma cousa sei eu que deslumbra comple-
tamente os fulgores da vida. . . Adeus.
Teu
Camillo.
Meu querido José
Estive em Braga três dias, e em todos te escrevi.
A'manhã é que ainda vamos para Seide, e pouco
tempo lá estarei. Dava-me já cuidado a falta das
tuas noticias, quando hontem o António me disse que
estavas bom, e confidencialmente me communicou
o bom êxito dos teus negócios quanto ao Ermo.
Deus te dê algumas felizes soluções nos teus dese-
jos para que te não seja tudo escuro.
Vou muito triste a Seide. Quando me lembro
dos dias que alli passamos, figura-se-me que elles
pertenceram á minha época de felicidade. E, com
tudo, eu já então era desgraçado como hoje e como
amanhã. De todas as tuas dores a que mais pena
me faz é a saudade. A saudade ! que tormento,
meu amigo !
E o plástico que lá foi para dar a demão ao
busto! Olha que é relevantemente cómico a emba-
çadella do Phidias quando te viu desbarbado ! Ahi
o temos a escanhoar no barro, mas com a desfor-
tuna de lá te não conhecerem no Rio ! Pôde ser
Correspondência epistolar iii
que a intenção, posto que especuladora, não viesse
dos teus inimigos. Em todo o caso, fizeste bem,
meu filho.
Teu
Camillo,
Meu José.
Penso no dia de amanhã com mais receio do que
tu. Não me consterna o augmento do prazo, por-
que prevejo que antes de dez annos taes terremo-
tos sociaes ha de ter havido que a entrada em Por-
tugal te seja não só franca mas solicitada. Que
visualidades de romance, meu José ! . . . Cubro a
minha asneira com as reticencias.
Por em quanto, meu filho, a minha cabeça não
amanhece. Sento-me, pego na penna, e fico-me com
cila apontada ao papel como quem esperasse uma
idéa para a arpoar com os bicos. Em meio d'isto
pedem-me lá de Lisboa SoíZ&ooo réis de decima
annual como escriptor ; e de cá qí&ooo como caval-
leiro. Quando te levantares com a republica d'Afri-
ca, Guiné, Ethyopia, etc, faze-me guarda-mór da
torre do tombo que eu vou para lá. Se não houver
torre do tombo, quem contará á posteridade a ori-
gem da tua dynastia ?
Brinquemos a chorar.
Teu
Camillo.
Meu querido José.
Parecia-me incrível o aggravo da pena, com tudo
eu esperava-a ; esperavam-a todos porque os juizes
IJ2 Correspondência epistolar
não se esquivavam a dizel-o ainda antes de verem
o processo. Creio bem, meu amigo, que a sentença
te foi indifferente. Tu voltarás para Portugal antes
dos dez annos. Gomo, e por que indultos, não sei,
nem o diria se o soubesse. Tenho medo de ser tolo
aos teus olhos, ou ameaçar doudice nas minhas
imaginações. No Porto fez péssimo effeito a deci-
são. Está tudo por ti. Mas que monta ? Despresivel
caridade a que vem do ódio saciado. Eu, meu fi-
lho, sinto-me esmagado pelo peso do teu infortú-
nio, e não posso com a idéa de que te não hei de
vêr mais. Adeus.
Teu
Camillo.
Meu José,
Recebo a tua carta. Agradeço a Deus a coragem
que te elle dá, meu querido amigo. Agora recebo
a carta inclusa. Se eu tiver mais saúde do que te-
nho n'esta hora, vou também. É bem de crer que
não, porque a alma adivinha-me que te não verei
mais. E' terrivel tudo isto que está passando na tua
vida. Desgraçados aquelles que te conheceram e
amaram. Eu devia forçosamente conhecer-te. Amei
um José Augusto, que morreu afogado. Outro José
Augusto que morreu despedaçado de paixão ahi
em Lisboa. Tu eras o meu terceiro amigo. Adeus,
meu filho.
Teu
Camillo,
Correspondência epistolar ii3
Meu José,
A*** recebeu hontem a tua commovente carta,
e foi comtigo chorar na vida que lá nos fica para
além de nove annos, nos dias últimos da nossa
felicidade. Fomos desgraçados todos a um tempo.
Morreremos sem saudade do que deixamos, porque
teremos gastado a alma a deplorar o que irreme-
diavelmente se ha perdido.
Ha cinco dias que padeço mais e muito. No dia
quinze d'este mez faz um anno que eu tive a pri-
meira ameaça de congestão. Não creio que estes
ataques tenham prazos fataes ^ mas é certo que os
padecimentos se aggravaram com a aproximação
do calor.
Dizes-me uma cousa incomprehensivel. Se o su-
premo tribunal só entende em nullidades de pro-
cesso, que lucra a parte no recurso ? Com o pre-
texto de augmento de pena, parece-me isso absur-
do, até mesmo porque o máximo d'ella são os
quinze annos. Não comprehendo o alcance d'estas
infâmias.
Aquelle Severino, que te procurou, é um óptimo
homem. Conheci-o em tempos remotos chefe pa-
gador de tropas. Depois, vi-lhe o nome assignando
umas correspondências contra mim. Depois, soube
que elle vivia pobre em Lisboa, e dei-lhe que fazer
e uns 400 réis por dia. Tive então occasião de o
avaliar melhor, e achei-o bom e bem apalpado pela
desgraça. Li que elle agora fora ou ia ser despa-
chado para escrivão d'alfandega de Ambriz.
Estamos muito tristes, filho. A*** tem cem an-
nos no coração. Deus te livre d'isto que é peor que
VOL. II 8
114 Correspondência epistolar
tudo. Esperas, meu querido amigo ! Então ainda ha
na tua existência o melhor d'ella. Mas que pena
não ter eu a tua idade para ainda te ver vigoroso
e grande n'algum ponto menos espadanado do san-
gue e lama em que tudo isto de Portugal vai en-
volver-se !
Teu
Camillo.
fMcu José,
O F... escreveu-me pedindo-me um manuscri-
pto de seis paginas com o meu nome, para elle pu-
blicar. Acrescentava que o producto o livraria de
difficuldades. Ora, tendo eu publicado oitenta e cin-
co volumes e contando as difficuldades pelas pagi-
nas, entendi que o homem pedia uma asneira, e
publicando as seis paginas ajuntaria mais uma ás
difficuldades existentes. Não lhe respondi por tan-
to. Além de que, o homem é doudo, e eu estou ca-
lejado do attrito com doudos.
E' impossível que o F. . ., lendo as ultimas tiras
do teu folhetim, não te conhecesse; jamais, desco-
brindo o C... a procedência do Limoeiro. Onde
diabo está o atheismo que lá viu o syndico ? Quan-
do muito, ha lutheranismo na tua apreciação boa
ou má do catholicismo. Em Portugal, não ha sei-
tas nem dissidências: ha cocheiras e cavalgaduras,
mormente em matérias theologicas. Olha, meu fi-
lho, tu imaginas bem o que é isto ; mas não medes
toda a profundeza d'este poço de ignorância, d'on-
de as asneiras sahem alcatruzadas pelo F. . ., que é
o mais sábio dos philosophos do Chiado. A respei-
Correspondência epistolar ii5
to de Deus, quem sabe alguma cousa n'esta terra
são os pássaros que o cantam de madrugada.
Meu querido José, adeus.
Teu
Camillo,
Meu José,
Eu já sabia a historia da Ínclita rameira. Pa-
rece-me que m'a referiu o fornecedor do livro. Es-
te sujeito possue bons exemplares de cousas irri-
tantes.
Continuo a passar muito mal e muito amargu-
rado. Náo vou para Seide porque morro lá de té-
dio. Não sei se irei para a beira-mar. O melhor se-
ria ir alli para o Repouso. Veremos onde se desfaz
este guano. Tem saúde, filho, e não a exponhas. A
vida quieta olha que não a damniíica. Os frades
apenas sabiam da cella para o refeitório, e tinham
saúde de burros sadios. Adeus, filho.
Teu
Camillo,
Meu caro José,
Não me recordo do nome do desorelhado roma-
no. Esta moléstia cerebral apagou-me muitas lem-
branças, ganhadas com muito trabalho; porque fui
sempre escasso de memoria. Entrelembro-me po-
rém, de ter sido mutilado em nariz e orelhas um
primo de Mário, por ordem de Silla. Não me lem-
iiG Correspondência epistolar
bro do nome, e penso até que a historia lh'o não
dá. De certo não é este o outro.
Aqui no Porto ha muito quem te attribua as
Farpas, quero dizer a Carta. Acham-na boa. O
Eça de Queiroz que está aqui, disse que lhe pare-
cia tua.
Folgo que não te desagradasse a Advertência
das Colónias. (Nota 3.^). Eu, quando escrevo de ti,
desmando-me em liberdade excessiva tocando nas
tuas chagas com mais franqueza do que o fazia
rosto a rosto comtigo. Se estás contente com a vi-
rulência da phrase, que eu nunca posso avelludar
quando desfecho contra os teus inimigos, também
eu estou contentíssimo.
Teu
Camillo.
Meu José.
Não te escrevi hontem porque, logo que rece-
bi a tua carta, resolvi ir hoje a ver se podia sere-
nar a irritação em que estás, justissima, porém pre-
judicial ao teu espirito e corpo. A's onze horas da
manhã tinha a malinha prompta para sahir de tar-
de ; mas a noite péssima que eu tinha passado pro-
mettia o embaraço gástrico que está começando.
Peço-te pelo aífccto que te tenho que te hajas com
paciência n'esta provação horrenda. A tua digni-
dade não pôde conformar se com a indifferença dos
scvandijas e dos egoístas ; mas, meu amigo, aceita
o mundo como elle é. Não te abandonam porque
estás condemnado nem porque te julguem crimi-
noso; abandonam-te porque te consideram impres-
Correspondência epistolar iij
tavel, porque não podes ser útil. Aqui tens a ex-
plicação chata da cousa que te espanta e exacerba.
E, depois, filho, creio que exageras o teu desam-
paro. Lembra-te da minha reclusão ha onze annos.
O meu delicto era irrisório no entender dos meus
amigos, e os meus amigos não iam lá. Das pessoas
que eu conhecia foram lá cinco, e das que me não
conheciam poucas mais para me verem e injuriarem
com a sua curiosidade. Pois tu não entendeste ain-
da a sociedade?
Vê lá o que escreves, José. As tagantadas é bom
dal-as, mas não no ar; quando vibrares o latejo
seja de modo que estale nos couros. Que te não
vão tomar á conta de desespero esse desforço, e
d'ahi lhes dês motivo para satisfação. O que os
afiflige é vêrem-te sereno, a escrever, a ter saúde, a
esperar, com a tranquillidade laboriosa d'aquelle
D. Francisco Manoel de Mello que escreveu cin-
coenta e nove volumes na torre velha de Belém
onde esteve preso nove annos, e innocente. A co-
ragem d'uns desgraçados é a coragem d'outros que
sabem medir-se com os mais infelizes, logo que não
poderam medir-se com os infames. Tenho-te dito
muitas vezes, meu filho, que pesadas essas dores
do cárcere com as ignominias da liberdade, não ha
que hesitar na escolha.
Recebo outra carta tua.
Pareces-me melhor, graças a Deus.
Teu
Camiilo.
Ji8 Correspondência epistolar
Meu amigo.
O António disse-me hontem que estavas adoen-
tado. Mortifica-me o receio de que peores. Hoje re-
cebi o opúsculo. Já li as paginas que entendem com
as mulheres que ahi foram. São bellas, tocantes, e
tuas. Farejo que o teu livrinho não estalará como
suppunhas. Está muito grave para isso. N'este paiz
só faz estrondo o escândalo ou a chalaça. Um li-
vro bem pensado e bem composto apenas impressio-
na os dez litteratos intelligentes que por ahi vivem
lurados na sua obscuridade. O restante é a malta dos
noticiaristas, gentio que os porteiros de Paris leva-
riam na vassoura para as carroças. O senso publi-
co — a gente que compra — como fica dito, quer
que OíFenbach collabore no livro, e, se não for
este, então o L. d'A. Parece-me que a Consciência
não terá grande procura. Conclusão. Adeus, meu
querido amigo. Restabelece-te, e não descreias da
felicidade como o mundo a pôde dar.
Teu
Camillo.
Meu José.
Não recebi ainda a carta que me enviaste para o
Porto. Provavelmente vem hoje. Triste cousa é que
não estejas livre da tosse ^ mas não ha que recear
d'ella na tua compleição. Grande mal é padecer,
ainda que a doença seja mortal. Quando me dizem
que ninguém morre de zunidos nos ouvidos, para
me consolarem, parece-me isto escarneo. Pois o
Correspondência epistolar ijg
morrer já, não seria melhor que viver mais dez an-
nos com esta irremediável mortificação?
Gosto que me digas se a venda do teu opúsculo
é regular : parece-me que ha pouco publico para es-
criptos d'aqaella ordem. Pôde, porém, ser que os
que o não percebem, o inculquem por amor pró-
prio, e assim se vão enganando uns aos outros. Tal-
vez que eu esteja sendo injusto com as intelligen-
cias do meu paiz.
Ainda te lembras d'esta aldêa? Estive ha pouco
ao pé d'aquella pedra monumental onde astá o teu
nome. As arvores que então se plantaram abraça-
ram-se, e afogaram a pedra n'um escuro que faz
lembrar um tumulo. Tumulo das nossas alegrias se
me afigura aquillo. Eu era ainda o rapaz de trinta
e sete annos, e tu quasi uma criança.
Acho tristíssima esta vida do campo. Gomo não
trabalho, as horas são infinitas \ e, como não durmo
bem, as noites são-me ainda peores.
Tem paciência com as tuas dores, e lembra-te
dos que soífrem.
Teu muito do coração
Camillo,
Meu presado amigo,
* * * recebeu hoje o exemplar que lhe mandaste
da 2.^ edição. Ella t'o agradecerá. (Nota 4.*). Fiz a
terceira leitura com o mesmo agrado. Se fizeres
terceira edição deves purificai- a das palavras mes-
mo como adverbio, posto que tenhas um exemplo
em Gamões e outro em D. Francisco Manoel de
Mello; — da palavra imbecil como synonymo de
120 Co7'respondencia epistolar
inepto, parvo, etc. — e da palavra banalidade. Ne-
nhuma é portugueza, nem exemplificada. Um es-
criptor de grande voga usou-as ; mas esse escriptor
não é bom modelo. Imbecilidade é a fraqueza phy-
sica ; banal não se encontra sequer em vocabulá-
rios portuguezes: ha o frivolo,futily etc. Isto parece-
se com as nossas questiúnculas do Ermo, em 1860.
Olha que estes reparos são caturrices que já ninguém
faz senão eu por amor a uma pieguice chamada ver-
naculidade que ainda ha de fazer que ninguém me
leia.
Teu
Camillo.
Meu querido amigo,
A tua carta, noticiando a inesperada brevidade
da partida, alvoroçou-mc tristemente. Eu não o sup-
punha nem ninguém. Supponho, porém, que, ainda
mesmo que decida o supremo tribunal no dia vinte
e seis, parece-me que nove dias depois não te dei-
xarão partir, a menos que os teus amigos não se
esforcem por conseguil-o. Notei, quando estava
preso, que os degredados eram intimados um mez
antes, e que no ministério competente se pedia
com muita antecipação a lista dos presos no caso
de sahirem. Eu seria cruel se te desejasse ahi mais
um mez inútil e atormentado, quando, desde que
respirares o ar do mar, sentirás o coração e a alma
a ganharem azas. Entretanto, emquanto ahi estás, e
me escreves, como que te sinto viver ao pé de mim.
Não queres que eu ahi vá. Ai, filho, eu não po-
deria ir. Quem te mostrar lagrimas, ou t'as íí-
Correspondência epistolar 121
zcr chorar, faz-te mal. Evita ainda que as pessoas
de tua familia te vejam partir. Poderás ? Sei que te-
rás mais coragem para a saudade que para o abra-
ço do adeus. O morgado deve ahi estar hoje. Dá-
Ihe um abraço, e dize-lhe que na segunda feira me
vou d'aqui embora, nem peor nem melhor do que
vim. Vou peor, porque vou desilludido d'esta espe-
rança. Adeus, meu querido José.
Teu
Camillo.
Meu querido José.
Ao morgado nunca esfriaram os enthusiasmos de
ir ; longe d'isso, a sua inquietação era a demora do
processo. Já elle me havia dito que, se o supremo
tribunal annullasse, iria sem ti. Suppunha, porém,
e eu também, que o recurso seria decidido mais tar-
de. N'esta hypothese_, descançou e cuidou menos
em arranjos de partida, de modo que a noticia ines-
perada o contrariou, já porque naturalmente lhe de-
via abalar o coração de marido e pai, já porque o
embaraçavam negócios de dinheiro, de colheitas e
até de segurança do restante dos seus haveres a fa-
vor da mulher. Entretanto, não mostrou sombra
de intenção de não ir. Logo que chegou a Seide onde
estava a mulher, sahiram logo para aviar as cousas.
A'manhã vem elle aqui. Hei de fallar-lhe no senti-
do da tua carta sem a menar reserva. O teu me-
lindre é honrado, e a minha responsabilidade não é
pequena, se elle lá por desventura não fosse feliz
ou perdesse a saúde. O Ferreira Lapa pintou-lhe
sinistramente a Africa, ainda assim a regra de mor-
122 Correspondência epistolar
talidade que elle estabeleceu respeitava aos degre-
dados submettidos aos trabalhos próprios d'elles, e
á vida devassa que elles lá vivem. E' claro que se
o morgado fizer lá o que faz aqui não pôde contar
com a saúde que tem cá. Espero que não. Se tu
lhe prescreveres um methodo de vida, elle ha de
observal-o. A ti, meu querido amigo, não é preciso
que te aconselhem. A tua robustez não te ha de
enganar. Sei que estás alegre com o alvoroço da
partida. Podéra não ! Sentes a plenitude da vida as-
sim que voltares a Portugal as costas, deixando
após ti a raiva dos inimigos que te vêem partir sem
infâmia, com todo o vigor da tua intelligencia.
Eu desejo não morrer sem que tu de lá me di-
gas que vives serenamente. Feli:{^ nunca m'o dirás.
Fujo de pensar na conjectura de ainda te ver. Pôde
ser, meu Deus! Cá ficam as duas crianças para te
mostrarem os traços do teu amigo de treze annos.
*** chorou com o final da tua carta. Calemo-
nos : é um dever não te dizermos o que se pensa,
o que se diz e sente de ti n'esta casa, onde te vi-
mos feliz para outra viagem. Adeus, meu querido.
Teu
Camillo.
CARTAS PARA AFRICA
Meu querido José.
Tive grande pena de não te escrever no paquete
de dezeseis. Sô depois, fallando com teu irmão,
soube que havia sempre n^aquelle dia mala. Rece-
Correspondência epistolar 128
bi duas cartas do morgado, e sentia a falta da tua,
quando me veio devolvida de Famalicão para o
Porto, onde estou desde que sahiste de Lisboa. A
tua cana aguou-me o contentamento que me deram
as do morgado, descrevendo-me rapidamente a tal
qual satisfação da viagem. Para mim a única feli-
cidade compativel com o teu infortúnio é ver que te
respeitam e te admiram com aífecto, sentimento
muito diverso da commiseração que tu rejeitas. Atua
carta, porém, mais intima, e, por desventura, mais
verdadeira do que os exteriores que aífectas entre
os que te vão por amor suavisando o desterro, en-
cheu-me de tristeza. Esse pressagio de morte vale
nada; mas o desejo de morrer é muito. Sei que o
afazer-se a gente a pensar-se e pêrse morto é meio
caminho andado da sepultura, e o outro que falta é
mais suave; já lá não nos ficam as carnes espeda-
çadas nas desillusões, nos terrores do nada, nas
saudades do que deixamos. Ora, meu filho, a que
vem isto ? Está já a carta a resentirse de quinze
dias de cama, d'onde sahi agora para te escrever
com muita diííiculdade.. . Se no seguinte paquete
não tiveres carta minha, fica entendendo que aca-
baram os meus soffrimentos e que estou mais feliz
do que nunca. A cura é impossível. Não se regene-
ra o sangue em circumstancias de vida tão deleté-
rias. Olha que já vejo estas crianças com esta in-
sensibilidade significativa de estar isto a desfazer-se.
E' a providencial apathia, o morrer primeiro inte-
riormente, o desatarem-se nós que me pareciam
horríveis de partir. No entanto, quando voltares á
pátria — d'aqui a cinco annas ?— )á acharás os meus
pequenos em circumstancias de os poderes ajudar.
Deus lhes não falte com a mãi.
124 Correspondência epistolar
Eu não posso continuar. Vou escrever duas li-
nhas ao morgado. Desculpa as tristezas tão in:ipro-
prias para quem as tem tamanhas como tu Adeus.
Teu
Camillo.
Meu José.
O teu António mandou-me a carta que lhe es-
creveste de S. Vicente. E' pallida a alegria que
me ella deu. Não posso crer que as considerações
d'essa boa gente que te admira diminuiram as tuas
tristezas, filho. Oxalá que a Providencia te reno-
vasse o coração para ainda o sentires viver do fu-
turo. Escrevo-te estas duas linhas com muito cus-
to. A minha enfermidade até já me faz angustias,
se me demoro segundos a escrever. Não ha pala-
vras para o que soffro; é a anemia mais desgraça-
da que dar-se pôde. O meu cérebro está ralado e
dissolvido em sangue. Pede ao morgado que me
desculpe de lhe não escrever n'este paquete. Dize-
)he que tive ha dias boas novas da sua familia, e
que lhe agradeço as noticias que me tem dado da
sua boa viagem. Deus o ampare e o veja pai das
criancinhas que todo futuro libram na felicidade
do pobre desterrado. Adeus, meu querido José. Eu
escrevo-te para te dar a certeza de que ainda vivo.
Teu
Camtllo.
Correspondência epistolar 12S
oMeu querido José
Cuidei que teria carta tua n'este paquete. Pro-
vavelmente não ha ainda tempo. Não tenho falla-
do com alguém que me esclareça, porque ha muitos
dias que não vou á rua. O meu estado não é mais
grave; mas não sinto leves melhoras. Estou ancio-
so por saber que impressões ahi recebeste, e com
que santa coragem convertes as más em virtude
de conformidade. Deram-me quasi seguras espe-
ranças de que a tua paragem em Africa seria pou-
co demorada; mas este pouco é um relativo que
me não deixa esperanças de te ver. Penso que es-
tá entre nós o muro que separa a vida da eterni-
dade. Essa supposição fundada na minha pertinaz
doença foi que me impediu de ir vêr-te.
Noticias de Portugal lá as terás dos periódicos.
Presume-se que ha ministério para longo tempo.
Deus o permitta, porque eu em teu favor espero
muito do Sampaio e do Jayme. Verdade é que lá
está um personagem, com alma de Bragança, onde
se aninham implacáveis rancores; mas ainda assim
espero que a vontade dos ministros e do procura-
dor geral da coroa prevaleça.
Davas-me, meu filho, uma grande alegria se me
dissesses que estás entretido com negócios que te
fazem esquecer a pátria; e mais ainda se a tua saú-
de não soffresse algum abalo.
Teu mano António tem estado em Madrid, d'on-
de escreveu excellentes cartas para o Primeiro de
Janeiro. E' assombrosa a actividade, e a força de
vontade d'este rapaz cheio de nobilissimos senti-
mentos. Não o vejo ha muito tempo. Assim que eu
120 Correspondência epistolar
poder sahir, irei pedir-lhe que me diga de ti algu-
ma cousa.
Adeus, meu querido filho.
Teu do coração
Camillo.
Meu querido José.
Vi as cartas escriptas ao António. O melhor d'el-
las é não conterem palavra de queixa por falta de
saúde. Vaes ou ias gozando a felicidade immediata
á do contentamento que é a suprema. Depois, ou-
tra satisfação grande para mim é ver como lá te
festejam. Se fosses em viagem de recreio ou offi-
cial não poderias ser melhor recebido. Se te hou-
vessem commutado o degredo em dous annos de
cárcere em Portugal, sofifrerias angustias incompa-
ráveis. A' perversidade dos homens tirou a mão da
Providencia os flagellos. Elles cuidavam que te
crucificariam; e tu achas ahi um ar que te renova
o espirito, aífeiçóes que te fazem estimar a vida, e
bases sobre que assentes o edificio da velhice tran-
quilla.
O António observou que o teu espirito vai flu-
ctuando em diversos desígnios. Ainda bem, com
tanto que a final não optes por algum que descon-
venha. Seria caso estranho que fixasses deliberada-
mente o que has de executar, antes de compulsa-
res mão por mão as cousas e as pessoas. Gosto
d'essa natural versatilidade que é da tua Índole; e,
mais que tudo, alegra-me que a tua condição vá
renascendo n'essas manifestações. Marasmado, aba-
tido, e como espantado da estranheza d'esse mun-
Correspondência epistolar i2y
do é que eu não queria vêr-te; por que então con-
siderar-te-hia perdido.
Tenho-te escripto não sei quantas cartas, sem-
pre em occasião de grande abatimento. A minha
enfermidade nãò cessa nem me deixa esperar me-
lhoras. Que eu não torno a vêr-te é certo, filho!
Teu
Camillo.
Meu caro José,
E' meia noite, estou na cama, e não tenho aqui
outro papel. Ha bastantes dias que por aqui passo
sem forças para affrontar esta Noruega do Porto.
A minha doença não tem progredido^ mas não ha
já que esperar melhoras. Exhauriu-se tudo. Agora,
venha de Deus a paciência para ir resvalando n'es-
te vagar á cova. Os meus filhos estão bons, e a
mãi, com a alma atormentada pelo presentimento
do meu breve fim, ostenta um ar de esperança que
seria incrivel, se não fosse contrafeita.
D'esta \ez não vi a carta que escreveste ao teu
António. Vejo esta que me escreves em que, com
bem poucas palavras me deixas ver até ao fundo
o abysmo da tua tristeza. Eu vi toda a tua alma no
cemitério. Transferi-me á tua situação e senti o
coração cheio de lagrimas. Que lance de olhos não
seria o teu por este passado que aqui deixaste liga-
do ao tempo das minhas saudades! Tão depressa,
meu filho ! Tu ahi, e eu a acabar ! Praza a Deus
que a dor te não íaça no espirito a morte antecipa-
128 Correspondência epistolar
da, a oclusão das vistas da alma, este sentir-se a
gente a escurecer por dentro, como eu por supre-
ma desventura me sinto. Lá vai o que eu pensei
que me salvaria sempre, e me seria galardão para
todos os heroismos de paciência ; lá vai o trabalho.
Não posso, não sei escrever. Ha mezes principiei
um livro, que foi mandado para o prelo *, e está pa-
rado porque, se me esforço por escrever, a cerração
é completa. Feio egoismo este, meu filho ! sempre
a fallar-te das minhas desgraças !
Eu penso, José, que tu poderás achar tranquilli-
dade de animo, quando o habituares a qualquer
trabalho. Parece-me que voltarás aos teus livros, e
ao teu talento de escrever, quando toda essa peço-
nha te entrar no sangue sem o deteriorar.
Afora as lides commerciaes, deverás ter um la-
vor de espirito que te introverta, e te vá dando es-
tes modestos contentamentos que parecem ter com-
migo o que quer que seja de influição providencial.
Eu senii-os^ c hoje morro porque os não posso
gozar.
A advocacia deveria ser-te manancial de grandes
prazeres ; mas não sei se ha ahi quem te seguisse
acima de que eu penso que ahi deve ser o foro.
Se isso te desse dinheiro, não seria necessária a
ovação dos auditórios; mas eu desconfio que as re-
tribuições hão de estar na proporção da mesquinhez
do commercio. E' pena, meu amigo, que não tenhas
bem pronunciada vocação para a fertilidade dos
romances. Tu verás como é bom crear gente que
nos falia, que nos colhe as lagrimas do coração e
as faz filtrar ao livro. Ai ! que saudades me cha-
mam ao tempo em que eu amava as figuras da
minha phantasia, e visitava os locaes onde as tinha
Correspondência epistolar i2g
íeito viver ! E que fontes de doces lagrimas tu não
tinhas aberto para que a verdade não faltasse ás
tuas imaginações ! Como serias procurado e lido !
Teu
Camillo,
Meu querido filho.
Gostei muito da tua invocação. Mandei-a ao Pri-
meiro de Janeiro onde sahiu trasladada. O exem-
plar, que o Miranda Henriques oíFereceu a sua ma-
mã, mandei-o encadernar para lh'o entregar. A
encadernação não pôde ser luxuosa porque não ha
aqui quem a faça, nem quatro laudas se prestam a
isso. Amanhã vou pessoalmente entregal-o. D'esta
vez não vi a tua carta ao António, porque o não
tenho encontrado. Ha muitos dias que o inverno
me não deixa sahir. Os meus padecimentos de ca-
beça tem-se aggravado irremediavelmente.
Tristíssimo também tu estavas quando me escre-
vias. Has de assim ter muitas horas ; mas quem as
passou ha dous annos da natureza das tuas é co-
barde se succumbir ás que hoje te ennegrecem o
espirito. Para ti não houve senão uma desgraça
enorme que te remiu das outras. As voragens que
se abrem ao lado da tua devem ter luz. Supremum
salus nulla esperare salutem. Mas, ainda assim, tens
um horisonte : a caridade. Eu já sonhei que te via
ainda novo a atirar dinheiro ás rebatinhas aos po-
bres. Se morreres, velho, entre crianças soccorridas
VOL. II 9
j3o Correspondência epistolar
pela tua fortuna, terás um funeral que te levará
processionalmente pela posteridade além.
E' formosa idéa essa das doze lições. E' a tua
segunda caridade cm Africa. Sê o Paulo d'esses
ephesos. Ajunta á peregrinação o apostolado...
Horrorisa-me a palavra suicidio escripta por ti.
Se queres rejubilar os teus inimigos faz isso. Deixa
esse epitaphio de remorso sobre as tuas cinzas.
Valha-te Deus ! Não vês o alto ponto em que te
collocou a tua honra ! Meditas a sabida dos miserá-
veis cobertos de opprobrio ! Isso é inferior a ti e ao
conceito que me mereces.
Teu
Camillo.
ULTIMA CARTA *
Meu amigo.
Dás-me ruins novas. A saúde que estavas gozan-
do ha dous paquetes, parecia-me um extraordinário
beneficio que Deus te concedia. Se principias a ser
doente, deploro-te sobre todas as amarguras da tua
vida. Eu não conheço nada mais digno de lastima
* D'esta extensa carta apenas se trasladam algumas linhas.
Não comprehendo hoje a prophetica amargura das ultimas
palavras.
Correspondência epistolar i3i
que um simulacro de vida cortado de achaques. Ha
muitos annos que não sei o que seja uma hora de
saúde. Os meus prazeres n'este antro chamado o
viver são as poucas horas em que durmo, se as não
sobresaltam as nevroses súbitas ou os sonhos hor-
rendos que me prostram a alma.
Teu irmão enviou-me para Seide a tua carta.
Não vi a peça do desembargador, nem sabia que
até esse santo intuito das prelecções te era agoren-
tado por dissabores. Pensas bem, filho. Não falles
nem escrevas para esse gentio. Volta a tua activi-
dade a outro norte intellectual. Escreve um livro,
que se possa aqui publicar. Um livro para cada
anno. Uma cousa reflectida onde não transluza
phrase que pareça queixume contra os homens ou
contra as cousas. Põe a tua provada dignidade aci-
ma de tudo, e faz sentir a amigos e inimigos que o
teu talento anda alto em quanto as tuas mãos
mexem em cafés e bálsamos. Estou bem certo que
os teus livros, romanescos ou scientificos, hão de
ser lidos com interesse. Faz de modo que, na volta
de Africa, encontres em Portugal a tua reputação
consolidada.
A Infanta capellista ha muito que está desfeita.
A consciência entrou-me pela algibeira. Perdi muito,
cavei diííiculdades, mas sinto-me bem commigo.
Escrevi depois um romance, que te hei de enviar
no próximo paquete, intitulado o Carrasco de Victor
Hugo José Alves, Aproveitei grande parte da Infan-
ta — tudo que não embarrava pelo throno ; mas
ainda assim não lhe expongi algumas ironias que
me hão de custar injurias dos abjectos que são aos
cardumes á volta do rei.
Ainda não recebi o teu retrato, que já pedi ao
i32 Correspondência epistolar
António. Agradeço-t'o, e fica certo que não sahirá
da minha gaveta.
Adeus, filho. Lembra-te. Escrevo ao pé da pedra
em que está o teu nome. Cobrem na dous cyprestes.
Teu
Camillo.
APPENDICE
Para que não se percam as oblações da
amizade levadas á sepultura de José Cardo-
so Vieira de Castro, colleccionei algumas chro-
nologias, que não são todas as que abençoa-
ram a memoria do insigne orador. Algumas
sei eu que as ungiram sinceras lagrimas ; e
ainda hoje o nome querido revive nos cora-
ções luctuosos que lh'as deram.
JOSÉ CÁEDOSO VIEIRA DE CASTRO
Da vida d'este homem, morto duas vezes, morto
para o mundo antes da morte o tirar do mundo ;
da vida d'este homem, que acabou a vida antes de
morrer, segundo a expressão de Séneca, consum-
mare pitam ante mortem, pôde escrever-se o que
elle do alto da tribuna parlamentar, d'onde se com-
prazia em semear de flores de rhetorica o caminho
que haviam de percorrer os argumentos que despe-
dia contra os adversários, disse uma vez das som-
bras da lanterna magica, que se succedem, reve-
zam-se «nos panos do muramento, vivendo o minu-
to da existência das sombras : etherea, rápida, fugaz,
como as phosphorescencias dos marneis *.»
Tudo foi rápido e fugaz n'aquella vida febril,
agitada e tumultuosa : triumphos, glorias, esperan-
ças, sonhos, enthusiasmos, júbilos Íntimos. Tudo
isto passou, turbilhão dourado, como folha levada
pelo vento. Era o vento da desgraça. Apagou quanto
^ Vieira de Castro — Discursos parlamentares — i8G5-
66. Pag. 36.
i36 Correspondência epistolar
elle tinha de bom, generoso e fecundo no coração,
crenças e aífectos, semente divina de heroísmos e
dedicações, e encheu com as cinzas da duvida e do
desespero o sacrário vazio onde aquelles affectos e
crenças se tinham gerado, nascido e crescido. Abriu-
Ihe em seguida as portas do cárcere, e depois d'um
captiveiro de mezes, durante os quaes aquella alma,
no sinistro isolamento feito de repente á roda de si,
gemeu, padeceu e consumiu o resto das suas forças
n'uma agonia excruciante e demorada, arremessou
com elle para longe da pátria, dos seus, das recor-
dações da infância, dos sonhos da mocidade, para
longe dos sitios em que elle tinha triumphado, ama-
do e sido feliz, para longe do céo e das flores da
sua pátria, para longe d'este sol creador a cujos
raios se accendera o seu engenho e dilatara a sua
alma. Finalmente veio a morte e levou-o. Onde a
desgraça passara, esterilisando tudo como a pata
do cavallo huno, mocidade, esperanças, chimeras,
illusões, sentou-se a morte armada da fouce, como
a pintavam os antigos. Triste, triste, triste !
Que resta hoje dos combates em que o acadé-
mico consumiu as primeiras forças e os primeiros
enthusiasmos da sua juventude, dos triumphos que
ao orador politico grangeou a sua palavra vigorosa
e elegante, das esperanças de que o homem se nu-
triu, das felicidades que sonhou, do ideal que todo
o trabalhador julga entrever ao cabo da sua lide e
que incita o sábio a não desesperar da sciencia e o
pobre a não desesperar da riqueza ?
E todavia nunca houve, por menos entre nós,
carreira a que o futuro promettesse mais, destino
mais brilhantemente começado, fado na apparencia
mais feliz.
Correspondência epistolar i3j
Grandes predilecções litterarias, que o distingui-
ram e acompanharam sempre, levaram Vieira de Cas-
tro nos primeiros annos a experimentar o seu talento
em tentamens de diversos géneros ; escreveu alguns
artigos no Nacional do Porto, folhetins na Revolu-
de Setembro^ e o Atheneo teve-o por collaborador
eíFectivo muito tempo. Todavia a sua obra litteraria
de maior significação é a Noticia da vida e obras de
Camillo Castello Branco, que seria de todo o ponto
um bom livro, assim como é um livro curioso, ar-
riscado e intrépido, se a tendência para o estylo
gongorico, grandes phrases exageradas e palavras
retumbantes não prejudicassem o sabor da lingua-
gem no que respeita ás leis do gosto *.
Este livro, — pormenor talvez ignorado da maioria
dos que o leram e conhecem, — foi feito n'um se-
gundo andar da rua dos Algibebes, onde Vieira de
Castro vivera com Camillo Castello Branco ha doze
annos, em 1860 ^. Existência tranquilla, retirada do
* Apreciação inexacta, resultante da falsa idéa que o snr.
S. Nazareth forma do gongorismo. O estylo de V. de Castro
demasiava-se em pompas, tecia-se com superabundância de
fios do melhor ouro ; mas, com toda a certeza, não peccava
pelos trocadilhos e conceitos forçados — os quaes caracteri-
sam a desprezada e desde dous séculos obsoleta escola de
Luiz de Gongora. Quem quizer conhecer os seus discipulos
em Portugal, procure-os no púlpito do século xvii, nos roman-
ces atoantados d'esse tempo, em Jacintho Freire de Andrade,
e, ás vezes, no padre António Vieira, exceptuadas as cartas
e os papeis polititos.
C. C. B.
2 Inexactidão. O livro foi escripto, estando eu no cárcere.
c. a B.
i38 Correspondência epistolar
mundo, esquiva ao bulício e ás agitações da socie-
dade. Nem pensava em politica, nem lia jornaes.
Nenhum dos dous, nem Gamillo nem elle, sahia de
casa, a não ser algum bocadinho á noite, e isso
mesmo raras vezes. Gomo n'esse tempo não havia
ainda jornaes de noticias, era cada qual senhor de
chegar e partir quando muito bem queria. Os prelos
não diziam nada. Por isso ninguém, ou quasi nin-
guém sabia que Gamillo e Vieira de Gastro aqui
estivessem. Estes dous homens, tão extraordinários
por mais d'um titulo, passavam na sombra e recrea-
vam-se com o mysterio em que se envolviam. Iam
apenas á casa da rua dos Algibebes Júlio Gesar
Machado *, que morava n'esse tempo perto d'aquel-
la casa, n'uma esquina do sexto quarteirão da rua
do Ouro, e João Ignacio da Gunha.
Gamillo estava n'uma das suas épocas de não
querer trabalhar. Enfastiado de tudo, como que fa-
tigado da vida, e quasi que com asco ás letras, não
queria vêr livros nem ouvir fallar n'elles ; Vieira,
que tinha por elle uma amizade que tocava as raias
do fanatismo, afinava por aquelle grande espirito^
e também não queria ler. O resultado era n'aquella
casa não fazer-se outra cousa senão conversar. O
leitor que imagine o que alli iria de philosophia, de
ironia, de observação, de critica, n'aquelles cavacos
permanentes !
Vieira tinha a nota do enthusiasmo ou a da ira ;
Gamillo, a do desdém, a do riso, a do desprezo.
Mesmo quando gracejava, o primeiro tinha como
' Devo á sua obsequiosa amizade estes preciosos aponta-
mentos inéditos. D'aqui lhe agradeço.
Correspondência epistolar i3g
que lagrimas e apostrophes nos seus ditos; Gamillo,
homem superior e homem experiente, vasava n'um
sarcasmo um mundo de idéas.
A singeleza de costumes de Vieira de Castro
n'essa época parecia desmentir os boatos que se ha-
viam espalhado a respeito dos distúrbios da sua vi-
da de estudante. Gontava-se que elle em Coimbra
fizera época, não só pelo prestigio da sua palavra e
pelo ardor da sua eloquência, mas pela coragem
dos seus actos, muitas vezes pela imprudência e
loucura d'elles. Entretanto, ao vêl-o, quasi que não
se acreditava em semelhante cousa: eram doces as
suas falias, e no trato com os amigos, meigo e dó-
cil como uma criança. Ninguém diria que fosse
aquelle gentil moço, ceremonioso, delicado, o ter-
ror das noites de Coimbra e dos dias do reitor!
Que differença entre esta sua passagem em Lis-
boa ha doze annos, tranquilla e ignorada, e a sua
entrada no parlamento, onde veio em i865 repre-
sentar um circulo da opposição! Que celeuma que
se levantou á roda do seu nome ! Que tempestades
e que triumphos ! Como foi applaudida com calor
pelos amigos e pelos adversários acerbamente cri-
ticada a sua estreia parlamentar, estreia audaz e
brilhante que o snr. António Rodrigues Sampaio,
grande amigo de Vieira de Castro, saudava no dia
immediato d'este modo na Revolução de Setembro :
«Nem a tribuna antiga nem a moderno nos offere-
cem melhores modelos de eloquência.»
Esta apreciação, na qual a amizade influia mais
que o juizo recto e imparcial de quem a fazia, não
era comtudo inteiramente destituida de fundamento.
Vieira de Castro nascera para fallar. Era fado seu,
como fado seu foi a sorte desgraçada que teve. A
140 Correspondência epistolar
sua natureza intrépida e audaz amava a luta, a em-
briaguez e as commoções do combate. A tribuna
era o seu elemento. Subia a ella como o soldado
sobe ao assalto. Sentia-se grande e forte n'aquelle
mesmo lugar d'onde Garrett desfolhara os primores
da sua palavra académica, que realisou entre nós
o ideal antigo, o consorcio da força e da eloquência
tão amados dos gregos. Como o author do discur-
so de Porto Pirêo, tinha, ainda que em grau infe-
rior, a elegância e a força, e uma cousa que mais
ninguém teve depois de José Estevão : o calor, a
chamma interior, a inspiração, o chamado fogo sa-
grado, que não se sabe d'onde vem, se desce do
céo como o espirito que illuminou os apóstolos, se
se eleva do coração como o amor, a fé, o enthusias-
mo, mas cujo poder é assombroso e cuja força é
irresistivel. Onde elle experimentou, de uma ma-
neira definitiva, esta irresistivel força e este assom-
broso poder foi n'aquelle celebre jneeting do Porto
onde elle fallou por espaço de quatro horas, e que
constituiu um dos episódios mais notáveis da nossa
vida politica n'estes últimos annos. O seu discurso,
diz quem o ouviu, foi um rugido e uma cólera,
uma magnetisação e um milagre * !
Foi o canto do cysne, a ultima vibração d'aquel-
la palavra sonora e eloquente, o ultimo som d'aquel-
ía voz possante e inspirada.
Já Vieira de Castro estava casado. Tinha visto
o novo mundo: percorrera a America do Sul, no
* José Cardoso Vieira de Castro, antes e depois do seu
julgamento, por seu irmão António Manuel Lopes Vieira de
Castro. Pag. 5o.
Correspondência epistolar 141
meio dos triumphos que lhe grangeava diariamen-
te o seu talento de orador, posto por elle ao servi-
ço da caridade em mais d'uma festa de beneficên-
cia; visitara a America do Norte, no meio das preoc-
cupações politicas de que a Republica sahiu arma-
da como Minerva da cabeça de Júpiter; dos Esta-
dos-Unidos trouxera este livro valoroso e audaz, a
mais ardente profissão de fé democrática que até
então se fizera entre nós ; das terras de Santa Cruz
trouxera o amor, a paz, a felicidade, o lar.
Tudo isto, porém, devia durar pouco. A estrella
funesta que desde os primeiros annos disputara, no
destino d'aquelle homem, com assustadora pertiná-
cia, o lugar á estrella propicia a que elle devera os
seus primeiros triumphos, i Iluminou subitamente
com o seu lúgubre clarão os horisontes até alli de
ouro e purpura d'aquella feliz e gloriosa existência.
Subitamente, por um capricho extravagante e bru-
tal da sorte, cahiu por terra, como se fora castello
de cartas levantado pela mão débil d'uma criança,
o edifício onde todos julgavam que morava o amor,
a gloria e a felicidade. Foi uma catastrophe espan-
tosa, e cujo desfecho fez lembrar o trágico final
d'aquella peça em que o poeta inglez resumiu, em
versos que hão de sobreviver a todas as idades e
a todos os cataclysmos, tudo quanto pôde haver de
mais doce no amor e tudo quanto pôde haver de
mais cruel no ciúme.
Desde este dia Vieira de Castro pôde dizer-se
que morreu.
A's vezes na cadêa, onde eu ia visital-o frequen-
temente,— confesso-o sem pejo nem temor dos
ódios que ainda possa resuscitar a sua desgraçada
memoria, — animava-se com a presença dos poucos
7^2 Correspondência epistolar
amigos que iam vêl-o, e que pela sua parte faziam
constantes esforços para o alegrar e distrahir, con-
versava, fallava, ás vezes discutia até calorosamen-
te ; mas tudo isto era rápido, fugaz, ephemero. Mi-
nava-o a tristeza, o pezar, a nostalgia de todas as
cousas que lhe tinham sorrido na vida e que elle
tinha amado. Olhava melancolicamente através das
grades para o Tejo, que lhe passava defronte da
janella tinto do azul voluptuoso d'este sereno céo,
para o sol que parecia ter medo de entrar n'aquel-
la triste morada. Todavia supportava tudo com he-
roica resignação, com um estoicismo verdadeira-
mente antigo. Aquella alma, açoutada por tempes-
tades que fariam sossobrar os ânimos mais varonis
e resolutos, não teve nunca uma hora de desfalle-
cimento. Estava como aquella arvore de que falia
o padre António Vieira n'um dos seus sermões :
despojada das folhas que a revestiam, das flores
que a guarneciam, dos fructos que a enriqueciam,
presa ainda pelas raizes, e sustentando-se na terra
(mas não da terra), espera a arvore em pé a ultima
cahida *.
Era uma alma de tempera rija, uma consciência
corajosa e forte, que jamais conheceu desfalleci-
mentos cobardes ou condescendências vergonhosas.
Depois do julgamento lhe ouvi dizer mais d'uma
vez que não voltaria a Portugal, mesmo no caso
da intercessão d'algum amigo valioso lhe alcançar
uma commutação de pena, sem completar os quin-
ze annos de degredo a que estava condemnado.
* Segundo sermão da cinza, pregado em Roma no anno de
1673.
Con^espondencia epistolai^ 148
Este valor na desgraça deve merecer algum res-
peito á sua memoria. Que respeitem ao menos a
memoria os que não poderam perdoar ao homem.
Santos Nazareth.
Morreu no degredo; mas eu não o choro. Logo
que elle deixou de padecer, as pessoas que o esti-
mavam, e se doiam da sua desgraça, devem dar
graças á divina Providencia que lhe commutou em
agonia de instantes o supplicio de quinze annos —
o interminável supplicio de toda a vida. Eu adora-
va-o, e ainda assim não choro n'esta certeza atroz
de mais o não ver. Mais atribulado martyr do que
foi Vieira de Castro ainda os homens não condem-
naram algum. Mais doce coração e cérebro mais
ardente de egrégios enthusiasmos não sei onde os
houvesse mais infelizes. Morreu, queria morrer,
ouviu-o a misericórdia de Deus. De Deus ! . . . por-
que não ? O' crucificada vida, acabarias tu ahi n*es-
se cemitério de Africa ? . . .
Em i3 de setembro de 1871, quando elle ia ca-
minho do degredo, escreveume da ilha de S. Vi-
cente estas palavras: «Levo não sei que sobresal-
tos de que vou morrer. Penso serenamente na mor-
te, e é isto o que me faz crer n'ella. Vejo a morte
como um descanço . . . Estas tristezas tem tudo
com a voz interior da minha alma que me diz que
o meu dever é morrer. . . E' claro que o meu des-
tino é um absurdo, e fugir d'elle seria salvar-me.
Os teus filhinhos que ponham as mãos para Deus
por mim e por ella ...»
144 Correspondência epistolar
Elle tinha amado muito a desventurada para
quem pedia os suífragios de dous innocentes. Ia
perdido, a sorrir á morte, a crer que era honra sua
seguir a alma que o abysmára, e pedia que oras-
sem por ella a Deus.
Em 21 de novembro de 1871, dizia-me : € . . . Te-
nho horas de escuríssima melancolia . . . Em dia de
finados fui ao cemitério. Vesti o meu luto e fui lá.
Eram seis horas da manhã; ouvi umas missas, e
passeei depois por entre as sepulturas. Deus viu-
me do céo por um punhado de lagrimas com que
me deixou consolar. Tive pena dos mortos de Loan-
da, meu filho. Não haverá no mundo outros nem
mais desamparados nem mais esquecidos. Não ha
uma sepultura visitada por flores; rara pedra tem
epitaphio, e nenhuma urna que tenha orvalhos ! Ha,
ao redor dos canteiros, umas arvoresinhas com
umas flores roxas e brancas. Atirei com algumas
para cima de uma sepultura sem nome, e trouxe
umas poucas para te mandar a ti. Estão alli mirra-
dinhas, mortas e debruçadas n'um pequeno cálix.
Tencionava mandar outras também ás senhoras de
minha familia; já puz, porém, na carta ao António
que não mandava nenhuma: podia ser agouro.»
No dia de finados do anno seguinte. Vieira de
Castro já era um dos mortos no cemitério triste de
Loanda. Alli jazia em meio dos desamparados e es-
quecidos que lhe haviam desafogado o coração em
lagrimas consoladoras.
Em 22 de fevereiro d'este anno escrevia-me :
«Eu tenho tédios mortaes. Volto a sorrir á possibi-
lidade de morrer; mas agora sem tristeza; é com
placidez, com animo frio, sem presumpções falsas,
que penso e desejo isto. Nenhum sentimento me
Correspondência epistolar 145
prende á vida. O da família e dos quatro amigos
verdadeiros esse lá irá para a minha sepultura vi-
giar por mim. . . Vou dizer- te uma cousa com toda
a frieza do meu animo. Ando desconfiado de que
venho a acabar pelo suicidio.. . N'esse final, nin-
guém verá a vaidade. . . Mau é quando eu começo
a pensar muito na mesma idéa, e este desatino an-
da ha tempos com insistência a martellar-me no cé-
rebro. Deixa vêr.»
Não se suicidou. Vidas tão vigorosas e capazes
de tamanha enchente de amarguras não se aniqui-
lam. Desejava a morte, esperava-a da mão de Deus.
Ajoelhou nacapella do cemitério, pedindo-a. Orou
pelos desterrados que o precederam na redempção.
Nunca vi tão grande infeliz com tão entranhada fé.
Se o convencessem de que Deus se compraz em
que vivam deshonrados os que o confessam. Vieira
de Castro seria a esta hora o máximo orador por-
tuguez, o tribuno que arrastava as multidões, o en-
genho adquado a occupar os mais elevados postos
da politica. Mas elle, morto no coração, perdeu
a memeria das glorias adquiridas, e a esperança das
que lhe promettia a energia do seu talento.
As suas ultimas cartas para mim revelavam a
gravidade da doença que o ia extenuando. Em todas
se lastima de que a sua agonia vá sendo tão demo-
rada^ mas de seu irmão António, o seu primeiro
amigo, escondeu elle sempre a enfermidade e os
presagios funestos. As ultimas doze horas, que di-
zem os telegrammas terem sido o prazo da doença,
foram a exacerbação dos derradeiros paroxismos.
Um amigo e seu companheiro, me escreve em 12
de setembro que receava muito pela vida d'elle, e
se espantava da serenidade com que entendia nos
voL. n 10
14^ Correspondência epistolar
negócios commerciaes em que buscava acalentar as
dores da alma.
Permittisse Deus que elle, nas suas horas íinaes,
não visse a imagem de sua extremosa família e dos
amigos que lhe adoram a memoria.
Ao sahir de Lisboa, em 4 de outubro de 1871, me
escrevia o meu pobre amigo: «Adeus.. . Se por lá
morrer, decerto sobe a minha alma com a tua ima-
gem, b O' meu Deus, a vossa immensa bondade de
certo desviou do espirito d'elle, na hora do trespas-
se a memoria das pessoas que o amavam.
Alma que me serás exemplo e conforto nas mi-
nhas dores n'esta breve vida que me resta, perdôa-
me se eu te não amei quanto devia. Quando eu me
sentir dobrar pela desgraça, pedirei á tua imagem
qne me ensine a soffrer n'aquella inquebrantável
honra com que aceitaste o immenso cálix que, em
fim te afastou dos lábios o anjo bemdito do morte»
Camillo Castello Branco.
No dia 5 d'outubro, ás 9 horas da noite, entre-
gou a alma ao Creador o exc.™*^ snr. dr. José Car-
doso Vieira de Castro, victima de uma febre per-
niciosa fulminante !
Geral foi o sentimento de Loanda inteira ! No dia
seguinte teve lugar o seu funeral a que assistiu a
primeira sociedade d'esta cidade.
O snr. governador geral veio prestar o ultimo tri-
buto de amizade ao seu antigo amigo, pegando n'uma
das argolas do caixão e acompanhando a pé até o
cemitério o carro mortuário.
Correspondência epistolar 7^7
A' beira do sepulcro o snr. Urbano de Castro re-
citou a bella allocução que demos n'outro logar. No-
tou-se uma coincidência notável — que no mesmo
dia e hora em que Vieira de Castro era accommet-
tido pela febre que d'alli a poucos momentos o havia
de trasladar ao sepulcro, fazia justamente um anno
que desembarcara em Loanda, terra do seu exilio e
seu tumulo.
A' exc."^^ familia do finado enviamos d'aqui os
mais sentidos pêsames e acompanhamos na justa e
profunda dor de que também estamos possuidos
pela prematura morte do nosso desditoso amigo.
LOANDA 9 D'OUTUBRO DE 1872
Cahiste tu também victima infausta,
A mim tão caro, a Portugal, ao mundo,
A's musas, ao saber, cahiste Elmano! . . .
Já fria o corpo teu lapida encerra
E o somno funeral teus olhos fecha!
Sombras, sombras sem fim, cobrem teu rosto
E no silencio do sepulcro existes!
Antecipada mão do tempo avaro
Rompeu a teia da existência tua!
J. A. DE Macedo. — Epicedio.
José Cardoso Vieira de Castro já não existe.
E' já presa da morte aquelle vulto, aquelle co-
losso, que por base tinha a fama e seus tropheus,
por aureola as irradiações do talento e os brilhan-
tes fulgores do génio, verdadeiras emanações da di-
vindade !
148 Correspondência epistolar
Vieira de Castro, o académico laureado, o rigido
tribuno do povo e da liberdade, o orador consum-
mado, irresistivel e victorioso jaz hoje enregelado
pelo frio da morte e arremessado á escuridão per-
petua do sepulcro!
A imprensa periódica de cujos foros Vieira de
Castro foi sempre acérrimo defensor e propugna-
dor, não pôde deixar de registar com dor profunda
esse successo infausto e cobrir-se de negro crepe
pela perda irreparável que acaba de soffrer!
A nós, seu amigo, que o acompanhamos nas ho-
ras amargas da provação e do desterro, a nós que
sentados com elle á margem do seu Euphrates, no
meio d'essa Babylonia corrupta e devassa — lhe ou-
vimos soltar sublimes canções, fructo d'aquelle gé-
nio inspirado e divino, resta-nos a vivissima sauda-
de que nos opprime o peito !
Vieira de Castro ! . . .
Martyr sublime da honra, que por ella te preci-
pitaste do mais alto fastigio da grandeza e do po-
der para o abysmo mais negro e mais profundo aos
olhos do vulgo e da multidão, martyr invicto que
tudo afifrontaste, que tudo jogaste e malbarataste
em única defeza do teu nome e da tua probidade,
adeus ! !
Descança em paz á sombra do repouso e do se-
pulcro.
Tecer teus elogios, formar tua apotheose, é em-
preza tão impossivel, como é impossível á humilde
avesinha seguir o voo remontado da águia real.
Vieira de Castro! — Teu nome é a synthese mais
completa de toda a grandeza, de toda a sublimida-
de, de toda a veneração!
Correspondência epistolar i4g
Génio como o teu não se exalta porque se depri-
me : admira-se, venera-se, adora-se !
Tua memoria será bemdita em todo o tempo e
em todas as gerações !
A posteridade passando por teu tumulo desco-
brir-se-ha respeitosa ao ler o teu epitaphio:
AO MARTYR DA HONRA
{Mercantil, de Loanda).
A' MEMORIA
DE. JOSÉ (JAEDOSO VIEIEA DE CASTEO
De dia em dia as lagrimas saudosas
De afflictos corações estão regando
Marmóreas campas, urnas lutuosas.
Honrem as cinzas, honrem a memoria
D'esse, que do mundano atroz conflicto
No céo desfructa singular victoria.
Bocage. — Eleg.
Morreu o H^eus da palavra, assim escreveu o
nosso primeiro jornalista, consagrando um artigo ao
passamento do grande tribuno portuguez, do Cíce-
ro do nosso parlamento — José Estevão Coelho de
Magalhães. E nós, com a face banhada do pranto
que a dor arranca, diremos : — foi cahir nos arden-
tes areaes d'Africa uma estrella brilhante que n'a-
quelle céo nebuloso se mergulhou em densas tre-
j5o Correspondência epistolar
vas. Deixou de existir aquelle que o infortúnio enor-
me, uma desgraça s'em nome, atirara á terra do de-
gredo da pátria, do estremecido amor da mãi e da
familia, da estima dos amigos, alliados pela frater-
nidade litteraria; — o successor de José Estevão,
— José Cardoso Vieira de Castro: — o amigo que
havia pouco nos honrava com expressões puras da
sua alma, do afTecto de um coração nobilissimo.
O grande orador, portentoso, rico de imagens,
poderoso de eloquência, brilhante pelo estylo, foi
seccar as suas coroas, os seus lauréis de triumphos
obtidos nas gigantescas lutas da palavra, — n'um
paramo, para onde partira da pátria que honrara!
Vieira de Castro vergou sob o peso da sua crui:
mas não d ignominia d'e!la. Succumbiu ao transe
da sua insondável agonia ; expirou-lhe nos lábios
ungidos de lagrimas o verbo eloquente, cuja magia
arrebatava as multidões.
Deus escutou a fervorosa prece do nobre e gran-
de desgraçado ; quiz estancar as ultimas lagrimas
d' aquelle honrado coração e enviou-lhe, como doce
trago, a morte que o martyr da honra de certo re-
cebeu com a resignação de quem expira vergado
ao peso de sua cru\.
No dia 5 d'outubro, pelas 9 horas da noite,
aquelle espirito que ainda nos ardentíssimos areaes
de Africa scintillava pelo fulgor do talenlo, ecli-
psou-se. A Vieira de Castro cerrou-se-lhe a noite;
a névoa da morte toldou-lhe a vista, e atirou ao tu-
mulo toda a seiva de uma mocidade preciosa.
Morreu Vieira de Castro, rei da palavra; des-
appareceu da terra aquella voz sympathica e elo-
quente que se cobria de applausos de todos os seus
coUegas na camará popular.
Correspondência epistolar i5i
Quem o diria ? ! Que o colosso d'essas gloriosas
e incruentas luias^ o Deus da palavra, que o sobe-
rano da eloquência, cuja voz potente em cada dis-
curso contava triumphos completos, derrotava egré-
gios talentos, havia de ir banhar a radiante fronte,
e para sempre sumir-se no ardente clima d'Africa?!
Que aquelle cuja voz nobre, gesto verdadeiraiDente
varonil, que supplantou poderosos adversários, ha-
via de ir, pelo amor á sua muita honra, no sol
dourado da manhã da vida, no desabrochar das
flores do génio, seccal-as, desfolhal-as n'esse clima
inhospito, sem perfumes, mas cujas exhalações lhe
ENVENENARAM a vida prcciosa ! . . . Quem diria que
aquelle coração nobre e leal, que não dava tréguas
ao adversário no campo da discussão, nas lutas da
palavra, que só o deixava no ultimo arquejar da
vida intellectual, ionge de ter na pátria longa vida
que ennobrecesse, e, como José Estevão, quando
a morte lhe cortasse as prisões da existência, jun-
to ao palácio da legislação portugueza, se lhe eri-
gisse memoria como aquelle tribuno, a quem suc-
cedeu, — na terra do degredo, teria modesta cam-
pa, copada por tristes cyprestes que no g^mer lú-
gubre dizem em lutuoso pranto da natureza : —
aqui jaz um homem que honrou a pátria, e que por
amor da honra abandonou gloria, renome, honras
e posteridade !
«Faltava-te morrer. Vieira de Castro», escreveu
o teu eloquente amigo o primeiro romancista por-
tuguez, — Gamillo Castello Branco : — sim, e falta-
va-te morrer «para que em tua sepultura se respei-
tassem as cinzas de um grande coração, estremado
na honra e na desgraça!»
Eis-te, nobre amigo, na sepultura, onde as vo-
i52 Correspondência epistolar
zes da lisonja se não escutam, mas onde o pranto
amigo vai correr ; onde a saudade requeima as fa-
ces pallidas pela dor do amigo finado. Eis-te na se-
pultura, n'esse abysmo onde te fez resvalar a mão
que osculavas e ungias estremecido das lagrimas
da felicidade !
Ainda bem que a morte foi acabar uma tristeza
irremediável. Sequestrado da pátria, não te cuspi-
ram nas grinaldas dos teus triumphos ; choraram
sobre ellas : — não as salpicaram de lodo nem de
pó. A tua alma, martyr da honra, viu do céo, on-
de de certo terás recebido a palma de teu marty-
rio, a cidade de Loanda, chorar o passamento de
tua curta vida, onde as flores da tua coroa desabro-
charam em espinhos, oh grande espirito !
Todos, authoridades, magistrados, commercio e
povo acompanharam o cadáver do finado illustre á
sepultura.
O carro funerário também foi um carro de trium
pho, se bem que triste. Ladeavam-o com as faces
orvalhadas de lagrimas os primeiros homens d'a-
quelle paiz : para onde se mandam degredados,
mas onde ha corações doridos que soltam vozes de
angustia quando vêem esconderem-se na sepultura
talentos egrégios, caracteres nobres, que honrariam
a pátria, se o infortúnio os não ferisse !
A' beira da sepultura ainda amigos dedicados,
que tinham lagrimas para prantear um infeliz, com-
memoram-lhe as glorias e o infortúnio, uma des-
graça sem nome.
Nós, em homenagem á amizade que nos ligou
áquelle grande e respeitável desgraçado, aqui, n'es-
tas poucas linhas, como desabafo a uma lacerante
angustia, lhe consagramos um tributo á sua memo-
Correspondência epistolar i53
ria, e são ellas as saudades que depomos sobre
sua campa.
J. A. d'Ornella.s.
(O Direito).
VIKIRA DE CASTRO
O vapor Cambridge^ chegado dos portos d' Afri-
ca, trouxe-nos uma triste noticia.
Vieira de Castro morreu !
Vieira de Castro que ainda hontem dominava,
com a sua esplendorosa eloquência, o parlamento
portuguez; Vieira de Castro, esse filho dilecto das
idéas ingentes e sublimes do porvir, cujo nome
voou, ainda ha pouco, de bocca em bocca como um
hymno d'amor social ; Vieira de Castro que, ébrio
de amor e de esperança, trouxe das terras ameri-
canas a mulher que devia enlutar-lhe o viver, ar-
chanjo formosíssimo que elle sonhou em horas de
longo meditar ; Vieira de Castro já não existe ! . . .
Quantas vezes, por sob o céo tristuroso do exí-
lio, elle, o liberal convicto, elle, o patriota fogoso,
mas sincero, quantas vezes, repetimos, não recor-
daria, com pungitiva saudade, o paiz que lhe foi
berço, o paiz que admirou o génio fulgurante do
seu talento !
Quantas vezes, com os olhos fitos no céo afri-
cano, não sentiria elle bater-lhe o coração, que re-
pousava dentro de tão pequeno âmbito !
Que poemas deslumbrantes, lindos de profun-
díssima tristeza, não estariam gravados na retina
da sua riquíssima imaginação !
i54 Correspondência epistolar
E Vieira de Castro, a victima do crudelissimo
destino, morreu, tombou como roble gigante, pe-
dindo, talvez, ao Senhor dos mundos por aquella,
que lhe roubou as paisagens esplendidas do seu
paiz, do seu Portugal, do seu berço querido !
Eil-o, no verdor da mocidade, quando os pul-
mões deviam aspirar o ar embalsamado da sua pá-
tria, quando o mundo lhe devia sorrir através o
prisma da ventura, eil-o. . . hontem proscripto, hoje
no pó das sepulturas.
Nas azas dulcíssimas, nós, como liberaes, como
admiradores do teu talento e condoídos também da
desgraça, que te anciou em quanto vivo, nós, re-
petimos, te enviamos uma saudade, um dolorosís-
simo adeus !
Possa a tua alma encontrar, na mansão celestial,
o premio que Deus concede aos caracteres genero-
sos como o teu !
(O Liberal).
NOTAS
AO
VOLUME PRIMEIRO
É-me aprazível colligir n'este livro a glo-
riosa estimação com que foi recebido o livro
do snr. António Manoel Lopes Vieira de Cas-
tro. O melindre d^aquelle escripto ameaçava
êxito perigoso. Fazia-se mister talento, ver-
dade incontroversa, grande prudência, e hon-
ra muito afouta para que ninguém pozesse a
ponta de um dedo sujo n'essas candidíssimas
paginas. Triumphou o império da probidade
sobre as paixões ruins. A biographia de Viei-
ra de Castro estabeleceu simultaneamente a
honra dos dous irmãos que se adoravam.
Transcrevo as mais distinctas apreciações
que appareceram nos periódicos.
NOTA 1.^
BIBLIOGRAPHIA
yosé Cardoso Vieira de Castro^ antes e depois do seu jul-
gamento^ por seu irmão António Manuel Lopes Vieira de
Castro — Porto, 1871.
E' tarde talvez para fallar d'uma publicação que tirava
o seu principal interesse d'um successo que, como todas as
cousas d'este mundo, veio a ser esquecido com facilidade
igual á avidez e sobresalto com que ha nove mezes eram
indagados e repetidos os seus mais insignificantes porme-
nores.
Que haya um cadáver mas, que importa ai mundo }
Mas como eu não venho com mão iconoclasta vasculhar
cinzas d'um tumulo que se cerrou para sempre sobre a ju-
ventude e a belleza, nem revolver feridas d'onde cahe con-
tinuamente, indo confnndir-se com o pó e tornar-se pó
como elle, a alegria, a esperança, õ futuro d 'uma existên-
cia fadada para essas mesmas cousas doces e risonhas, que
perdeu para sempre ; quer parecer-me que ainda será tem-
po de citar, com o respeito que nos devem merecer todos
os intuitos generosos e todas as acções elevadas, a piedade
eloquente e o persuasivo amor com que o snr. António
i6o Correspondmcia epistolar
Vieira de Castro, n'um opúsculo sympathico por todas as
razões, faz a defeza de seu irmão. Vê-se por ella que é car-
ne da mesma carne, sangue do mesmo sangue, tanto o des-
ditoso réo como o angustiado defensor.
Para a rehabilitaçao moral do primeiro, ha de talvez ser
considerada inútil esta voz que se ergue poderosa, e toda
vibrante de sentimentos affectuosos, para cobrir com o seu
misericordioso carinho a honra e o caracter d'um homem
para quem o tribunal mais foi calvário expiatório que pe-
lourinho infamante. Foi proferida essa rehabilitaçao pelo
jury, pela imprensa, pela opinião, e lavrada está solemne-
mente por essas três grandes forças, reconhecidas e acata-
das nas sociedades modernas, que a ellas devem todos os
progressos do espirito e da consciência humana. Mas ainda
que por outro lado se não recommendasse, o opúsculo do
snr. António Vieira de Castro tem o mérito de revelar in-
cidentes e episódios da vida de seu irmão que se estavam
conhecidos dos amigos d'este, eram completamente ignora-
dos do publico em geral
Mostra-nos principalmente a primeira parte do opúsculo
o académico, espirito levantado, coração sensivel, alma
aberta a todos os sentimentos generosos e a todos os en-
thusiasmos legitimos, imaginação meridional, talento de
orador, e sobre tudo criança imprudente, d'essa imprudên-
cia que tem gerado os heroísmos e as dedicações loucas
que fazem iranzir a sobrancelha aos egoístas, mas que
obrigam os astros a sorrir. São igualmente narrados n'esta
primeira parte do opúsculo os triumphos alcançados na
tribuna portugueza pelo académico, então já deputado;
mais tarde, as honras obtidas no Brazil, onde pôz a sua pa-
lavra eloquente e apaixonada ao serviço da caridade e da
beneficência ; depois do seu casamento, a viagem que fez
aos Estados-Unidos, em cujas instituições e em cujos cos-
tumes deu a beber ao seu espirito, educado nas praticas
constitucionaes da velha Europa, o fecundo leite do pro-
gresso e da liberdade americana (sirva para exemplo o
opúsculo que depois publicou em Portugal com o titulo de
Correspondência epistolar i6i
Republica) ; na volta a este reino, os seus últimos esforços
e as suas ultimas luctas para volver á carreira parlamentar,
depois de vêr mallogrado o intento de passar novamente
ao Brazil, onde queria ir advogar.
Tudo isto é contado precipitadamente, febrilmente, mais
como quem falia de que como quem está escrevendo ; em
todas as paginas, por baixo da febre e precipitação de es-
tylo com que estão escriptas, se sente um coração túmido,
como os troncos onde o maio faz subir a seiva, de sentimen-
tos acrisolados por uma desgraça irreparável.
A segunda parte é essencialmente consagrada a refutar
vários pontos da accusação tanto particular como do minis-
tério publico. Ahi a dor, o sentimento fraternal fica afoga-
do nos Ímpetos da replica c na vehemencia dos argumentos.
Tem, porém, tão persuasivo tom de sinceridade o que é di-
to e affirmado n'essa segunda parte do opúsculo, quasi sem-
pre apoiado pelo testemunho authorisado de pessoas res-
peitáveis, que não ha lugar para suspeitar de infidelidades
criminosas a paixão que pôde agitar aquellas paginas.
Não esperem de mim uma apreciação litteraria do snr.
António Vieira de Castro. Seria mal escolhida a occasião
para discorrer sobre as purezas ou impurezas da sua lin-
guagem, sobre as boas ou más qualidades do seu estylo.
Notarei simplesmente que ha annos publicou elle uma tra-
ducção da Família^ de Paulo Janet, que se recommenda
pela intelligencia com que está feita, não lhe faltando ele-
gâncias de estylo, apreciáveis n'um escriptor, quanto mais
n'um simples curioso, e por um pequeno prologo muito
bem pensado e sentido.
Santos Nazareth.
Hontem mesmo chegou do Porto e já se acha á venda
em todas as lojas, um pequeno livro que tem por titulo —
José Cardoso Vieira de Castro^ e que é escripto por seu ir-
mão António. Segue-se n'esse livro a vida de Vieira de
VOL. U II
102 Correspondência epistolar
Castro, passo a passo ; luctas, gloria, grandezas, e desgraça.
Está escripto com verdade, que é a melhor defeza, e com
affecto, que é o melhor talento. Separa os dous irmãos um
intervallo de annos ; o mais velho é mais louro : o mais no-
vo é mais alto; não se parecem até, talvez, no rosto — mas
sente-se que vive uma só alma n'aquelles dous corpos. E*
como que uma pessoa em dous invólucros. A conformida-
de moral é tão forte que chega a fazer esquecer as desse-
melhanças physicas. De uma vez, na prisão, conversando,
succedeu-me como que confundil-os, e continuar com um
a conversação que principiara com o outro. Era como se
cousa alguma me indicasse que mudava de interlocutor.
Dos dous irmãos o que se achava mais perto de mim seguia
a idéa desde o ponto em que o outro a deixara, sem a mí-
nima hesitação. Em todo este tempo de infortúnio, o triste
irmão tem-se dedicado a Vieira de Castro com um carinho
sublime, e este livro em que se honra o nome e a vida
d'aquelle infeliz moço é uma nova prova da nobreza de
affecto de seu irmão.
J. César Machado.
PUBLICAÇÃO
Anda já nas mãos de muitos um opúsculo ultimamente
publicado e que tem por titulo José Cardoso Vieira de
Castro antes e depois do seu julgamento^ por seu irmão An-
tónio Manoel Lopes Vieira de Castro.
O interesse que ainda move e moverá sempre a grande
e lamentosa catastrophe a que anda associado esse nome,
que em varias circumstancias se tinha tornado tão illustre-
mente notável, justifica a attenção que já uma parte do
publico presta ao escripto que mencionamos.
E' elle com efFeito digno de leitura, porque dictado pe-
los mais nobres sentimentos e escripto com a insinuante
Correspondência epistolar i63
singeleza que só dá a verdadeira convicção, expõe em toda
a sua luz um caracter que tudo leva a crer generoso, mas
que uma funestíssima aberração pôde entenebrecer.
E' esse o fim d'esta publicação, como se evidenceia da
sua leitura e como diz o irmão do infeliz encarcerado, o
snr. António Manoel Lopes Vieira de Castro nas seguintes
linhas da advertência que precede o seu trabalho :
«A primeira parte d'este opúsculo estava destinada á
publicação antes do julgamento que teve lugar nos dias 29,
30 e 31 de novembro. Sendo, porém mostrada ao snr. Viei-
ra de Castro, obstou elle tenazmente á realisação dos nos-
sos desejos dizendo, que por modo nenhum consentiria
que fosse prevenido o animo de seus juizes.
«Devo confessar que me parecia indispensável subtrahir
á pressão de uma opinião pouco justa um homem, cuja pu-
reza de sentimentos tão profundamente, eu conhecia. Não
foi sem violência que cedi.
«Em compensação, permitta-nos o leitor, agora, que a
sociedade proclamou o seu veredictum, que nós digamos a
verdade com todo o desassombro, e que nos não prendam
falsas considerações de modéstia, porque falíamos de um
irmão.
«Desde que o destino nos flagellou com tão grande in-
fortúnio, e logo depois que as interpretações tão variadas
como erróneas conquistaram uma direcção falsa á opinião,
foi sempre nosso propósito esclarecer o publico a seu tem-
po, com as nossas palavras, que seriam a expressão fide-
líssima da verdade.
«Assim, pois, vimos rogar a attenção publica para os fa-
ctos que passamos a narrar, bem como para as breves con-
siderações que nos suggerem as duas accussições que no
tribunal foram feitas a um homem, que se preza de ter
empenhado sempre todos seus recursos em demonstrar
que era bom filho, bom irmão, óptimo marido e grande ci-
dadão.
«Apparecemos, pois, perante o publico em nome de dous
164 Correspondência epistolar
sacratíssimos princípios, da verdade e da honra de uma
família.»
Santo e louvável móbil, que nós veneramos e que a opi-
nião publica do paiz, a quem é dedicado o opúsculo, não
deixará de acatar.
M.
(Commercio do Porto).
BIBLIOGRAPHIA
O snr. António Manoel Lopes Vieira de Castro acaba de
publicar um opúsculo que tem por objecto relatar alguns
dos factos mais notáveis da vida de seu irmão, c rebater as
calumnias que se levantaram pela occasião da enorme des-
graça, que arrojou o snr. José Cardoso Vieira de Castro ás
cadêas do Limoeiro.
Essa publicação honra a intelligencia e o coração do au-
thor, cuja nobreza d 'alma se revela em cada uma das pa-
ginas que a amizade traçou sob os estos do mais vivo en-
thusiasmo fraternal.
Se fosse possível desligar Vieira de Castro da horrível
tragedia da rua das Flores, appareceria, depois dos factos
narrados por seu irmão, a sua notável personalidade illu-
minada pelo mais esplendido clarão das sympathias publi-
cas.
Ao correr-se o véo que encobriu as delicadezas d'aquel-
le coração, o levantado d'aquella alma, o enthusiasmo d'a-
quelle espirito em que referviam em cachão as mais nobres
paixões, a justiça individual recua absorta, sem força para
condemnar, e as lagrimas borbulham dos olhos presencian-
do o eclipse d'um talento predestinado, d'uma alma eleva-
da que se sumiram nos abysmos do infortúnio.
Agora que a justiça dos homens pronunciou a sua sen-
tença, que a sociedade tomou o seu desforço, apparecem
Correspondência epistolar i65
as palavras d'um irmão, não a implorar piedade ou miseri-
córdia, mas • a rebater o infame reptil da calumnia : não a
apresentar attenuantes, mas a salvar do naufrágio a honra
d'um desgraçado, que espíritos mal intencionados tentaram
envolver nas ruinas da fatal catastrophe.
Ao findar tão notável trabalho o leitor defronta com um
Vieira de Castro totalmente differente d'aquelle que a opi-
nião publica phantasiára a seu grado, e insensivelmente
presta homenagem ao author que, sem se apartar da ver-
dade, soube ser escriptor correcto, advogado eximio e ir-
mão incomparável, e que, esquecendo a hombridade que
ostentara n'um dolorosíssimo transe, deixou fallar o seu
coração, e pondo mão delicada em feridas ainda gotejando
sangue, a ninguém molestou ou offendeu. O defensor con-
quistou assim metade das sympathias, que ninguém depois
da leitura. de tão brilhante trabalho negará a José Cardoso
Vieira de Castro, embora condemne o modo por que elle
vingou a sua honra ultrajada.
[Progresso Conimercial).
Tem sido muito procurada a Biographia do snr. Vieira
de Castro escripta por seu irmão António. São geraes os
louvores de toda a imprensa das províncias a este opúscu-
lo ; interessante, pelo que narra da vida académica^ parla-
mentar, das viagens^ das publicações^ luctas de tribuna^ e
actos de beneficência feitos com a palavra do biographa-
do ; e convincente, pelos documentos authenticos e valio-
sos que publica. O preço, que é baratíssimo, concorre com
tudo o mais para que o snr. António Vieira de Castro veja
a sua obra já em tão pouco tempo quasi por toda a parte
espalhada, e, sem divergências, bem aceite e premiada. E'
notável em obra portugueza, e onde eram tantas as amar-
guras do author, a delicadeza e fina urbanidade que se não
desmentem nunca! Por tudo isto ten^sido muito felicitada
i66 Correspondência epistolar
o snr. Vieira de Castro, e terá a maior satisfação de ver
em pouco a sua edição esgotada. Assim o cremos pelas in-
formações que temos da venda considerável feita já nas li-
vrarias do Porto e Lisboa.
LIVRO IMPORTANTE
E' o intitulado jfosé Cardoso Vieira de Castro^ antes e
depois do seu julgamento^ por seu irmão António Manoel
Lopes Vieira de Castro. Lemos com avidez este livro, que
é uma completa desaffronta de uma victima illustre atroz-
mente calumniada no seu infortúnio — Vieira dd Castro^
o martyr da loucura da honra^ como em phrase sublime e
eloquente o chamou o seu erudito patrono, e nosso amigo,
o dr. Jayme Constantino de Freitas Moniz.
O livro que temos presente não é simplesmente a expres-
são eloquente da dor do amor fraterno : é mais — é a luz
que irradia por sobre o lúgubre quadro de uma honra ma-
culada pelo infortúnio e pela calumnia atroz ; é a repara-
ção solemne á desdita sem par de um génio brioso que pen-
sou, no seu delirio vingar no sangue a honra de esposo,
que lhe fora ultrajada.
Dizia a calumnia que Vieira de Castro era ambicioso, e
o livro que temos presente prova-lhe uma abnegação sem
rival ; que era perdulário, e o livro confunde esse aleive ;
que desbaratara o património de sua esposa, e o livro faz
desapparecer essa falsidade ; que se apossara das prendas
de sua consorte, e o livro prova que o desditoso martyr
as apresentou, não só as que trouxe do Brazil, como as que
comprou na sua viagem para Portugal, e as que cá com-
prrou ; a calumnia accusa de dissoluto a Vieira de Castro,
e o livro prova que este grande martyr da sua própria
honra sô vivia para a esposa e para a familia !
Tardia, mas completa é a reparação que constitue o no-
tável livro J^osé (Cardoso Vieira de Castro^ antes e depois
do seu julgamento. Os menos benévolos têm n'este livro as
Correspondência epistolar j6y
provas da injustiça com que julgaram o homem brioso, o
talento esplendido, que hoje jaz entre ferros — nas medo-
nhas trevas, onde o infeliz tem em vida a sua nobre alma
sepultada !
«Abençoado o esforço do amor fraternal» como bem
diz um nosso coUega do Viriato^ dando a noticia do livro
que temos presente, «que assim recoUocaste o idolo da fa-
mília no altar que lhe pertence.»
Este livro foi, pois, o bálsamo puro generosamente der-
ramado por sobre um coração golpeado, pelos mais inexo-
ráveis que condemnavam a victima da honra Vieira de
Castro sem o ouvirem, sem commiseração para com um
desgraçndo, que tantas lagrimas causa aos homens pundo-
norosos.
«O livro,)) escreveu ha pouco um companheiro de prisão
de José Cardoso Vieira de Castro, e amigo particular do
Jiosso primeiro romancista, Camillo Castello Branco, «d*on-
de a verdade resalta a cada periodo, escripta em lingua-
gem a um tempo castigada e fácil ; o censo de boa lógica
e razão tucidissima com que faz derivar até de todo escla-
recer as suas proposições ; a eloquência fácil mas apaixo-
nada que persuade e commove ; a intenção, ás vezes amar-
ga, mas sempre digna; a explosão do sentimento, emfim, tudo
revela, a par de um vigoroso espirito, um coração dedica-
do. Este livro é o ultimo golpe descarregado sobre as ac-
•cusações contra um moço, que tão mal julgado e tão mal
comprehendido foi.»
Bem haja o amor fraterno, subHme e inspirado que pode-
rosamente desaffrontou o desditoso que esmagado pela
dor como que lhe falleceu o verbo eloquente para defen-
der-se.
O snr. António Manoel Lopes Vieira de Castro tem re-
cebido, dizem os nossos collegas da capital, pelo seu tra-
balho as mais honrosas felicitações dos nossos mais distin-
ctos escriptores — especialmente o snr. visconde de Cas-
tilho, que dirigiu pelo mesmo motivo ao snr. Lopes Vieira
de Castro uma sentida e eloquentíssima carta.
i68 Correspondência epistolar
E* merecedor de taes honras o snr. Lopes Vieira de Cas^
tro. — No seu primoroso trabalho enlaça s. ex.* com o amor
fraterno a justiça e a verdade^ põe ao conhecimento de
todos a honrada vida academiea e politica, a caridade do-
desventurado talento que triumphantemente desaffron-
tou, de cuja vida escreveu sentidas e honrosissimas pagi-
nas.
O nosso respeito ao grande infortúnio do desditoso José
Cardoso Vieira de Castro ; as nossas felicitações a seu di«
gno irmão o snr, António Manuel Lopes Vieira de Castro^
pelo seu notável opúsculo. Juntamos os nossos agradeci-
mentos*pela offerta do exemplar que se dignou enviar-nos.
João Augusto d'Ornellas.
{Direito).
O snr. Henrique da Cunha, moço provinciano de bas-
tante merecimento, acaba de escrever um livro de considera-
ções philosophicas, acerca do julgamento do snr. José Car-
doso Vieira de Castro.
Tào franca é a opinião do snr. Cunha acerca das tristes
occorrencias, a origem d'aquelle julgamento, que termina
o seu escripto com as seguintes palavras: «Em Vieira de
Castro não ha delido, nem instinctos ferozes ; ha o pundo-
nor, o nome, a gloria, a gloria offendida. Ha uma dòr que
mata e uma agonia que se sente e não se explica.»
O folheto revela talento e sobre tudo espirito pensador
e dado a investigar a verdade. A propósito d'este assum-
pto direi que o livro Vieira de Castro, antes e depois do
seti julgamento^ escripto pelo snr. António Vieira de Cas-
tro tem tido procura digna da elevação e primor com que
está escripto.
Esperava-sc talvez um escândalo, a condemnação vio-
lenta de todo o julgamento e encontrou-se a biographia do
condemnado, com os melhores annos da sua vida, as suas
alegrias, os triumphos, as suas boas qualidades, as suas
Correspondência epistolar i6g
loucuras de criança, as suas luctas de homem, tudo escri-
pto com o fogo da mais decidida amizade, e por um irmão
que valeu para o condemnado a melhor das mães.
{Primeiro de Janeiro).
Appareceu á venda em Lisboa o opuseulo intitulado
José Cardoso Vieira de Castro., antes e depois do seu jul-
gamento. E' escripto por seu irmão com toda a elegância
de um verdadeiro escriptor e com o desassombro e a recti-
dão de espirito de um homem de honra e de caracter. Tem>
sido muito procurado e muito lido.
(Correspondência de Lisboa para. o Progresso do Porto).
NOTA 2.'
Convencionou-se que um certo musculo que nós temos,
como qualquer outro animal, servisse para designar os gran-
des levantamentos da paixão e da honra.
O musculo, em verdade, não passa de ser um órgão oco
e contractil ; mas o pundonor e os doces sentimentos é que
ainda não estão esburacados de todo.
Entendem alguns caturras que abrir o coração a um raio
d'amor, — verdadeira aurora da felicidade e do extasis, —
e receber em vez d'esse clarão vernal, um enxurro de pe-
çonha e de lodo, não é cousa para estimular sorrisos ; nem
se lavam taes manchas com agua de flor de laranja, como
se podem lavar as faces de um beliz.
D'aqui resulta que em organisações de uma sensibilidade
melindrosa o estremecimento é mais vivo ; e não admira
que caiam mortas algumas flores quando a tempestade do
desespero e da angustia açouta as arvores e os homens.
Foi isto, em meu entender, que suscitou a composição de
Camillo Castello Branco — O Condemnado^ — drama em
que fallo não para bulir sacrilegamente em nenhum tumu-
lo, nem para remexer estupidamente em nenhuma chaga,
porém que devo memorar com acatamento, não só como
trabalho de arte, mas também como resposta audaciosa á
medonha interrogação que a fatalidade pôde levantar so-
bre um leito.
Correspondência epistolar iji
Não quero prender-me no laço de applicações mais ou
menos directas; aquillo para mim é uma these, uma propo-
sição, um enunciado, em fim, que cada qual pôde defender
ou contradictar segundo a noção que tenha do justo ou do
injusto.
Ha um homem que entrega o nome, a honra, o amor, o
futuro, a tranquilidade, a bemaventurança nas mãos de
quem elle julga que será sacrário e baluarte, nas mãos que
elle beija, convencido que ellas terão pureza sempre para
não manchar o thesouro, vigor constante para o manter e
sustentar bem alto. O my fair warriorl é a exclamação
pitoresca com que estes crédulos do bem depõe o seu mun-
do no regaço inaccessivel das esposas.
Subitamente, os sonhos de roaa dissipam-se, os nevoeiros
sagrados rarefazem-se ; ha o acordar aos empuxões de um
phantasma. Relanceiam-se os olhos em torno, e vê-se par-
tido, mutilado, apodrecido, desfeito, todo esse ninho onde
cresciam os filhos, e que a plena confiança enchia de res-
peito e de amor.
O aturdimento chega. Cerram-se os olhos, mas vê-se tu-
do através das pálpebras. Caminha-se, mas os joelhos ver-
gam. Tenta-so fugir ao montão das ruinas infames, mas tro-
peça-se e cahe-se. N'essa queda pôde encontrar-se um ca-
dáver. Não o defendo; lamento-o. Quem pôde assignalar
raias ás temerosas explosões de uma alma em labaredas }
Quem pôde marcar limites ao raio ? Impossível.
Nem todas as chammas lavram de igual modo.
Ha o fogo a que se aquecem os pés e ha o incêndio que
devora Roma.
Deus me livre de contemplar com a serenidade glacial de
um Nero a enorme scintillação que se diffunde, que ruge,
que desmorona e que devasta; mas oxalá que não se apaguem
do mundo os derradeiros vestígios d'esse melindre austero,
d'essa nobreza impaciente, d'esse calor que affronta, d'essa
religião que constitue a familia, d'esse culto celebrado no
lar, d'essa castidade sublime e pathetica, d'essa devoção
piedosa em que ella, — a mulher — levita immaculado, le-
1^2 Correspondência epistolar
vanta sobre os filhos a benção materna, sem que a cons-
ciência lhe possa chamar indigna.
O Condefnnado appareceu em beneficio da actriz Gertru-
des, precedido da grande reputação do auctor, e talvez, um
poucochinho mais, da gravidade do assumpto. Fraquezas
humanas, a que não escapa nem o paiz das barbas de D.
João de Castro !
A principio a indecisão manietou o publico. Depois con-
venceram-se todos que aquelle tribunal não era do crime,
que se não julgavam alli os factos pelo Código penal^ e ap-
plaudiram a eloquência, o vigor, o brilho, a incisão de mais
de uma pagina, onde o ouro do estylo reflecte dolorosa-
mente as nuvens de uma inspiração melancólica.
E. A. Vidal.
{Diário Popular de 22 de janeiro de 1871).
NOTA 3.*
CARTAS LISBONENSES
Lisboa^ II de maio de i8yo
Não me recordo em toda a minha carreira de haver tido
que escrever um folhetim em circumstancias tão penosas e
debaixo de impressões tão profundamente tristes, como ho-
je. Esse desgraçudo moço, esmagado a esta hora pela dor
do seu infortúnio e pela fatalidade da sorte, preso, abando-
nado, inconsolável, perdido, era meu amigo desde os pri-
meiros annos da nossa mocidade.
Temperamento ardente, caracter inquieto e febril, denun-
ciara muitas vezes, logo ao entrar da vida, a violência das
suas paixões e o enthusiasmo exaltado d'ellas. Magoas de
coração, ambições quebradas, feridas do orgulho, esperan-
ças illudidas, fortuna exhausta, crenças mortas, íiguravam-
se-lhe ser doenças da alma a que não era dado resistir, e
não podia tolerar os miseráveis que se sujeitavam a ir viven-
do cada um com o seu mal !
Em todo o tempo de estudante na Universidade de Coim-
bra, por mais de uma vez a vehemencia do seu génio acor-
dou o echo de acontecimentos ruidosos. Ao mesmo tempo
em tentativas litterarias e em ensaios de polemica, a sua pen-
na audaz atacava de frente um ou outro, e os prejuízos que
isso causava no amor próprio de alguns, ou a estranheza
i']4 CoiTespondencia epistola)'
que produzia n'outros, habituados a não poupaV ninguém,
o vêr que os não poupava a elles, ganharam-lhe inimigos
logo na idade em que de ordinário apenas se encontram
affeições ou indifferenças.
Mas, quando elle apparecia, quando fallava, quando es-
cutava os outros com a benevolência graciosa do talento
verdadeiro, apagava-se logo a lembrança das suas orações
incendiarias, dos seus discursos violentos, e da attitude au
daciosa em que as imaginações o haviam sempre desenha-
do, para não vêr n'elle senão um moço intelligente, bem
educado, affectuoso, franco e agradável, gostando de rir e
de vêr rir, estimando tudo que é grande, a honra, o talen-
to, a coragem, a dedicação, ou o martyrio.
E então, quando por essas occasiões vinha a Lisboa, era
uma festa permanente para elle e para os seus amigos.
Queria tudo quanto é doce e formoso, flores, musica, con-
vivência agradável, jantares alegres, passeios ao campo,
passeios no Tejo. . .
A pouco e pouco, mas sem precisar de muito tempo
para isso, aquelle espirito fogoso e crente foi perdendo
amargamente as illusões. Sonhara tudo risonho e encanta-
dor, e a vida principiou a deixar-lhe erguer o véo das cou-
sas e molhar os dedos nas lagrimas d'ellas.
Recuou, coitado, recuou um momento, estonteado do
que ia sabendo, mais por pena dos outros do que por susto
de si próprio Dotado de uma sensibilidade extrema, sofTria
pelo espectáculo dos infortúnios alheios, tomava a peito a
causa dos tristes, e tornava suas as dores dos que estimava.
A vida surgiu-lhe então pelo lado negro e pungente dos
destinos, e n'um livro que escreveu em 6i — Camillo Cos-
tello Branco^ noticia da sua vida e obras, encontram-se ás
vezes como que prcsentimentos, imagens lúgubres de quem
receia desgraça, o avistar da nuvem ao longe com a idéa
vaga de que c para nós que ella vem pesada e negra. . .
Phrases que nem o assumpto nem a occasião pareciam pe-
dir, e que envolvem a melancolia de um persagio . . .
N'esse livro, que estive folheando esta noite, diz elle:
Correspondência epistolar ijS
«Ser poeta é sentir; sentir o infinito das paixões volca-
nicas sem lhe esconder o fogo ardente. Ser poeta é adivi-
nhar aquelle verso do girondino :
L art ne fait que des vers, le cceur seul est poete.
*>
«Ser poeta é amar de um amor impossivel para as ima-
ginações inspiradas que não adivinharam morte prematura
nas lagrimas da mulher que foi anjo. Ser poeta é prelibar
na historia dos tristes da humanidade o condão desgraça-
do de conceber o amor immenso, para depois colher espi-
nhos na semente regada de prantos á luz de horóscopo
maligno. E' medir n'um relance de vista a immensidade
do infinito, e cahir logo, com» águia fulminada ao fitar o
sol nos topes da serra, nos boqueirões de lodo do mundo
positivo.»
Não o deixava, de momento a momento, em todo esse
livro curiosíssimo, a preoccupação de desgraças, e se eram
inevitáveis ou não, e se tinha cada qual de cumprir o seu
fado, e se não era bello ir até á extremidade em todos os
sentimentos, e se não é aviltante e inútil o querer outrem
consolar-nos na dor:
«Não sei de nada mais repulsante que esta medicina de
commiseração insultuosa, com que almas de zinco, inca-
pazes de se elevarem nunca ao fastígio de um martyrio
nobre, mandam calar a dôr no espirito de quem soífre ao
pé d'elles.
«Este modo de consolar é tolo e mau ; tolo porque vem
de creatura que não sentiu, nem sentirá jamais o coração
pela agonia, mau, porque exacerba a ferida vertendo-lhe
fel no sangue que ella escorre. A insinuada coragem pôde
mesmo ser uma affronta quando a consciência do que sof-
fre vê entre si e a terra firme os oito palmos de um sepul-
chro aberto que é impossivel vencer. Morre duas vezes o
naufrago que expira com os olhos na praia.»
A politica, por uns tempos, encheu-o de vida. Era um
orador imaginoso, que sem lisongear ninguém, sem lison-
1^6 Correspondência epistolar
gear sequer o mais fácil dos crédulos — o povo, encantava
pela elaboração brilhante das idéas e pela seducçào da sua
palavra eloquente.
Todavia, não sei dizer-lhes como, não sei dizer- lhes
porque, elle próprio o não sabe talvez, perdeu tudo e prin-
cipiou a desmoronar o castello que erguera. Caracter fu-
gaz, e sempre um pouco louco, parecia ter gosto ás vezes
em vêr desabar o edifício da sua felicidade e da sua glo-
ria. Não era resultado do acaso nem carência de habilida-
de, era falta de paciência, phrenesi nervoso, estonteamen-
to febril. Homem que tiver animo de tomar uma attitude
e conservar- se assim até ao cahir do pano, representar um
papel e leval-o ao fim, ha de sempre encontrar idolatras na
turba dos superficiaes e dostnyopes; mas elle ao contrario,
sacrificava tudo á individualidade, não por vêr n'isso um
principio d'acção, uma lei não só physica mas moral, senão
pela impaciência das aspirações e pelo ardor juvenil de se
estremar dos grupos.
Foi ao Brazil no propósito de vender uma edição gran-
de, qae publicara, dos seus discursos; chegou lá, sósinho
com os seus livros : fizeram-lhe festas, deram-lhe bailes, e
elle offereceu o producto dos livros aos asylos.
Casou. Foi viajar com a noiva, ficaram uns tempos na
America ingleza, e ha dous annos vieram para Lisboa. Não
me demorarei a fallar-lhes d'essa infeliz senhora, cuja mor-
te encheu toda a gente de terror quando hontem de tarde
se espalhou a noticia, logo que Vieira de Castro foi entre-
gar-se á justiça.
Febrilmente louco em muitos dos actos da sua vida po-
litica e litteraria, foi-o ainda infelizmente n'es&e lance da
vida privada. Os jornaes de hoje contam todos os porme-
nores d'esta desgraça. Só não contam, e quem poderá con-
tal-as.? — as horríveis agonias d'aquelle dia de segunda fei-
ra em que elle se conservou junto da alcova onde estava a
morta, — captivo n'aquella casa luxuosa e elegante, em que
havia sido feliz ; vendo passar as horas em sobresaltos,
abandonado de todas as esperanças ; sem utn raio da fé
Correspondência epistolar ijj
que se conserva até á ultima no coração dos desesperados;
olhando para os objectos outr'ora queridos que o cerca-
vam, o piano em que ella tocava, a carteira onde o chama-
vam de manhã as idéas da véspera, o relógio que regulara
os momentos da sua ventura, e não passava agora de uma
machina a bater no vago, podendo parar, adiantar-se ou
atrazar-se, sem que a elle lhe importasse o tempo, por já
não ter tempo seu ; e, ao lado da morte, assistindo á sua
própria vida como ao espectáculo da maior catastrophe!...
JuLio César Machado.
VOL. W *^
NOTA 4
Transcrevo um folhetim, que eu fiz publicar, com
a precedência de algumas linhas. Transluz n*esse
escripto o desaproveitado engenho de Pedro dos
Reis, irmão de uma illustre titular, que eu me abs-
tenho de nomear receoso de lhe embaçar o esplen-
dor da coroa.
A GERMANO VIEIRA DE MEIRELLES
Meu amigo.
O diário que v. exc.^ tão enérgica e lucidamente dirige
tem sido entre nós todos o mais condoído da desventura
do meu amigo José Cardoso Vieira de Castro. Tem v. exc*
levado ao coração d'aquelle infeliz alentos e consolações.
Por cada palavra compassiva que v. exc* tem escripto em
favor de Vieira de Castro lhe vai a minha alma, também
agradecida, pedir que enthesoure no seu espirito os júbi-
los de uma acção nobilíssima. Quando o condemnado vol-
tar da Africa, se Deus lhe não fechar alli o prazo do seu
supplicio, V. exc* e elle saldarão as suas contas com la-
grimas.
Hoje recebi um escripto que offereço a v. exc* O signa-
tário d'elle é um moço que tem de contar algumas prima-
veras no cárcere, onde a estrella sinistra da sua vida lhe
dá luz immensa para vêr o passado, e lhe negreja o futuro
Correspondência epistolar
n9
para que a esperança da felicidade o não possa tirar ás
presas da existência funesta que vive. Ha quinze annos o
conheci no Porto, criança feliz e amada de seus pães. De-
pois o vi estrear-se esperançosamente na carreira das le-
tras. Hoje lhe enflora e enfrutece o talento, apesar d'aquel-
les frios da desgraça que gelam o cérebro, e encostam ao
peito a pedra glacial da campa, cujo peso está sentindo em
Tida. Mas não esfriou o coração do moço. A portentosa
hombridade de Vieira de Castro foi-lhe exemplo, coragem
■e incentivo. Ninguém tem direito a chamar-se desgraçado
ao pé do meu amigo, de cuja alma, despedaçada por tanto
golpe, resta invulnerável a honra. No insinuante, singelo, e
por vezes commovente escripto, que lhe envio, ha uma tão
lagrimosa quanto notável pagina da vida de José Cardoso
Vieira de Castro. Queira v. exc.^ augmentar o numero das
jninhas obrigações, publicando-a.
De V. exc.^
amigo e collega
Camillo Castello Branco.
VIEIRA DE CASTRO
(a propósito da sua biographia)
Fez-se finalmente a luz !
Vieira de Castro, condemnado no tribunal de primeira
instancia a dez annos de degredo para as costas d'Africa,
pôde amanhã seguir a sua triste viagem convicto do res
peito, do pezar, da saudade, da sympathia de todos pelo seu
caracter e pelo seu infortuuio.
Desde esse dia tremendo, em que elle sacrificou no altar
da honra o seu amor, as suas esperanças de gloria, o seu
passado brilhante e o seu futuro mais brilhante ainda ; des-
de esse dia em que este infeliz sem nome abriu pelas pró-
prias mãos a porta do cárcere, onde o criminoso cheio de
virtudes se sepultava com a sua dor e a sua tristeza éter-
i8o Correspondência epistolar
nas ; desde esse dia até outro não menos nefasto, nem um
só decorreu, que, ao escoar-se vagarosamente pelas grades
do cárcere, lhe não gotejasse no coração o travo de uma
nova e grande dôr.
Repetiram-se sem intercedencia os golpes de desvaira-
dos e impiedosos. A ignorância e a malvadez mancommu-
navam-se officiosamente para cuspirem n'aquelle sacratis-
simo infortúnio o fel das suas perfídias e das suas atroci-
dades. Á calumnia gratuita succedia a calumnia assalaria-
da. A impudência vil, o cynismo abjecto e a torpeza asque-
rosa retouçavam-se como feras saciadas, em tripudiar in-
fernal sobre a desgraça de um grande nome.
Primeiro a apostrophe virulenta. Depois, quando amea-
çava aclarar a razão e transparecer a realidade eloquente
dos factos, deturpavam-se estes. Se isto não bastava, o gé-
nio fecundo do mal para logo inventava novos horrores.
Os amigos, os conhecidos ou aíTeiçoados, que não viviam
na intimidade d'elle, hesitavam suspensos entre uma inter-
rogação e talvez uma duvida. Assim o confessaram al-
guns.
Os indifferentes davam aos aleives a coafirmaçào terrí-
vel do silencio, e a voz dos poucos dedicados mal podia
contra a onda dos impropérios, que alagava por mil duetos
mysteriosos.
A calumnia ganhava forças e proporções gigantescas.
Liberta na impunidade, que lhe facultava o desprezo, teve
tempo de sobra para crescer e elevar o echo abominável da
sua voz. Respirava em todos os antros ; convinham-lhe to-
das as armas ; disfarçava-se de mil modos; fallava por mil
boccas. Decorreu assim muito tempo. Mas eis chega um
dia em que todos esses rumores vão soterrrar-se a não sei
que mysteriosos abysmos, a fim talvez de que seus echos
não possam suífofcar a desejada realisação de tão pérfidos
intentos. Annuncia-se o julgamento de Vieira de Castro.
A nova corre em toda a psrte. A sala da audiência, o
átrio e as escadas do tribunal não bastam a conter a onda
impetuosa das multidões, curiosas de vêr na desgraça o
Correspondência epistolar i8j
tribuno que ainda hontem as inflamava ao fogo da sua elo-
quência arrebatada.
Tomam lugar os juizes, e vae entrar o accusado : á porta
assoma um vulto, mas em vez do moço audaz que se es-
pera é um velho que apparece. Um velho amortalhado no
Seu luto eterno, branqueada a barba e oscabellos no encerro
de muitos dias e noites, e o olhar envidraçado ao perpas-
sar continuo da desgraça. Caminha sem arrogância, mas
com firmeza, com coragem, com serenidade, illuminada a
fronte por essa formosa luz cujos raios se prendem de certo
ao reo, e que é a aureola de todos os martyres da fé e da
honra. . .
Foi longo, foi muito doloroso aquelle supplicio. Eu não
sei de espectáculo que mais tenha de magestoso, de lace-
rante e de triste. No cemitério, á beira de um tumulo, po-
dem chorar-se pungentes lagrimas pelo amigo que passou,
mas aquellas são mais acerbas e com mais angustias por-
que é um amigo que se vê matar.
Quizera correr um véo sobre o quadro que me aviva an-
gustias passadas.
Também eu lá estive,
D'esse banco, que para elle se converteu em pedestal de
virtudes, sahi eu infamado.
Lá fugiram, e se me desfizeram como a um sopro de
morte todas as alegrias e todas as illusões da mocidade. O
pouco que me restava de repetidos naufrágios lá se afun-
dou. Foi lá que me trocaram pela luz benéfica da liberda-
de a escuridão cerrada de setecentos dias e noites n'um
cárcere infecto e frio.
N*este cárcere entrou Vieira de Castro um dia.
Eu conhecia-o apenas pela fama dos triumphos e não
menos pela das virtudes, que são morgado inalienável na
familia d'elle.
Da ultima vez que o vira nenhum de nós presentia ain-
da a imminencia do abysmo, que mais ao diante se nos es-
tava cavando. Era no caminho de ferro de Setúbal ao Bar-
reiro, e d' aqui para Lisboa. Vieira de Castro vinha acom-
j82 Correspondência epistolar
panhado dos amigos, que mais tarde lhe deviam ser con-
fidentes no drama tenebroso. Pareceu-me triste. Estranhos
destinos ! . . . Elle corria descuidoso a abrir o tumulo de
toda a sua ventura para se sepultar com ella ; eu, sem que
ainda o soubesse, vinha assistir ao trespasse de um morto
querido, e tinha, depois de lhe cerrar os olhos, de me en-
carcerar também.
Assim deviam approximar-se e conhecer-se dentro das
paredes de um careere os dous viajeiros de então !
São já volvidos nove mezes, sete dos quaes tenho vivido
na sua intimidade.
Do que n'essa alma ha de bom, de grande e genero-
so nada me é occulto. Ao acercar-me d'elle pela primeira
vez attrahia-me apenas o seu infortúnio, mas para logo me
senti enlevado no seu grande espirito e coração nobilíssimo.
N'essas longas noites em que os primeiros clarões da al-
vorada nos vinham surprehender, passeando ao longo de
uma enfermaria lúgubre e triste, muitas vezes intentei fazer-
Ihe ouvir uma palavra de consolação ; não pude. Deus sabe
que não pude. Os grandes infelizes podem comprehender-
se, mas não se consolam. Amparam-se apenas, e cho-
ram.
Depois, no seu coração, tão golpeado pelo infortúnio,
parece ter posto a Providencia porção de triaga igual á
do veneno. «Agradeço a Deus, dizia elle, a desgraça que
me deixou bom. No meu peito não ha lugar para ódios. Eu
sei que a verdade se fará. . . creio na outra vida, e vejo-a
a ella^ purificada no seio de Deus, a sorrir- me da sua bem-
aventurança eterna. . . * Vieira de Castro esquece as pró-
prias dores ao attentar nas alheias. Na sua bolsa, hoje min-
goada, ha sempre a moeda da caridade. Entristece-se, quan-
do ella não basta a enxugar as lagrimas dos infelizes. Um
facto, cuja veracidade todos podem attestar, dá a medida
exacta de tão nobre alma.
Era já nas proximidades d'essa para elle memoranda
data de 28 de novembro, e aconteceu enfermar perigosa-
mente de um tvpho, moléstia vulgar e quasi sempre fatal aqui
Correspondência epistolar j83
um preso condemnado a sêl-o sempre, e que devia ao seu
porte, pautado pela mais estricta submissão e cordura, um
diminuto salário como guarda-roupa das enfermarias. Ao
saber de tal. Vieira de Castro corre junto ao catre do
pobre; passa junto d'elle a primeira noite; reveza-se nas
outras com os que o acompanhavam ; tira ao seu leito uma
das duas travesseiras que lá tinha; faz com ella por suas
mãos cabeceira ao enfermo; soccorre-o com o seu óbulo e
com o desvelado carinho de um amigo, abandonando-o só
quando elle, já livre de perigo e convalescente, lhe quer
testemunhar com lagrimas a sua gratidão !
Assim fazia elle em quanto lá fora o apodavam de impio,
atheu, e não sei que mais.
Ha no decurso da minha prisão uma noite, cuja memoria
jamais se riscará do meu espirito.
Essa noite é a de 30 de novembro do anno que passou.
No animo de todos creio também estarem ainda bem pre-
sentes, com a sua cor sinistra, as tocantes scenas d'esse
triste drama.
A sentença, que condemnava a dez annos de degredo
Vieira de Castro, fora firmada e lida pelo juiz entre soluços
e lagrimas, e essas lagrimas significavam um pezar e uma
homenagem.
O accusado estava já restituído ao coração de todos,
que tinham escutado a defeza única do athleta contra uma
accusaçào de cuja lógica se poderia dizer sem offensa, mas
com verdade, o mesmo que da dialéctica infeliz de Aristo-
les disse algures o visconde de Chateaubriand.
A absolvição, entregue ao conselho e ao veredictum da
multidão, que interrompera o estreno defensor de Vieira
de Castro com as suas repetidas e calorosas acclamações,
seria infallivelmente completa. D'esse defensor, cujo talen-
to nos é sobejamente conhecido e que tão arrebatado é nos
altos voos da sua eloquência como nos do coração, teem
feito o elogio quantos lhe pronunciam o nome.
Bem feliz foi no seu um moço, que ahi começa a ser jus-
184 Correspondência epistolar
tamente applaudido, quando o compara ao prototypo de
toda a heroicidade possivel na terra: «a mài que viesse a
cobrir e defender seu filho.*
Nem tanto era preciso para que essas accusações fugis-
sem a esconder-se envergonhadas da sua audácia. Afora
isto, tudo era grande alli.
Mas o homem que as turbas já agora sabiam digno, ge-
neroso e bom, — esse homem levantava-se, ao cabo de três
dias de martyrio, para agradecer e aceitar com voz clara e
firme uma sentença de dez annos de degredo ! . . .
O vulto sympathico, que desde a mocidade honrara a
pátria com os seus feitos, dentro e fora d'ella; o coração
generoso que se desentranhava no pào do corpo e do espi-
rito para quantos infelizes se lhe abeiravam ; o esposo que
só um momento deixara de ser bom para ser respeitado, e
para que respeitada fosse uma memoria; o que mandara á
sua palavra que emmudecesse, e quebrara a sua penna, e
cavara com a fúria do mais infernal desespero á beira da
sua felicidade, sem que esse ruir tremendo lhe levasse a du-
vida ou o susto sequer ao coração ; o qae despedaçara tudo,
tudo dera, ou tudo perdera, para conservar a honra, esse
recebia, em premio de tudo, dez annos de degredo ! . . .
A longanimidade de tão nobre alma foi justamente admi-
rada no tribunal ; mas não o será menos o que vou referir,
pensando que alguém se demoraria a meditar nas negruras
de seu espirito ao voltar .sem esperanças, com o terrivel
nunca mais diante de si, com as maiores agonias que podem
caber em peito de homem, a apunhalal-o e a confrangel-o
a um tempo em todas as fibras da sua alma alanceada.
A's seis horas da tarde tinham vindo dizer-me o que lo-
gicamente podia esperar-se em resultado da audiência, e
que era o mesmo que o snr. António Rodrigues Sampaio,
enunciava no seu notável artigo do jornal do dia seguinte.
Não sei porque, enganou-me o coração d'aquella vez com
falsas esperanças.
Eu sentia-me alquebrado de corpo e de espirito. As ulti-
Correspondência epistolar i85
mas noites tinham-se passado como tantas outras sempre
de pé. Deitei-me sobre um catre da enfermaria. Era meia
noite.
O jantar d'elle, que chegara ás cinco horas, e a que eu
esperava acompanhal-o, senão com alegria, ao menos com
quietação, arrefecera de todo sobre as cinzas de um fogo
já de ha muito extincto. Èu sentia-me possuido de torpor
e ia talvez adormecer, quando um rumor de passos preci-
pitados junto a tropel de cavallos me despertou. Era a es-
colta que retirava de o acompanhar, e ao mesmo tempo
entrava elle na enfermaria Levantei-me n'um Ímpeto, e
correndo a segural-o com phrenesi :
— Então } ! então } lhe disse.
— Dez annos de degredo, respondeu elle a sorrir.
— Isso é impossivel, diga-me que é impossível !. ..
— E' a verdade. Dez annos de degredo para as costas
d'Africa.
Houve um momento de silencio. Não sei dizer o que se
passava em mim. Elle acudiu logo :
— Vamos jantar, meu amigo. Tenho fome. Ha muitas
horas que não como.
Sentamo-nos á mesa, e serviu-me, e fallou-me todo o
tempo que durou o jantar com uma serenidade que me
aterrava. No fim vi-o esconder a cabeça entre as mãos e
exclamar n'um rir soluçado e nervoso : «Tem graça !... tem
«graça!... o que eu era no dia 7 de maio quando julgava
«poder passar o dia de hoje contente e feliz na minha casi-
«nha da Foz, e agora. . .»
Deteve-se por momentos, e levantando -se a accender o
charuto, que mordia convulsivamente como para afogar a
torrente de lagrimas prestes a romper, — acrescentou:
«Mas bem... foi melhor assim. Sabem todos o que eu fui,
«e o que sou. Sabem que fui bom, e bom fiquei e honra-
<do. . . Aquelle Jayme l . . .>
Interrompeu-se de novo, e tomando-me pelo braço, con-
vidou-me como de costume a dar algumas voltas na enfer-
maria. Andamos assim bastante tempo sem que trocasse-
i86 Correspondência epislolar
mos uma palavra. Eu recuava aterrado diante de tamanha
dôr e da inutilidade da minha palavra perante ella. Lem-
brava-me que a razão lhe podesse fugir ; mas bem depressa
os meus receios se dissiparam, e eu me convenci de quão
rija era a tempera d'aquelle espirito tão digno de melhores
luctas.
Vieira de Castro pára de repente, e defrontando com-
migo, segurando-me pelos braços, e com os olhos cravados
nos meus:
«Meu amigo, disse, estamos sós, ninguém nos ouve, e a
comedia seria ridícula e impossível comsigo. Juro-lhe pela
minha vida e pela minha honra que eu seria mil vezes mais
desgraçado ao vêr-me agora em liberdade sem o peso d 'esta
expiação, que eu devo talvez a Deus, e a ella ; a ella, sim,
em cuja memoria eu já agora posso demorar o meu espi-
rito sem recear a vertigem da loucura ! »
Parece-me ainda ouvir-lhe essas sublimes palavras, que
nunca jamais, como tantas que então lhe ouvi, esquecerei.
Depois do salutar desabafo, a sua ph;ysionomia retomou
pouco e pouco a habitual expressão de serena tristeza.
«Hoje, disse, por ultimo, sou eu a propor que nos dei-
temos. Já posso dormir.»
Deitou-se no seu leito junto a um outro de operações, e
bem depressa adormeceu com a mesma placidez e o mes-
mo suave remanso da criança, que cerrou o olhar enleva-
da n'um sorriso da mài.
Ao vêl-o assim, ninguém diria ser elle o infeliz sobre
cuja cabeça ainda ha pouco se descarregara um golpe ter-
rível. Lembro-me que chorei então, e senti vontade de pe-
dir a Deus para nunca mais o acordar d'aquelle somno.
Resta-me fazer uma declaração e concluir.
Quando tomei da penna para relatar o que ahi fica, ti-
nha acabado de volver a ultima pagina de um livro que
a imprensa e o publico acolheram com alvoroço. — Esse
livro é devido á penna do snr. António Manoel Lopes
Vieira de Castro — um esboço traçado com mão rápida,
Correspondência epistolar iSj
mas firme sobre o que respeita ao nome de seu desditoso
irmão antes e depois do seu julgamento.
O snr. António Vieira de Castro era apenas conhecido
nas letras por uma feliz traducção do livro de Paulo Janet :
A família^ trabalho que lhe merecera as mais benévolas
cxpresiões da parte do snr. Luiz Augusto RebcUo da Silva,
no seu parecer como membro da junta consultiva de ins-
trucção publica, e ainda uma carta do snr. Ramalho Orti-
gão, afora as edições successivas.
O snr. Vieira de Castro provou n'esse trabalho, e muito
mais n'este que hoje nos apresenta, os sobejos cabedaes
que possue para conquistar lugar distincto nas letras.
O seu livro, d'onde a verdade resalta a cada periodo^
escripto em linguagem a um tempo castigada e fácil ; o
senso de boa lógica e razão lucidissima com que faz deri-
var até de todo esclarecer as suas proposições ; a eloquên-
cia fácil mas apaixonada que persuade e commove ; a in-
tensào, ás vezes amarga, mas sempre digna ; a explosão do
sentimento, em fim, tudo revelia, a par de um vigoroso
espirito, um coração dedicado. Este livro é o ultimo golpe
descarregado sobre as accusações contra um moço, que tão
mal julgado e tão mal comprehendido foi.
Hoje fez-se a luz. Todos os dias apparecem ou se an-
nunciam na imprensa novos brados em pró da justiça e da
verdade, e como que para que nada faltasse aos enérgicos
protestos, é ^inda nos theatros, perante o publico das duas
cidades, que elíes se mostram mais ruidosos ao applaudir
com transporte a composição dramática, a mais feliz, a
mais completa e a ihais inspirada que nós devemos á penna
do nosso mais fecundo escriptor.
A tão grande clamor julguei dever quebrar também o
silencio, que a mim próprio impuzera. Este escripto, que
não veria a luz da publicidade, adivinhado por quem o ins-
pirou, esconde apenas uma intenção e uma lagrima . .
Cadêa de Lisboa, i8 de dezembro de 1870.
Pedro dos Reis.
{Primeiro de Janeiro).
NOTA 5.
Albino d'01iveira Guimarães, commerciante no
Rio de Janeiro, tem no livro, intitulado José Car-
doso Vieira de Castro uma pagina reveladora de
benigno coração e respeito á honrosa desventura
do seu amigo. António Vieira de Castro refere
assim o lance, que arrancou maviosas lagrimas a
seu irmão :
«Em 14 de julho de 1870, recebi uma carta do Rio de
Janeiro, do snr. Albino d'01iveira Guimarães, com data de
22 de junho, que tem o seguinte período : «Espero mere-
cer-lhe a bondade de fazer com que seu irmão, precisando
de dinheiro, m'o communique por sua intervenção, para
promptamente lh'o enviar^ pondo desde já á sua disposição
um pequeno saldo de 35o|k)00 rs. que tenho em Lisboa,
em poder do snr Joaquim Pedro de Macedo, travessa da
Assumpção n.** 42 — 2.° andar, a quem escrevo n este sen-
tido. Isto, que faço agora, sei que elle o praticaria comigo,
se o destino me arrojasse onde o impelliu a elle. A sua
amizade me relevará do que possa haver de inconveniente
n'este modo de offerecer. »
< O snr. Vieira de Castro acceitou com toda a effusào de
reconhecimento esta grande demonstração d'uma nobre e
grande alma ; mas pediu ao snr. Pedro de Macedo que não
Correspondência epistolar 18 g
instasse com elle para lhe não tirar o seu único amparo, a
sua pobreza. Não aceitou. »
Esse honrado nome é também o primeiro nas
assignaturas do documento que transcrevo, o mais
honrador que ainda tive na minha longa vida. Vai
precedido das amorosas expressões com que me no-
bilitou o snr. Germano Vieira de Meirclles :
Penna de ouro. — Um punhado de amigos honrados e
lealissimos de Vieira de Castro acaba de brindar com uma
penna de ouro cravejada de brilhantes a Camillo Castello
Branco.
E' uma dupla homenagem ao talento e ao formoso cora-
ção do já agora heróico e legendário amigo dos grandes
infelizes
Não nos admira, aceitamol-a até como um facto natura-
líssimo, depois do que succedeu com o snr. Jayme Moniz,
defensor do nobre degredado, sepulto na chã encalmada
d'um cemitério d'Africa.
A offerta veio acompanhada d'uma nobilíssima carta,
cujos sentimentos delicados e enthusiastas pelo cavalheiro
generoso e. destemido, que affrontou pela honra e desgraça
do amigo as prevenções e más vontades de uma opinião
apaixonada e fremente de cólera, valem tanto e mais que
as fulgurações e relumbramentos do ouro e das pedras
preciosas.
Estes exemplos devem sempre ser festejados e bem vin-
dos, como outros tantos fascículos ou golfadas de luz na
pardacenta bruma de egoísmo que ahi nos soífoca.
As cousas preciosas não se fizeram só para realçar ou
dissimular a fealdade moral, para enfeitar e illuminar a va-
za e o lodo, mas sobretudo para testemunho e gratidão das
cousas divinas, ou dos sentimentos que rescendem as fra-
grâncias puras e finas d'essa etherea essência.
D'antes, quando a religião era expontânea, immaculada
e effusiva, os cheiros suavíssimos, os óleos incorruptíveis,
igo Correspondência epistolar
as substancias preciosas e luminosas banhavam, perfuma-
vam e rebrilhavam nos altares. Mais tarde os" sentimentos
religiosos mudaram de rumo, sacrificando a MammoneBe-
lial, e os fetiches do terror c dos interesses açambarcaram
as offrendas da pureza e do desinteresse.
Não é justo nem esthetico isso, parece-nos, e por tanto
bemvindas as rarissimas vozes que protestam contra o en-
xurro.
Penna*de ouro para os corações d'ouro, eis a ordem ; e,
se a não entendem assim, elucidem-se na doutrina d'essa
carta que pôde recaldear muita gente boa. Diz assim :
Senhor. — Os abaixo assignados, amigos e admiradores
dos raros predicados e talentos d'aquelle que foi José Car-
doso Vieira de Castro, tiveram a lembrança de honrar em
V. duas cousas: a memoria d'um grande infeliz, e a amiza-
de que V. lhe votou, nào já até á morte, mas ainda depois
d'ella.
Rara é hoje, senhor, essa virtude da fidelidade aos ami-
gos, na prospera como na adversa fortuna. Louvaram •n'a
os homens bons ; mas nos tempos que correm não basta lou-
val-a, é mister apontal-a aos outros homens como incintivo
e modelo. «
Foi V. desde longos annos amigo, companheiro e admi-
rador de Vieira de Castro, como Vieira de Castro o era de
V. Nào se irmanaram só nas peculiaridades do talento, mas
também na hombridade do caracter, que em ambos era ai
tivo, independente e superior. Esse parentesco moral e in-
tellectual de dous nobilíssimos vultos da moderna geração
portugueza, não se rompeu com a morte. Herdeiro da me-
moria do amigo, tomou v. a si a tarefa de a conservar pura
e respeitada, — doce e piedosa missão que ha de achar echo
na região da immortalidade cm que elle agora descança.
Sabe V., como sabe Portugal inteiro, que viçosa flor de
esperanças crestou o sol de Africa. Em sua curta passagem
no parlamento c na litteratura, deixou Vieira de Castro bri-
lhantes vestígios que muito miis amarguram a saudade do>
Correspondência epistolar igi
amigos. Ainda nos resoa aos ouvidos a magica e arrebata-
dora palavra do orador, que a Providencia divina suscitou
a Portugal para recolher a gloriosa herança de íosé Este-
vão.
Os poucos escriptos que deixou, mostram como elle sa-
bia transportar para o papel as graças do estylo, e os reptos
da inspiração que o distinguia na tribuna.
Era isto o que todos podiam saber em qualquer parte do
mundo em que a lingua portugueza tem um echo ; aquelles,
porém, que o trataram de perto, e muitos foram, esses lo-
graram a ventura de lhe apreciar o caracter e o coração, e
d' esses nenhum podia avantajar- se a v.
Já laureado pela Europa toda como philosopho e poeta,
Voltaire consagrou três annos da sua velhice á rehabilita-
^ão da memoria de Calas, e é esse um dos maiores titulos
da sua gloria. V. que possue a mysteriosa sympathia dos
grandes espíritos, naturalmente se inclina á defeza d'aquel-
le que a morte colheu no exilio, longe dos seus, mais longe
ainda das suas esperanças, infinitamente mais longe da sua
felicidade.
Oxalá que a justiça do tempo, triumphando da indiffe-
rença e do egoismo, recommende á historia esse grande acto
de V. equivalente ás obras admiráveis com que ha deliciado
a quantos lêem, amam e prezam a lingua portugueza.
Guarde, pois, v., como singella lembrança de alguns sin-
ceros admiradores seus e de Vieira de Castro, a penna que
com esta lhe remettem os abaixo assignados. E' uma ex-
pressão de agradecimento e veneração.
Beijam as mãos de v., os que se prezam ser, com a mais
profunda consideração, e elevada estima
De V.
admiradores e amigos por sympathia
Rio de Janeiro 21 de fevereiro de 1873.
Snr. Camillo Castello Branco.
Albino de Oliveira Guimarães
Francisco Gomes Vieira de Castro
^92 Correspondência epistolar
Joào Monteiro da Luz (advogado)
Joaquim Monteiro da L^iz
António Mendes de Oliveira Castro
José Mendes de Oliveira Castro
Manuel Moreira da Fonseca
M. J. Calheiros de Miranda
José Maria Monteiro de Campos
Augusto Barbosa
José Ribeiro Vieira de Castro
Paulino da Siva Mello
Joaquim J. Luiz de Abreu
José Maria Fernandes Vieira
Autonio Gomes Vieira de Castro.
NOTA 6/
O folhetim encarecido pelo amor do meu amigo
é o seguinte :
A COROA DE OURO
Em meio de tantas e tão diversas magoas, o espirito de
José Cardoso Vieira de Castro deve ter sentido alguma
consolação — se por ventura cabe luz de contentamento na
cerração da sua vida — ao saber que os seus amigos do Rio
de Janeiro preparam um dom gloriosissimo para Jayme
Moniz, seu defensor. A coroa de ouro vem laurear o honra-
do moço que aceitou a defeza do nobre desgraçado, sobre
quem trovejavam calumnias e vitupérios, já manifestados
por uma imprensa bandeada com a prustituição brilhante,
arrogante, victoriosa; já armando, sob capa de piedade,
aos ódios, á exulceração das paixões, e ao horror de um
desventurado, que afogava nas lagrimas do opprobrio o
mais extremoso coração de quantos souberam amar e per-
der-se, e um dos mais enérgicos talentos da geração nova.
Jayme Moniz, desviado das lides do foro, poderia ter de-
clinado o tão formidável quanto preclaro feito de sahir ao
encontro dos ódios aparcellados, encostando ao seu peito a
face d'aquelle mancebo encanecido em breves dias. Entre o
egrégio coração e o génio esforçado de Jayme ia amparada
a alma, cuja dignidade inquebrantável a peso de angustias
parecia dar e não pedir alento e denodo ao defensor, talvez
abatido na presença da opinião publica obcecada.
Era para temer que Vieira de Castro, no tribunal, in-
flamasse os colmilhos ás cóleras das turbas algum tanto
VOL. II i3
zg4 Correspondência epistolar
amordaçadas. O seu silencio no cárcere dava a esperar ani-
mo enfraquecido pelas vaias injuriosas da imprensa, ou di-
lacerado pelos remordimentos do delicto. Esperavam que o
réo, descondensada a noite que lhe fizera na alma a alluci-
nação, cahisse de rosto no pó por onde os diffamadores lhe
tinham andado a espesinhar o nome, as dores horrendíssi-
mas, e o coração cheio ainda da imagem de uma esposa
que expiara no mesmo altar em que havia sido adorada.
Nào foi assim.
Vieira de Castro entrou no tribunal levando comsigo o
mais relevante da sua condição — a firmeza da honra de que
a desgraça nào poderá desbalizal-o. Eil-o alli. Nào se de-
fende accusando. Accusa-se e chora ; mas não chora como
quem supplíca. Semelhante homem, se podesse supplicar,
pediria de mãos erguidas que o convencessem de assassino
d*uma esposa innocente. Ao proferir o nome de seus pães,
chora. Introverte no fundo da sua alma o grito da sua jus-
tiça, e chora. E' o chorar saudades da sua infância, quando
balbucia os nomes de pai e mài. Chora o amor, a fé, a feli-
cidade que lhe aniquilaram, quando no coração lhe relam-
peja a imagem da esposa que, mezes antes, elle estremecia.
Não accusa. Vieira de Castro está diante de uma sepul-
tura defeza, e quer que a seu lado se não sente uma sombra
para ser julgada. A mulher que o matou está debaixo dos
olhos de Deus. Elle está alli assistindo ao despedaçarem-lhe
todas as, fibras, estorcendo-se n'aquelle inferno incomportá-
vel. Não quer saber se nos olhos dos jurados reluz a bran-
dura da commiseraçào, ou rutillam áscuas de rancor. Aquel-
la almaagiganta-se á medida da catastrophe.
E, com tudo, o homem que alli está deixa-se esmagar
desde o cérebro até ao coração, desde a intelligencia até
ao amor. Tudo é morto n'elle, salvo a probidade. Essa não
tem que temer: está imperterrita, inflexível, eterna para
lhe redourar a memoria, quando o seu nome nem já fôr
pó. Salvou-a e perpetuou-a elle desde que se entregou á
consciência dos juizes, desde que em seu próprio coração
abafou o direito de se defender.
Correspondência epistolar
'9S
Eis aqui o réo que Jayme Moniz vai levantar nos braços
do seu amor em raptos vehementes do talento acrisolado
pela consciência. Que monta, porém, o colossal talento do
causidico de par com a colossal generosidade do accusado ?
Se é forçoso que se parta uma campa, Vieira de Castro in-
clina o rosto e o seio sobre essa pedra como para preser-
val-a do insulto dos embaidores que fingem deploral-a.
E' então que Jayme Moniz abre o prodigioso coração. A
palavra tremula, fúnebre, ungida de lagrimas, portentosa,
affiue-lhe da consciência, e dilucida o silencio d'esse singu-
lar desgraçado que, investindo-se do direito de punir uma
affronta irremediável, quiz forçar a alçada da justiça hu-
mana a emmudecer. Não o conseguiu. O jury, obrigado a
responder a uma interrogação estólida e cruel, respondeu
em termos pouco menos de irrisórios n'um lance dolorosis-
simo. Que afflictivo não seria para Vieira de Castro o es-
panto de alguns e o sorriso de tantos provocado por uma
perversa delicadeza ! . . .
Vieira de Castro foi condemnado ; mas o respeito á sua
desgraça, á sua justiça, ao transe da sua insondável ago-
nia, incutiu-o, insinuou-o Jayme Moniz nos ânimos preve-
nidos pelo pregão d'uns especieiros das letras, que vendiam
ascolumnas aoalardo do aleivoso libello quando já de an-
temão sabiam que a contrariedade havia de ser offerecida
no dia do julgamento.
Não obstante, o defensor tinha mansamente acurvado a
calumnia; e sem ostentação nem violência de gestos ou
brados, forçara a infame a escabujar-lhe aos pés, e a escon-
der-se sob a banca do accusador alquilado — besta energú-
mena que se debatia em corcovos e galões, causticada pelas
três esporadas da estupidez, da cubica e da maldade.
O ódio implacável e inconverso tinha propalado que
Vieira de Castro se tornara repulsivo aos homens de bem
que, no Rio de Janeiro, o haviam recebido com estrondosas
e notórias manifestações de amizade e acatamento. Para os
desprezíveis que, mezes antes, se dispendiam em encareci-
mentos ao grande orador, era já motivo de assombro que á
igô Con^espondencia epistolar
beira do infeliz se devotassem homens como Rodrigues
Sampaio, como Jayme Moniz e outros somenos em gradua-
ção social, mas opulentissimos d'aquella raríssima moeda
do affecto aos cabidos. Uns devassos que ahi se esta-
dêam provando a inutilidade das galés, e teimam em le-
vantar-se como odres de touro, por mais que os baldões
ossacudame resvalem por atoleiros — uns taes, cujo nome
infame ha de sobreviver ás producções gafadas, e cuja pro-
bidade é tão somente a necessária para não serem enfor-
cados, como dizia Moliére, segredavam aos raros amigos
fieis de Vieira de Castro a conveniência de não se andar
polindo a lousa, em que se havia de escrever o epitaphio
do illustre preso.
Os magarefes da carne pútrida, que lhes sobeja nas al-
covas, não comprehendiam que um homem de tanto vulto
e já grangeador de tantas glorias trocasse futuro, liberdade
e vida pelo direito de ser encarado com respeito ou ainda
com rancor, mas nunca envilecido com o sorriso da mofa.
Eram esses os núncios da ira que lavrava contra Vieira de
Castro entre os portuguezes residentes no império brazi-
leiro ; eram esses os emissários das calumnias impressas
para além-mar, e os plangitivos pregoeiros das angustias
que acerbavam o seio da familia, onde as consciências dos
magistrados portuguezes eram pesadas a tinteiros de ouro^
offerecendo-se pouco mais ou menos o valor de dous ne-
gros robustos pela consciência branca d'um delegado.
Esses mesmos vem hoje divulgando que os portuguezes,.
residentes na capital do império brazileiro, abriram uma
subscripção publica no intento já realisado de galardoar o
defensor de José Cardoso Vieira de Castro com uma coroa
preciosa. Urgia-lhes, porém, a estes forçados noticiadores
d'um facto, que náo pôde ser obscurecido, abastardar, fal-
sificar o intento da dadiva. Mas de que sorte ? que expe-
diente *póde suggerir a malevolencia a uns biltres que dis-
solvem lama no tinteiro ? Escrevem que o presente da co-
roa procede dos amigos e enthiisiastas do doutor Jayme
Moniz.
Correspondência epistolar igj
Se o doutor Jayme Moniz houvesse defendido um réo
odiado pelos portuguezes do Brazil, os seus amigos oíferecer-
Ihe-hiam uma coroa como testemunho do seu enthusiasmo.
Isto é concludente.
Se Vieira de Castro não tem honrados e excellentes ami-
gos no Rio, onde elle com primoroso pundonor aceitou uma
esposa que parecia amal-o, o seu digno defensor grangeou-os
óptimos em virtude de ter defendido um delinquente cuja
causa é odiosa no Brazil. Concludentíssimo.
E' pois certo que a coroa d'ouro não promana dos ami-
gos de Vieira de Castro, agradecidos á vigorosa e lucidissi-
ma defeza do seu advogado. Amigos de Vieira de Castro,
se alguns houvesse, brindariam com uma coroa, provavel-
mente, o insultador abjecto que certa dama brazileira ati-
rou para dentro do tribunal, onde a rhetorica das tabernas
carecia de ser pautada pelo aferidor d'um tagante.
Como quer que fosse, o resplendor que reverbera d'essa
coroa de ouro, menos valioso que as lagrimas — única moe-
da de bom quilate na alma de Jayme Moniz — deve chegar
como luz amortecida dos bens d'este mundo, onde podem
ir ainda contentamentos a dentro do tristíssimo viver de
Vieira de Castro. A gratidão é viventissimo prazer da al-
ma. Vieira de Castro afaga hoje mais a condolência com
que o lastimam, do que d'antes acariciava os louvores com
que o exaltavam. Os seus amigos do Brazil deram-lhe uma
vez uma coroa opulenta cravejada de valiosas pedras. Es-
se primor d'arte e primor de generosas Índoles tem de ser
enviado com o restante do seu património á algibeira de
sua sogra, que regorgita tinteiros d'ouro. Que irnporta? O
Brazil que lhe deu uma coroa, hoje envia outra a Jayme
Moniz em virtude de elle ter posto em evidencia que o ho-
mem, condemnado a dez annos de degredo para Africa, era
um homem de bem, hoje perdido, porque amara muito
sua mulher e a sua honra.
FIM DAS NOTAS AO VOLUME PRIMEIRO
NOTAS
AO
VOLUME SEGUNDO
NOTA 1,
A seguinte analyse do Condemnado é de um dos
mais notáveis ornamentos da moderna litteraturá
portugueza. Vieira de Castro idolatrava estes fo-
lhetins, e reputava-os o mais esmerado escripto,
que appareceu, relativo ao seu infortúnio.
O CONDEMNADO
Um facto de per si nada significa, vale ou pesa senão
pela idéa que representa, pela consciência que o inspira,
pelo intuito de justiça que o determina. Isto é elementar.
O facto de matar denota, consequentemente, tanto como
cutro qualquer, em quanto não for caracterisado pelo seu
agente, as condições em que occorreu e contra quem oc-
correu, o estado ou situação respectiva d'ambos, em fim
por um conjuncto de circumstancias todas convergentes ao
apuramento moral do acto. Assim, não venham assentar
dogmaticamente a proposição absoluta — tu uão matarás
— e em nome e do alto d'essa pyramide proclamar todo o
homicidio como assassinio, punivel, ultrajante do direito e
da moral. O absoluto não é d'este mundo, equem sabe mes-
mo se de mundo algum }
Evocado para a esphera da existência moral, afigura-se-
nos tão absurdo como repugnante. E* um novo leito de
202 Correspondência epistolar
Procusto mutilando, desconjunctando, violentando em sum-
ma todas as cousas.
Vêr os homens e os factos por este angulo estreito é
mentir á sua natureza complexa, querer apanhar os infini-
tos planos do firmamento por um binóculo.
E' certo que, em principio, a vida humana é inviolável,
que ninguém possue o direito de attentar contra o seu se-
melhante.
Mas o que corre igualmente por incontestável, é que a
legitima defeza constitue um direito tão sagrado e incon-
cusso como aquelles que se firmam na base mais solida.
E' que o direito e a justiça são recíprocos, que a minha
dignidade d'homem vale tanto como a dignidade d'outro,
e que toda a violação d'ella importa uma quebra de res-
peito, uma infracção das leis substanciaes e primordiaes,
alpha e omega da vida humana. N'estes termos assiste-me
o direito de repellir qualquer aggressào ás minhas faculdades
e dignidade, como obrigação de coagir o aggressor a resta-
belecer-se dentro do direito.
Posso matar para não morrer, e isto é tão obvio como
necessário. Observemos porém, como anteparo a certas
objecções, que a aggressão implica um sentido mais lato
que o vulgarmente attribuido áquella palavra.
Bastará lembrarmo-nos de que o homem se não define
como entidade simples mas eminentemente complexa, para
logo rastrear que a aggresaão se endereça umas vezes ás
suas faculdades anímicas, ao seu corpo, e outras ás suas
faculdades moraes; e portanto á defeza cabe uma justifica-
ção parallela em ambos os casos.
Um exemplo bem frisante d'este conceito nos avulta das
legislações penaes, referindo-se ao adultério em flagrante.
N'esta hypothese o marido, atraiçoado c vilipendiado na
sua honra e consciência commum, que o pacto conjugal
formara entre os dous esposos, tem o direito de matar
um ao outro dos delinquentes sem incorrer em pena, ou in-
correndo em pena levíssima, correccional.
E porque ? Acaso o adultero oífende ou aggride directa
Correfipottcienda epistolar 20 3
e physicamente a personalidade do marido enganado ? Nin-
guém o dirá ; mas em compensação o que todos me con-
fessam, depois de bem attentirem e reflectirem no caso, é
que a justiça, encarnada, organisada, representada, em sua
expressão indefectivel e puríssima, no par conjugal, padeceu
a máxima violação, foi rota e despedaçada infamemente
pelo esposo infiel e pelo seu cúmplice.
Aqui o homem defende a sua consciência e personalida-
de communs e por isso lhe confere a lei o direito de ma-
tar. Sophisma, argúcia escolástica ?
Cuidamos que só podem acoimar-nos d'esse vicio os
desattentos ou interessados na corrupção social, e ainda
os que ignoram as formosuras e excellencias do pacto con-
jugal, deprimido e abaixado ahi com o nome de contracto.
Os seus fins são outros e mais elevados do que geral-
mente Jhe assignam. Nem a procreaçào e educação dos fi-
lhos, embora esta circumstancia entre por muito na consti-
tuição do matrimonio, nem o mutuo adjutorio e vantagens
advindas por meio d'um contacto synallagmatico, respon-
dem cabalmente aos desígnios altíssimos d'esta formosíssi-
ma e sublime união. O casamento não é um contracto sy-
nallagmatico, porque estes contractos, segundo a sua no-
ção e essência, só podem dar-se entre seres respectivamen-
te completos, semelhantes na sua constituição, associando-
se ou tratando da permutação dos seus serviços e pro du-
etos.
Ora homem e mulher, equivalentes e iguaes perante
Deiís, são todavia diíferentes na sua constituição physica,
intelluctual e moral.
Esta differença consiste n'uma diminuição das energias
ou faculdades, diminuição sensível e evidente a quem es-
tude e observe despreoccupadamente a mulher, e que faz
com que um e outro sejam partes complementares d'um
todo orgânico, formando uma pessoa dotada de duas in-
telligencias e de duas vontades. Assim, acontece que, sob
o ponto de vista da dignidade, no foro interno, homem e
mulher são iguaes na união conjugal, mas perante a socie-
204 Correspondência epistolar
dade, e no foro externo, a mulher anda subordinada ao
marido.
Todos os códigos civilisados o estatuem e comprehen-
dem d'este modo, e segundo nós legitimamente, porque a
mulher não soffre confronto ao homem quanto á potencia
e alcance de faculdades manifestadas já na ordem indus-
trial e económica, já na ordem politica, philosophica e lit-
teraria, já na ordem jurídica.
O homem é forte^ a mulher \.çxíídi graça; o primeiro é tra-
balhador, administrador e chefe ; a segunda é menagere.
A belleza e 2i força attrahem-se, engendram o amor, e cons-
tituem o par conjugal, que desaperta n'uma unidade supe-
rior, instituída, segundo o direito, para o cumprimento dos
destinos sociaes.
D'aqui nasce que todo o attentado contra o matrimo-
nio importa uma violação immediatá da dignidade humana
que é commum aos esposos, e portanto o direito ou fa-
culdade de repellir mesmo pela morte o adultero em fla-
grante. Infelizmente hoje a corrupção de costumes lavra fun-
do, e uma tolerância degradante e objecta, que é a amnis-
tia reciproca de todas as solturas, vicios e crimes, abriga
com o frouxel macio das suas azas esta vasta canceráção
de familia.
Não é a vontade rancorosa de calumniar e denegrir o
século quem nos impõe estas asserções descortezes, quasi
grosseiras, mas a impudência do mesmo século que as anda
pompeando ahi do seu carro triumphal.
Vede a litteratura romântica e dramática, que ahi nos
servem por entre vaporações odoríferas, em vasos finamen-
te cinzelados, enfeitada com todas as mais custosas e ma-
gnificentes roupagens.
O que nos diz, o que exalta, o que levanta nos altares,
por entre as acclamações e sorrisos da multidão ?
O adultério, a prostituição, os mysterios d 'alcova, estas
claras e luminosas virtudes das decadencias, da podridão e
esphacelamento moral.
E querem saber o que respondem artistas e litteratos»
Correspondência epistolar 2o5
incriminados por alguma voz isolada, d estas tendências pa-
gãs e enervadoras de todo o senso moral e arlistico ? Res-
pondem que viram e estudaram os costumes e inclinações
do seu tempo, e escreveram por elles e por ellas os seus
livros ! A litteratura inculca-se por ahi sentenciosamente
como a expressão da sociedade, e se a proposição, deduzi-
do o que tem d'absoluto, traduz a verdade, o que have-
mos ajuizar d'esta época bemaventurada ?
Bem vindo seja pois o escriptor honrado e intrépido,
que desfita os olhos do tremedal em que fermenta a podri-
dão, para os levantar ás alturas limpidas e azues onde o
ideal resplende, fundido no direito e na justiça, coando os
seus fulgores immortaes através de todos os sentimentos
nobres e de todas as elevações generosas do espirito e do
caracter ! . . . ^
Vínhamos allegando como é que a sociedade abstendo-
se de perseguir o adultério, sem que o offendido promova
acção contra os violadores da fé jurada, reconhecia assim
frisante e eloquentemente a sua incompetência. E não é
que a integridade e pureza do matrimonio seja indifferente
ao progresso e manutenção^ da sociedade, cuja molécula
orgânica, cujo sol e luz é o pacto conjugal, senão porque
fia da natureza própria d'aquella união e das caracteristi-
cas relações do par conjugal, formando uma personalidade
inviolável e sagrada, a sua vigia e guarda d'elle. E tanto
assim é que a constituição social se modela em quasi todos
os seus institutos e regras pelas feições primordiaes da fa-
mília.
E' o seu máximo empenho conserval-a, rasgando os ho-
risontes á sua progressiva e luminosa expansão, prescre-
vendo todas as cautellas, e como que cingindo-a d'um an-
temural que a ponha a coberto das aggressões e embates
de fora.
Muitos dos pretendidos direitos com que ella se arma e
prevalece, como o direito de punir, por exemplo, das en-
tranhas d'esta união única o vai ella haurir.
O poder vitce et necis^ que na familia antiga segurava em
20Õ Correspondência epistolar
sua mão omnipotente o chefe de casa, como o feixe de raios
na mào de Júpiter, foi quem desfechou generaHsado e so-
berbo o direito de punir, que a sociedade converteu em
theoria e encarnou em facto.
Pondere-se agora que nós, sempre coherentes aos prin-
cipios estabelecidos, não vimos arrancar a punição á socie-
dade para gratificar com essa faculdade o individuo.
Quando o esposo ultrajado mata o cônjuge infiel, nào o
faz exercendo um direito de castigo que nào tem, mas em
nome da consciência e vida moral commum, atacadas e fe-
ridas em o seu nó vital.
Essa legitima deíeza da justiça organisada e represen-
tada no pacto conjugal é que o ultimo, ameaçado de de-
gradação e morte, repelle os violadores do direito na sua
fonte sacratissima. Porque a justiça, e o direito portanto,
sendo pela sua noção reciproca, dual, claro é que o indivi-
duo representa uma só face d'esse grande e indefectivel
principio d'onde o fluxo e refluxo eterno do oceano dos
seres se desata e espraia.
O sentimento da dignidade própria avulta só com um
dos termos da justiça, sendo mister duas consequências uni-
sonas para que ella se torne respeitável. E' por isso que a
justiça, a exemplo de todas as faculdades e potencias da
natureza e da vida, necessitando manifestar-se e nào ca-
bendo no individuo isoladamente, vai encontrar o seu órgão
no pacto conjugal, em que os dous pactuantes nào appare-
cem similares a fim de que se completem mutuamente, e
pela sua acção reciproca tornem possível e viva a socie-
dade.
Dilacerai agora violenta e traiçoeiramente aquelle laço
substancial, aquella união indesatavel, segundo o direito, e
vede como sahirá d'esse infame e atrocíssimo engenho de
trituração e vilipendio o segundo membro do par conju-
gal! ?
Que remédio e bálsamos lhe faculta e instilla a socie-
dade para o restaurar ? A separação e o castigo do esposo
infiel ?
Correspondência epistolar 107
Hypocrisia e singular impotência ! que é da familia, da
religião domestica, confessada a sua indignidade ? Se o ca-
samento é indissolúvel pois que é immutavel a consciência,
-que remédio fica ao cônjuge trahido senão a morte do trai-
dor?
Prove-se evidentemente o adultério perante os tribunaes,
-como o que o mata em legitima defeza deve provar que
matou n'aquellas condicções, que á opinião justa e esclare-
<:ida só resta, lamentando a catastrophe, absolver o desgra-
çado, apagando-lhe da fronte a maneha de sangue, que as
illusões d'uma sensibilidade exaltada e doentia apontavam
lá!...
Urge que as cousas sacratíssimas entre todas se aquila-
tem e respeitem como o que são.
O matrimonio é uma d'ellas, a suprema, a mais formosa
■e resplendente sobre todas as outras, e não pôde andar ahi
aos baldões, aos sopros malsàos de caprichos immoraes e
dissolventes.
Acto seriíssimo e decisivo da vida humana, não convém
que se determine levianamente, sobre o impulso febril de
paixões ou pendores julgados irresistíveis, e que a posse
desfaz e vaporisa em breve tempo.
A physiologia do amor resume-se em meia dúzia de li-
nhas, como profundamente escreve Proudhon. O amor
•cuja virtualidade está na geração, tem a sua causa plástica
e motriz no ideal.
Por elle o instincto orgânico levanta-se e purifica-se ar-
rebatando-nos nas azas de fogo do desejo por esses largos
paramos do céo, d'onde tantas vezes baqueia pela fadiga
da posse, n'um erotismo impudente e animal.
Não ha fixal-o no seu apogeu radiante, porque o ideal
nem é infinito nem immutavel. As illusões adelgaçam-se ; e
através do véo raro, que amanhã será fumo amargo a caus-
ticar-nos os olhos, entreveem-se os defeitos e jaca da mu-
lher crystallisada hontem.
O Ídolo desmaia, o nimbo luminoso que a transfigurava
-esvaece-se pouco a pouco, e o real começa. Passada a cri-
2o8 Correspondência epistolar
se, se a mulher, ou antes o pacto conjugal, não firma a sua
peanha de diamante na consciência e na virtude, que vai
ser a nossa insulaçào, que lancinantes espinhos nos não
vão rebentar debaixo dos pés ?
Bom é que o amor e o ideal illuminem todo o matrimo-
nio, mas sem usurpar e escurecer todos os outros elemen-
tos que devem constituil-o.
Lembremo-nos que não é elle o fim do casamento, como
romancistas e dramaturgos ahi preconisam e celebram á
compita em dithyrambos apaixonados.
Recordemos que esta palavra magica nem sequer aponta
na lei ou occorre á mente do legislador, regulando os di-
reitos, deveres e constituição do matrimonio, como quem
descobre que os destinos da sagrada instituição nada tem
a ver com a poesia erótica, com um sentimento ephemero,
mero episodio no drama da vida humana.
E' o que parece ter comprehendido Camillo C. Branco,
desenhando ou esculpindo vigorosamente aquella solemne
e trágica figura de Jorge de Mendanha.
Natureza elevada e generosa, exuberante d'instinctos
nobilíssimos e delicados, engrandecidos e fortificados por
uma larga cultura, grangeada no estudo dos livros e do ho-
mem, Jorge de Mendanha é um caracter^ no sentido genuí-
no e racional da palavra. Não é impeccavel porque é ho-
mem, e assim o vereis transigir com estas efflorescencias
derrancadas, que ahi se enroscam e bracejam á superficie
da sociedade, como erupções quasi necessárias das corren-
tes oppostas e variadas que atravessam as camadas sobre-
postas, que nascem da idade e desigualdade das condições
e meios, d'um complexo de circumstancias múltiplo e in-
conjuravel. *
Ha factos culposos, ha verduras e levezas, que nào ha
outro remédio senão perdoar, attenta a natureza humana,
e o desequilíbrio e desorganisação dos elementos sociaes
na actualidade. Se o mais justo pecca até sete vezes, na ex-
pressão biblica, o que diremos de tantos desgraçados sem
pão do corpo e pão do espirito, que as suggestões do amor
Correspondência epistolar 2og
e da necessidade, a indifferença, o abandono e até as injus-
tiças de seus semelhantes atiram ao vicio, á libertinagem, á
fraude, ás mil quedas a que os arrasta este desequilibrio e
vórtice terrivel que nos envolve ? A tolerância é necessária
acpnselha-nol-a por um lado o coração, e por outro o racio-
cinio.
Basta comprehender certas faltas e crimes até para os
absolver. Cremos que Jorge de Mendanha era um d'esses
tolerantes pelo sentimento e pela razão, incapaz de tomar
uma lente para esmiuçar e descobrir no fundo de cada acto,
na tela de cada vida, o acarus que aíistula as carnes.
Sem a philosophia estreita e sem entranhas de moralista
secco e hirto, Jorge de Mendanha devia ser comtudo impla-
cável e severissimo com os attentados odiosos e repulsivos,
que enlodassem e corrompessem a sociedade na sua matriz.
Crimes ha que nivelam o seu author com a besta-fera,
que o desauthoram da sua prerogativa d'homens, da sua
realeza sobre a creação.
Taes malefícios despojando-o da sua dignidade, e rom-
pendo os diques contra a podridão que vai alastrar-se sobre
todos os círculos sociaes, provocam da parte da sociedade
uma repressão vigilante e segura, que empeça a continua-
ção de taes incursões. Se for mister- a excommunhão do
perverso, excommunga-se, sacrificando o animal.
Ora o máximo d 'esses attentados, que resumem e con-
densam todos os grandes crimes, subversivos da justiça e
da organisação social, já dissemos que era o adultério,
aquelle mesmo para cuja repressão a sociedade se declara
sem voz nem força, logo que o offendido se resignar.
Poderá o marido atraiçoado resignar-se e submetter-se
facilmente á gargalheira odiosa e estranguladora do adul-
tério, quando a sua consciência e a razão, o sentimento e a
dignidade própria, a justiça em fim, principio intimo e
substancial de todo o seu ser, lei inflexível de todos os seus
movimentos livres, desce os círculos do inferno dantesco
arrastada pelos cabellos, com a sua purpura sagrada rota e
conspurcada de todas as infecções ?
voL, 11 14
210 Correspondência epistolar
Não pôde nem deve, se ainda se equilibra no seu pedes-
tal d'homem, intelligente, livre e consciente. Tudo se deve
sublevar e protestar n'elle, tudo quanto houver de sào e di-
gno. O sangue das vêas, as fibras- do peito, a razão, a cons-
ciência e o sentimento levantarão, formidáveis e desafoga-
dos, o seu accento d'indignação e agonia suprema.
O dilemma que lhe abre os seus braços, crispados e ter-
ríveis, para o confranger até á demência, é mais escuro e
intransitivo que o dilemma de Hamlet — o ser ou não ser !
Trata-se da vida na sua bella e larga accepçào moral,
da vida superior cuja tela radiosa e santa é o direito e a
justiça, e que não pôde continuar, porque lhe estão quei-
mando na chamma sulfurosa do escarneo e do vilipendio o
trama inteiro.
Que fazer, meu Deus, n'este lance das máximas angus-
tias, em que não ha molécula nem fibra de nossas entra-
nhas que não aperte e rasgue o annel d'espinhos que nos
cinge } Entregar os culpados á mão descarnada e fria da
lei, que pune, rindo da nossa boa fé e ingenuidade, da iné-
pcia e gaucherie com que nos deixamos atraiçoar } Confes-
sarmos á sociedade, nossa auxiliadora compadecida, o des~
soramento das nossas energias moraes, a impotência ridí-
cula e affrontosa da nossa dignidade, que não soube envi-
dar um esforço qualquer para a defeza e guarda da honra^
da familia, do coração, e da justiça feita carne na união
conjugal } A fraqueza, a mingoa de pundonor, a indifferen-
ça, o egoismo estreito e cobarde, que prefere todas as fal-
lencias moraes á incommodidade d'um movimento qual-
quer, desmanchando a symetria harmoniosa das suas roupas
de sybarita, esse transige com a lei, invoca-a, deita-se-lhe
no regaço emaciado, bebendo-lhe dos lábios a agua chilra,
que lhe servirá de néctar olympico á sede de . . . tranquil-
lidade !
Assim fazem muitos embuçados na toga magestosa de
não sei quantas virtudes, que por ahi calumniam com o no-
me de bom senso^ prudência e cordura.
Deixal-os ! o seu castigo d'elles não lhes vem da cons-
Correspondência epistolar 211
ciência adormecida pelas doses opiadas do bom senso e do
egoismo burguez, mas gruda-lh'o nas costas a opinião n'ura
rabo leva infamante e irrisório, que mais e mais lhe adhere
até entrar nas carnes vivas, apenas nas relações e mil inci-
dentes da vida batam de rosto contra alguns dos seus seme-
lhantes. Com eífeito, á minima collisão ou desaguisado, á
minima debilidade a que succumbe o complacente, logo o
espectro da humilhação e deshonra lh'o avivam e reenviam
todos os espelhos sociaes até lhe deslumbrarem os olhos...
Viver infamado e deshonrado embora sob o beneplácito
da lei não o consente o homem, que bem sinta o valor e al-
cance do Génesis quando refere que Deus fez o homem á
sua imagem e semelhança.
Escusado é que o sentimento da justiça resplenda vivo e
poderoso no santuário da consciência, basta ter coração e
entendimento, pôr o ouvido aos commentarios e apostillas
que a sociedade distilia longamente acerca d'estes actos.
Ou morto para todos os estímulos, ou estimulado pelas im-
periosas suggestões a definir heroicamente uma situação
absurda.
Se não mata, morre da morte moral para que não ha
resgate nem amnistia na munificência d'esta rainha do sé-
culo, e já agora de todos os séculos — a opinião.
E' verdade que matando, a mesma opinião entoa com-
movida e suffocada um threno cortante de magoas, alguma
cousa como
Rosa cTamor, rosa purpúrea e bella^
Quem adentre os goivos te Qsfolhott da campa ?
A victima tem as suas elegias, alcança um necrológio
d 'onde fulguram todas as virtudes por modo a escurecer a
nitidez e pureza das constellações.
A opinião padece d 'estas contradicções inexpHcaveis, o
que nada prova contra a sua lógica e bom juizo, e muito
encarece a sua maviosa sensibiHdade.
Que importa o desgraçado, com o seu coração feito pe-
212 Correspondência epistolar
daços, a sua consciência ultrajada, a sua honra e decoro
escorrendo lagrimas de sangue ? O que importa o seu futu-
ro esmagado, a familia despedaçada, a sua religião domes-
tica enxovalhada com o saitto dos santos tombado no fogo
ou nos lameiros da encruzilhada ? Matou, é carrasco, é
scelerado, é besta-fera, e tudo está dito !
Explique quem quizer este fluxo e refluxo da opinião,
que nós passaremos cortejando, protestando embora.
Em Jorge de Mendanha a honra e o sentimento da jus-
tiça era um instincto, antes de ser uma convicção inabalá-
vel, uma crença fervorosa, formada pelo raciocínio e pelo
coração.
Quando fez d'essa crença a religião positiva da sua vi-
da, Martha de Villasboas era o altar á espera da filhinha
que era o idolo — altar e idolo de que elle Jorge de Men-
danha era o sacerdote, como pai e esposo. Martha era boa,
santa e virtuosa; amava e era amada, estremecida com
quanta adoração e nobre enthusiasmo põe a f é c a felici-
dade no Deus que nos reparte a sua infinita graça. Jorge
tinha coração amantíssimo e generoso, e possuia uma intel-
ligencia elevada e poderosa, que é o ouro fino a realçar o
azul limpidissimo do firmamento vasto do amor.
Que mais queria e ambicionava a frágil Martha, para
encher a medida do seu coração de mulher ? Faltava-lhe o
peccado^ o fructo amargo que se desfaz em cinzas calcinan-
tes como as escorias do volcão, faltava-lhe o contraste pa-
ra bem saborear as doçuras que perdia, os philtros que en-
venenava ! Veio a serpente, afagada por ambos, e acoutou-
se nos recessos felizes da casa. Os seus movimentos oblí-
quos, as suas ondulações graciosas, o seu roçar macio, a
irradiação magnética que se evola em partículas invisíveis
e subtis do reptil, fascinaram a Eva quebradiça e fraca, e
perderam-na.
Quando Jorge de Mendanha viu a sua boa santa e virtuo-
sa Martha, enlaçada por aquellas espiraes infamissimas,
que lhe haviam apertado o coração d'clla, absorvendo-lhe
todos aquelles bálsamos onde restaurava a sua alma, onde
Correspondência epistolar 2i3
curava as suas feridas que o rude combate da existência
costuma abrir, quando viu tudo perdido, o seu éden açou-
tado pelas nortadas, as luzes do altar apagadas, o seu Ído-
lo, a filha, suspeita — não podendo desdar os nós da ser-
pente, que viva ou morta, só arrancaria de sobre Martha
com as suas carnes, o que havia de fazer o amante, o es-
poso, o representante da justiça, o sacerdote da religião
da familiar
Salval-a matando-a, salvar-se morrendo, talvez para o
futuro e para a felicidade ! e chamam a isto premeditação^
malvadez fria e calculada, só porque Jorge de Mendanha
escabujou e debateu-se 24 horas entre os impulsos do co-
ração e da honra, entre a procella ardente da paixão es-
tuosa e devoradora e os austeros e implacáveis accentos
da consciência e do dever ? Profundo esquecimento do que
é a natureza humana, incrível allucinação dos espíritos,
que antes de pensarem com a intelligencia dogmatisam
com a piedade, barata e fácil !
NOT/^ 2/
Um illustre advogado dos Açores, analysando o
Processo e julgamento de Vieira de Castro, escreve
as seguintes considerações fulminantes de justiça.
Foram reimpressas no continente. Ninguém as con-
trariou.
Ha bastante tempo dissemos nós algures que — pela mo-
ralidade e illustração dos tribunaes se aferia a decadência,
o progresso e a civilisação dos estados. Cada vez nos con-
vencemos mais d'esta grande verdade — confirmada pelo
tempo, pelos séculos, pela historia.
Quando os Alexandres talavam a Ásia, os Scipiões a
Africa, os Annibaes a Itália, e os bárbaros invadiam e es-
magavam Roma, já então senhora do mundo, a perversão
do funccionalismo, a perversão dos tribunaes e dos magis-
trados era horrorosa em taes paragens — ella foi a destrui-
ção do mundo antigo, como vai sendo a do mundo mo-
derno.
Dário symbolisa a um tempo a fraqueza e a suprema
corrupção moral.
A revolução franceza, que deslumbrara o mundo pela
intensidade da sua luz, mas que depois o ia crestando, ti-
Correspondência epistolar 2i5
vera como ponto de partida a corrupção dos seus funccio-
narios ; no governo do infeliz Luiz x\ i, até os cocheiros do
paço vendiam os officios públicos e as prebendas ! . . . e
foi ella, a corrupção, que matou a Polónia, desmoronou o
reino de Nápoles, exilou a Isabel das Hespanhas, provo-
cou a ruina da Gallia moderna, desacreditou a Roma de
nossos dias. e como que vai abafando até o desgraçado
Portugal.
Quando na própria capital da monarchia o jury dá de-
cisões como a com que tenta arrancar â sociedade um filho
como Vieira de Castro ... o desabamento da sociedade
deve estar próximo.
E a cidade applaudiu-a e a imprensa calou-se, ou antes,
especula. Porque } A moralidade não terá alli valor ou a
honra será uma utopia } !
Está sanccionado o adultério, a deshonra nacional ! Es-
tamos na Roma antiga, as matronas correm ás galerias
para verem immolar a victima que não gostou que a des-
honrassem, Lisboa não sobe ao capitólio nem pôde descer
á arena dos gladiadores, mas como a Grécia d'outras eras,
como a Itália das Lucrecias e como a França das Pompa-
dours, das du Barry e das Manons — no fonmt santifica o
adultério, as comparsas applaudem das galerias em quanto
os mais interessados, que são os maridos. . . o sanccionam,
reconhecendo a sua indignidade e a liberdade e a libertina-
gem das mulheres, partindo e para sempre os sagrados elos
da moral, da familia e da sociedade, e a imprensa folga e
forja pamphletos porque só mira o dinheiro ! Que perver-
são !
O cynismo e a deshonra como que se elevaram á triste
categoria de principio ! Orgia infernal ! E nem ha Juvenaes
que te descrevam ! .
Nd lugar onde a honra, o brio e a moralidade mais aus-
tera deveram ter um altar, profanam-se as aras e ergue-se
o cutelo destruidor das cadêas sociaes, mostra-se que a
honra não tem valor, que a sociedade despreza a moral,
21 6 Correspondência epistolar
que a lei que devia corrigir e exemplificar é letra morta,
a justiça uma mentira e a injuria o argumento ! Que deso-
lação !
Deshonra-se a victima, calumnia-se depois. . . e depois
immola-se ! Oh vergonha das vergonhas !
E houve um delegado que apodou a victima de pouco
religiosa ; fallou-lhe do papa, e alfim disse aos jurados que
a esmagassem porque já tinha praticado outros heroísmos
dignos d'aquelle. Que coragem !
Um tal procedimento não seria a maior affronta que se
podia cuspir á face d'uma capital onde a illustração e a
moralidade o ocupassem o primeiro lugar ? !
E como que isto fosse pouco, esse delegado invocou o
poder moderador e disse que elle salvaria a victima da es-
tupidez, da immoralidade ou da perversão dos jurados da
capital da monarchia ; d'essa terra onde as esposas não te-
rão obrigação de ser honradas nem os maridos d 'ora avan-
te o direito de lhes pedir contas dos seus crimes. Horror \
E um delegado que assim aífronta a moralidade e faz des-
cer os tribunaes abaixo de tudo, poderá continuar em tão
importante lugar .^ !
E a sogra d'esse infeliz, depois da filha o deshonrar, fol-
ga com a deshonra e manda perseguir e insultar o que ti-
vera a desgraça de ser seu genro ! Oh moralidade !
E houve um advogado que na phrase mais chula e bai-
xa lhe servia d'instrumento ! Como esta classe, outr'ora
tão admirada e nobre, hoje se vai aviltando ! A sociedade
dissolve-se !
Vieira de Castro teve a defeza mais nobre e mais com-
pleta que pôde imaginar-se. As suas testemunhas sahiram
dos homens mais considerados do paiz, e o seu defensor
era digno d'ellas. Provou-se o adultério á saciedade, a pai-
xão que Vieira de Castro nutria pela esposa indigna d'elle,
destruiram-se todas as grosserias e embustes d'accusação e
ainda assim o condemnaram. Isto nem pôde conceber-se I
E elle foi tão cavalheiro e extremamente delicado que não
teve uma palavra para desabonar a que alli o trouxera e o
Correspondência epistolar 21^
deshonrára ; não se quiz defender e até agradeceu a con-
demnação . . . Tal é o amor que o prende á vida !
Não obstante, accusadores em extremo boçaes jogaram-
Ihe toda a sorte d'improperios, e os filhos espúrios da im-
prensa, com a mira só no interesse, trataram de coordenar
folictilarios para mais lhe profundar as feridas e a dor que
lhe dilaceram a alma, em quanto o devia desaggravar, fa-
zendo valer a justiça moralisando os factos.
Nem se pejaram de cuspir á face d'um tal homem e em
taes circumstancias «que elle se desfizera da mulher porque
estava pobre ! » Infâmia das infâmias ! Não o estava, não
estava pobre e os pães são ricos ; os homens como Vieira
de Castro nunca são ou estão pobres.
E até se diz que o governo brazileiro influirá n'aquella
condemnação ! Não o podemos acreditar, mas se é verdade
importa a deshonra de dous povos !
Com eífeito, se não é crime ser honrado, republicano e
homem de sciencia, Vieira de Castro não será roubado á
familia e á sociedade. E, se o fôr, será vingado.
Se os tribunaes superiores não annullarem o processo e
um outro jury o absolver, o poder moderador, sempre ge-
neroso, ha de salval-o : temos quasi a certeza d'isto por-
que conhecemos o caracter bondoso e justiceiro do snr.
D. Luiz.
E comtudo, se nos indigna o procedimento dos jurados
e da sogra d'aquelle desventurado, não se pense que nos
indigna menos o procedimento do monstro que lhe abusou
da mulher, e não pouco nos magoa a infelicidade d'esta.
Nós já dissemos algures, que por via de regra, as mu-
lheres eram más porque os homens não são bons. A indi-
gnação que nos provoca o que nos parece grande injusti-
ça, não nos cega o entendimento. Se nos sangra o coração
pelas desgraças alheias, não é nosso intento desvirtuar os
factos, negar justiça ou desprestigial-a. Para o monstro
que viola o leito conjugal ainda os legisladores não desco-
briram pena condigna.
É preciso ter respeito pelos mortos, sabemos d'isto; mas,
2i8 Correspondência {epistolar
se cumpre deplorar os que morrem deshonrados, os olhos
não podem ser enxutos ante os que vivem deshonrados e
perseguidos, senão até calumniados !
E se a paixão pela verdade nos desmanda, discrimine-se
Lisboa e deposite-se toda a confiança nos seus tribunaes
superiores, porque a condemnação que nos indigna, porque
a suppomos destituída de todo o fundamento moral e ju-
rídico, não pôde deshonrar aquella ou estes, porque não
podem ser responsáveis nem cúmplices, por emquanto, do
erro ou da maldade dos jurados.
Confunde-nos pois a desgraça da mulher e do marido,
mas ante a lei e conveniências sociaes, daremos de mão a
tudo para collocar a questão sob o seu verdadeiro ponto de
vista moral e jurídico.
— O marido que encontrar a esposa em adultério e a ma-
tar e mais ao adultero, não a tendo excitado para tal cri-
me nem tendo, elle o marido, amante na casa conjugal —
será desterrado por seis mezes para fora da comarca. Art.
372.° do Código Penal.
Ora, se o marido, em taes circumstancias, pôde matar a
mulher e até o amante, porque os não ha de poder matar
depois.í* Em taes crimes, o acto, o delicto não é momentâneo :
odelicto acompanha os delinquentes, ferindo não só o indivi-
duo, mas a sociedade no que ella tem de mais bello, de mais
nobre e de mais santo, e por consequência o offendido deve
desaggravar-se sempre e quando poder a respeito do adul-
tério, que é o maior de todos os crimes.
A virgem quando se mancha, como que só a si se pre-
judica mas, a mulher casada e a viuva, oh ! sim, a viuva,
que é virgem duas vezes — se se mancha, deshonra os vivos
e os mortos, e a mulher casada é ainda mais virgem durante
o hymeneu e por isso não pôde ser violada de modo algum;
mas, se o fôr . . . nem ella nem o seu violador devem go-
zar da luz apôs o crime. As nódoas que mancham a honra,
sô com sangue se podem lavar !
Sabemos que em direito criminal não ha interpretação
extensiva e tão pouco se invocam os principios de philo-
Correspondência epistolar 21 g
sophia, mas ainda assim, na hypothese sujeita, suppomos
poder concluir e sem esforço pela afflrmativa; isto é, pela
morte do adultero ou adúlteros, ainda mesmo além do
adultério.
Quando a lei authorisa a morte n'aquelle acto é porque
não quer que a respeito da verdade d'elle fique a mais pe-
quena duvida : é isto e só isto !
,: Pois se o homem que fazia a melhor idéa de sua esposa
vem de fora e na melhor fé, mas ao entrar em sua casa de-
para com o acto que não esperava e que por isso o manie-
tou e não pode logo desaggravar-se, mesmo porque não
tinha armas ou eram inferiores ás do sicário da sua honra
e de toda a sua familia, ou porque mesmo lhe era inferior
em forças — não ha de ter o direito de o matar depois, com
a certeza d'um melhor resultado, e sem que por isso deva
ser outra a penalidade ?
^ Pois o marido que tem a certeza de que a esposa com-
metteu e commette adultério não se poderá desaggravar
depois só porque não observou o acto ? ! Pois se os factos
se deram tem menos força porque se não viram ? Pois os
factos não são os factos ? ! A questão reduz-se tão somente
á exactidão do facto. Desde que esta se der, desde que se
provar a máxima exactidão do facto não se pódeaggravar
a essência da verdade e tão pouco alterar por consequên-
cia as disposições penaes que o regem e o capitulam. Isto
é da mais simples intuição — está na própria letra da lei e
não ha quem possa convencer nos do contrario.
E se isto é assim — como é que um jury na capital da
monarchia descera tanto > ! Das misérias que se allegaram
contra Vieira de Castro nem uma se provou, e nem podiam
provar-se por inadmissiveis ! E onde a accusação se não
prova nem tem lugar a defeza. Isto é corrente. Não obs-
tante— a defeza foi a mais completa, a mais nobre, a mais
esplendida.
O nó gordio para um jury d' aqueWa. /orça consistia em
não ter o infeliz presenciado o adultério e ter-se dado a
a morte da esposa tempo depois! Parece-nos tão parva e
220 Correspondência epistolar
baixa esta exigência que até nos repugna responder-lhe !
Mas, quanto á primeira parte está respondida acima d'um
modo incontestável; quanto á segunda, até se devia folgar
em razão do offendido não ter presenciado o acto, prova-
do á saciedade até pelo procedimento do . . .
A lei só tem direito de exigir a verdade, e é por ella e
só por ella que os seus executores devem fazer obra. De-
mais— Vieira de Castro perdeu a cabeça desde que se con-
venceu do criminoso procedimento da esposa, e por con-
seguinte não teve nem podia ter mais consciência do que
fez, e assim é claro que o mal, se o houvesse, não lhe po-
dia ser imputado. Isto é trivialissimo.
Entenderiam aquelles jurados que o allucinado, e alluci-
nado por motivos de honra, devia até perder o movimen-
to ? ! Não lhe parceria bastante a descensão do homem á
triste condição d'automato ? ! Os autómatos não se pu-
nem.
Dez annos de degredo para a Africa ... O grande crime
de Vieira de Castro estará no seu assombroso talento ? E,
se é certo que elle chloroformisoti a mulher, não haverá
n'isto ainda um sentimento d'amor e de nobreza }
Convencido dos crimes d'ella, e assim, de que o instru-
mento de sua eterna deshonra não devia effectivamente
sobreviver no meio do seu desarranjo, sobre o horror da
sua situação quiz dar-lhe morte suave, e n'isto ha muita
nobreza, devemos dizel-o.
Elle não é criminoso perante a moral ou ante as leis hu-
manas; e assim, esconda a face o jury ignorante ou indigno
e a imprensa estúpida e mercenária, porque a verdade e a
justiça hão de triumphar. Não barateeis a honra porque
sem ella não pôde existir o mundo. A' maneira que ella
se abate afunda-se elle. Recordai-vos da Roma de Juvenal,
do baixo império!
Cerramos alíim estas linhas com os olhos afogueados e a
dôr no intimo d'alma ; mas também com a profunda con-
vicção de que o martyr será salvo.
Animo, infeliz ! Se a desgraça tem poucos amigos, ao me-
Correspondência epistolar 221
rito e á innocencia devem-se homenagens. Ainda ha quem
vele por ti e por ti se sacrifique, se tanto fôr preciso. A
verdadeira amizride nasce do coração, vive n'alma e como
ella é immortal. Esgota o cálix até ás fezes ! A infelicidade
é o crisol da vida humana.
A grandeza dos homens não se prova nem se firma sem
os embates da dor e da adversidade. Coragem !
Sher
NOTA 3/
Vieira de Castro refere-se ao prefacio do seu
bem pensado opúsculo Colónias, E' o seguinte :
A poderosa intelligencia do snr. José Cardoso Vieira de
Castro salvou-se da catastrophe.
A conjuração, aprofiada em perdel-o, conseguiu muito :
desterrou-o ; mas não saciou a sede nem ensanguentou á
farta os colmilhos famintos.
Vieira de Castro pensa lucidamente, escreve com a ele-
gância dos seus dias ditosos, pule primorosamente os pe-
ríodos, sobredoura os atavios das suas phrases imaginosas —
e talvez em demasia imaginosas n'outro tempo — com real-
ces de sobriedade nos recamos e de propriedade austera na
locução.
Certa gente, porque não comprehendeu a justiça do co-
ração assassinado, custou-lhe a perceber que a alma de
Vieira de Castro sahisse illesa das garras de sua desgraça.
Imaginavam, pois, que um homem, bom esposo, respei-
tador de sua mulher em si próprio, não podia tirar-se hon-
radamente d'um conflicto indescriptivel, sem ter perdido a
luz da razão.
Queriam que a demência precedesse a honra ou lhe suc-
cedesse.
Entendimento são, uma serie de raciocinios terrivelmen-
Correspondência epistolar 223
te luminosos a relampejarem no seio da treva cerrada da
maior desventura, razão illesa nos seus vinculos á honra, e
olhos bem abertos sobre o abysmo em que se despenhava,
isso é que raros aceitam na calamidade do nobilíssimo in-
feliz.
Os outros, o remanescente, a maioria não quer, não con-
sente que a honra se desforce com as faculdades do espirito
perfeitas. Não quer, porque estes exemplos mortificam e
abrem uns escrúpulos duvidosos de vergonha nas caras on-
de ella affixara edital de fallida ; não consente, porque os
costumes portuguezes são doces e angélicos : a honra dos
maridos não se admitte sem a demência anterior ou poste-
rior.
E' preciso que se explique n'uma enfermaria de doudos
o que não pôde explicar-se nos tribunaes.
Ora Vieira de Castro, convertendo em objecto de com-
miseração e sympathias uma senhora que elle poderia ati-
rar á ignominia e ás vaias da turba que a suífragou, dava
de si testemunho de Índole cruel ou de razão perdida.
A sociedade não podia aquilatar nem mais alto nem
mais Ínfimo o acto estrondoso, aggravado por outro feito de
requintada insânia: o entrar elle decentemente vestido n'um
cárcere, o sentar- se com apparencias de razão no banco dos
réos, o chorar umas lagrimas que não tinham de certo o
agro do remorso — lagrimas só dignas de serem vertidas na
presença de Deus e no seio de mãi — o defender a integri-
dade do seu juizo associando-o aos dehctos de seu coração.
Por tanto aquelle homem não ensandecera para ser. . . hon-
rado.
Suprema perversidade! O' jurados, ó juizes, ó maridos !
suprema perversidade! Condemnai-o em nome da mansidão
dos nossos hábitos e dos nossos maridos.
Condemnaram.
Mas dez annos de degredo ! que requinte de piedade !
que máu exemplo ! Não se dá a um homem honrado coroa
com tão poucos espinhos. Dez annos sem pátria, sem famí-
lia, sem direitos ! isso que monta }
224 Correspondência epistolar
Homens togados que tendes nos cabellos a cor candidis-
sima das consciências, venerandos anciãos que tendes filhas
e netas, vede se mataes no seio d 'esse padecente o espirito
viventissimo que ainda medita ao lado do coração morto •'
Atirai peçonha para dentro d'esse cálix. Emborcai-lh'o por
mão da justiça humana, se é que o esparto do verdugo não
pôde ataviar o accordam que ides lavrar.
Quinze annos ! o máximo, o mais que podieis ! Bem ve-
des que não podia acidular-se mais a esponja! Filhas e ne-
tas, beijai as mãos de vossos pães e avós ! Trasladai o
accordam, e pendur^i-o como painel no respaldo do leito
conjugal !
II
A litteratura amena parecia namorar-se do talento de
Vieira de Castro, e acaricial-o com formosas inspirações,
quando elle ingratamente se deixou enfeitiçar dos philtros
da politica. A Pagina da universidade^ os artigos do Atheneot
a biographia do signatário d'este prefacio, e outras menos
lembradas espécies de « humorismo > cáustico, foram sa-
crificadas aos discursos parlamentares com que Vieira de
Gastro colheu de sobresalto um dos primeiros e raríssimos
lugares da tribuna. E, porque não havia termos comparati-
vos das duas espécies litterarias, o escriptor foi pouco me-
nos que deslumbrado pelo oradar. Não podia deixar de ser.
A tribuna cerca-se de paixões fortes, e o livro ameno con-
vida meras curiosidades; a tribuna faz persuadir que os in-
teresses da pátria estão alli ; o livro é um engodo de ocio-
sidades, um brinquedo de espiritos serenos. E' por isso que
Vieira de Castro, publicista a intervallos em meia dúzia de
annos, não vingou sombra da gloria que o seguia ao sahir
do parlamento depois do seu primeiro discurso.
Estão impressos os discursos que levantaram tempesta-
des, sympathias, ódios, admirações.
Com que veneração os caudilhos dos bandos políticos
olhavam n'aquelle tempo para Vieira de Castro! Que in-
censos lhe vaporaram os acolytos das facções nas ambulas
Correspondência epistolar 22$
áo jornalismo! Que reptos de estylo pyndarico não sahiram
d'uns sujeitos que, volvidos dous annos, e cahido o orador
aos olhos d'elles, não tiveram palavra commemorativa do
talento do homem de bem, inculpado nas causas da sua que-
da ! Parece incrível que Deus quizesse fingir que dava in-
telligencia a tanto villão ! São estes uns biltres que resalta-
ram da podridão social, collocando-se debaixo dos pés do
primeiro gallego afortunado, e morderam o calcanhar da
honra abatida em lucta desigual com infames. Ah ! eu folgo
de lêr os artigos do Diário de Noticias e as correspondên-
cias do Commercio do Porto quando Vieira de Castro ti-
nha debaixo da mão a fortuna, e a perspectiva das pastas ;
mas que pungimentos e vergonhas — vergonhas á conta dos
thuriferarios — quando leio as petulâncias desbragadas que
se cuspiam na porta de um cárcere !
III
No cárcere, as horas do snr. Vieira de Castro, desde
que a Providencia lh'as serenou, são repartidas na convi-
vência de alguns admiráveis amigos, na meditação cujos
abysmos não sei medir, e no estudo de livros que não or-
çam pelas futilidades adequadas a entreter fora de si mes-
ma a alma excruciada. Vieira de Castro estuda, prosegue
methodicamente a pauta que havia imposto ao seu espirito
applicado á solução dos problemas sociaes, e á reparação
do abalado edifício da nossa um tanto fabulosa prosperi-
dade de outras eras.
D'esse estudo, afervorado pela religiosa e gratíssima
amizade que o liga ao snr. Pereira de Miranda, intelligen-
cia amadurecida na flor dos annos, procederam os artigos
acerca das nossas colónias, e adstrictos a um projecto de
lei apresentado ás cortes por aquelle insigne deputado.
Dous periódicos publicaram estes artigos, não precedidos
de encomiásticos «reclames» ; mas postos ahi sem apadri-
nhamento á consideração publica.
Eu por mim, inhabil para os aquilatar no seu interesse
VOL. u i5
22Ò Correspondência epistolar
substancial, consolei-me em júbilos, raros na minha vida,
lendo, e revendo as provas de um escripto do meu querido
amigo, que eu considerava insensível ao calor das idéas
generosas e ás suavidades do amor ao género humano, de-
pois de tão alanceado ter sido no peito para onde as almas
piedosas deviam ter olhado como para um sepulcro de
honradas cinzas.
Obriguei-me ao doce encargo de os enfeixar em um opús-
culo para que se leiam sem interrupções que desatam a ca-
dêa das idéas. Eil-os ahi estão com o duplo valor para mim
de terem sido clareiras de luz e socego na escura e oppres-
sa alma de um talento insigne entre os mais prestadios que
floreceram n'estes últimos dez annos, tão escassos de fructos
como afestoados de flores.
Sei que a perspicácia luminosa de alguns leitores d'es-
tes artigos, rastreou n'elles o intuito de grangearem sym-
pathias nos portuguezes das colónias africanas que mais
vantagens tem de auferir, se se realisarem as reformas in-
dicadas pelo snr. Vieira de Castro nas tarifas aduaneiras.
Não indagamos saber se s. exc.^ visava a esse escopo por
nos parecer banal a indagação, e por entendermos que nas
colónias e na metrópole a tal respeito se dividem as opi-
niões e as vontades. Por parte dos snrs. Vieira de Castro
e Pereira de Miranda é certo, porém, que o affecto e dedi-
cação ás pessoas e vantagens das colónias são antepostas
aos interesses da metrópole. Todavia, pôde a sã razão afou-
tamente esperar que em Africa se não degladiem legitimas
divergências no applauso d'cssc eloquentíssimo e sincero
brado a favor da emancipação colonial. N'estes artigos
transluz homenagem ao direito, á força, e á iniciativa por
vindoura dos portuguezes d'Africa; mas, distendendo a
idéa a mais universaes horisontes, o trabalho do previden-
te socialista parece de antemão saudar o direito eterno e
revindicado de todos os povos do futuro.
Correspondência epistolar 227
IV
Assim fecha Vieira de Castro este opúsculo :
«... E' o voto que ás altas aspirações de um grande ci-
dadão, e de um grande amigo, manda de uma ante-camara
de sepultura um homem que outra cousa não pede a Deus,
senão que lhe marque n'essas regiões, o mais breve que
ser possa, o lugar que lhe cumpre. >
Que pungentíssima ironia atirada á face da sua des-
graça !
O lugar que lhe cumpre !
Cumpria, meu nobre amigo, que na ante-camara da tua
sepultura nunca vasquejasse a luz com a qual visses bem
no rosto o opprobrio da tua orgulhosa alma, se, dado o
naufrágio que ahi te levou despedaçado, norteasses a tua
vida infame para onde os infames a marêam.
Quando te sentires pender a fronte para o seio, olha pa-
ra ti e imagina-te amarrado a dous postes de ignominia —
o da deshonra irremediável e o da desaffronta impossível.
Ou perdido perante o formidável juiz da tua consciên-
cia, ou isso que és.
Porto 24 de junho de 1871.
Camillo Castello Branco.
NOTA A:
A Consciência foi assim apreciada na imprensa do
Porto :
CONSCIÊNCIA
Eis o titulo significativo d'uma carta, que Samuel ende-
reça aos redactores das Farpas^ os snrs. Ramalho Ortigão
e Eça de Queiroz.
Esta carta corre impressa n'um folheto de 42 paginas e
brada eloquentemente com um grito triste, mas formosa-
mente sympathico, d'uma consciência magoada na sua deli-
cadeza d'arminho.
O seu author, recatado com o pseudonymo de Samuel^
é um espirito alto, de coração maior, e com um estylo for-
te, magestoso, opulento como uma larga flor de cactus, um
soberbo manto de purpura.
A sua voz atraiçoa-o, os revérberos da sua eloquência
illuminam-lhe o busto. Nomeie-o porém quem quizer, que
nós contentar-nos-hemos em saudal-o de longe com a alma,
que falia melhor e mais alto que os lábios.
N*esta carta não é uma doutrina, uma theoria ou a ra-
zão impessoal quem diz, mas um coração dorido, uma cons-
ciência honrada, que o fluxo e refluxo do mundo tenta afo-
gar e sumir nos rolos e dobras da sua espuma, no estron-
dear dos seus rumores ensurdecentes.
Devagar. Sepulte-se e esqueça o que deve passar, mas
Correspondência epistolar 22g
um sahe ao menos ao que o infortúnio baptisou com a sua
lingua de fogo.
Sigamos o torvelinho dos nossos cuidados, preoccupa-
ções, interesses, ódios e amores, mas seguremos, por entre
os baldões da tempestade, essa urna das cousas sagradas e
imperecedouras, mettamos esta eólia immortal das sete cor-
das, a alma humana — aos sopros embalsamados que vem
de cima, que por vezes cortam como um fio d'ouro, um fio
do céo, o trama revolto, emmaranhado da vida humana.
No homem ha duas memorias — uma resvaladia, perece-
doura, material — outra o contrario de tudo isto. Na pri-
meira escrevem-se os factos de todos os dias, os accidentes
e impressões triviaes. Na segunda guarda-se como n'um
sacrário o que vem da alma, de Deus, e que todos admira-
mos com o nome sacrosanto de heroísmo.
Este sentimento irresistivel, espontâneo, imperioso d'uma
alma que vê crescer em volta do seu rochedo d'Ajax, intré-
pido temerário em nome da justiça e da honra, a grande
vaga do mundo, a grande maré do esquecimento ; esse sen-
timento d'um espirito recto e pundonoroso, que vê cami-
nhar o esquecimento com as fauces hiantes, a sua cratera
de volcão a devoral-o, indifferentemente, como se fora um
producto natural, um detrictus, um pedaço de matéria inor-
gânica, eis o que arranca d'aquellas entranhas com protes-
to formidável, uma reclamação justíssima e fremente.
Traduzi aquelle grito, decompondo-o, e ouvireis que elle
vos diz :
«Attenção, moços ! que vos atiraes á corrente, ávidos e
frementes, para contar aos outros as misérias, ridículos e
parvulez das suas evoluções n'esta escola de natação. Vede
bem e escutai bem o que vos cerca, vos comprime, vos
acotovela.
«Apontai as tolices d'aquelle grupo, as impertinências
d'esse outro, e as infâmias, as protervias, e grosserias d'a-
quelle outro.
«Enterrai as vossas íarpas que não tendes Achilles que
23o Correspondência epistolar
vol-as cuspam do calcanhar. Isso ahi está bem podre, mas
anda bem enfeitado.
«Nada de leviandades, de relances d'olhos : tomai do mi-
croscópio, esquadrinhai, investigai, batei todas as moutas,
arregaçai as vistosas roupagens que dissimulam tanta pús-
tula. Só assim é que podereis ser justos, proceder com scien-
cia e consciência, e glorificar-nos na vossa obra.
«Distrahir-vos pois, furtar os olhos de certo espectácu-
lo cuja revelação vos traria desgostos e contrariedades,
oh ! essa fraqueza difíicilmente se resgata, porque as victi-
mas olhando em si as vêas rotas e olhando os outros, talha-
dos em igual padrão, sãos e escorreitos, desviando com os
seus gestos e caricias, sorrisos e complacências as vossas
farpas^ desauthorarão o vosso bom senso e a vossa verda-
de, que é desigual, caprichosa e injusta !»
Samuel parece querer advertir aqui Ho aos rapazes deste-
midos, aos sympathicos paladinos do bom senso e da justi-
ça, os dous franco-atiradores que fazem a guerra á torpeza,
á immoralidade e ao Protheu da toliee humana por sua
conta.
Para que a sua advertência não seja uma abstracção,
mas alguma cousa que lhes falle á sua musa impressiona-
vel, traz-lhes para defronte um exemplo vivo, concreto, pal-
pitante, um facto que elle viu, que o indignou, que lhe vi-
brou as cordas mais altas do seu espirito.
Foi o ultraje, uma zombaria villà, uma beta de sulfur
candente que distillaram sobre a ferida sempre viva d'um
grande desgraçado, no anniversario da sua catastrophe.
A indignação por essa brutalidade atroz, jogada a um
infortúnio respeitável, foi ella a que levantou uma proposi-
ção das Farpas^ em que se enthronisa a mulher portugue-
za muito acima do homem do mesmo paiz, e converteu um
facto particular n'um attributo, n'uma manifestação gené-
rica e normal da mulher de cá !
Perdoemos o exagero instigado pela mola impetuosa da
paixão, do sentimento pessoal.
Correspondência epistolar 23i
Não discutamos se os portuguezes valem muito mais que
as portuguezas, mas não esqueçamos que se a mulher entre
nós, como em parte alguma, não é «o typo intolerante,
avaro, bulhento, que flagella tudo e a todos, que berra aos
pobres que batem á porta em nome de Deus, que castiga
brutalmente as criancinhas que estão alli em nome do céo,
por causa de quem sahem para a rua os criados velhos que
alli ficaram pelos antepassados ; que não tem afagos e bons
modos senão para duas creaturas da casa, uma refinada-
mente ingrata : o gato ; outra bestialmente immunda ; o
porco», — algumas ha que não destoam d'aquelle espécimen.
Pois sejamos despiedosos com ellas, mormente se essas
trazem a pelle coberta com sedas de Lyon, e tem á porta
dos infelizes que assim ultrajam um landeau armoriado...
Mais nada por hoje, além do agradecimento que vota-
mos ao author da Carta pela sua delicada offerta.
{Primeiro de Janeiro).
Acaba de publicar-se um opúsculo que tem tido aqui
justa e legitima voga. Refiro-me á carta que com o titulo
de Consciência^ dirige um tal Samuel aos authores das Far-
pas.
Começa por estar primorosamente escripta, escripta com
elegância, vigor, brilhantismo, escripta com talento. Outra
feição d'este opúsculo é o tom da convicção, convicção aus-
tera e profunda, em que todo elle está escripto.
Sem querermos entrar no pleito entre Samuel e os au-
thores das Farpas^ sem querermos saber qual dos conten-
dores tem razão, não podemos todavia deixar de citar o ar-
dor persuasivo com que o author da Consciência desen-
volve e demonstra as suas proposições, ardor de homem
convicto e que ama a liberdade, o direito e a justiça.
Nota-se isto particularmente na parte do opúsculo em
232 Correspondência epistolar
que o Samuel mette o alvião da sua analyse e da sua criti-
ca aos velhos edifícios da monarchia e do catholicismo.
A Consciência é evidentemente um escripto fadado para
a popularidade e para o successo^ permittam-me a expres-
são, que não pode ser mais afrancezada. Quando se trata
de ser jovial, perspicaz, perspicaz na observação, jovial na
alegria, o Samuel larga a penna do critico, do moralista,
do philosopho, e apurando a do escriptor humorista, traça
um parallelo graciosíssimo entre o homem do campo e a
mulher do campo, entre o chapéo do litterato e o chapéo
da mulher do litterato.
Esquecia me indicar uma cousa que ha de dar grande
venda ao opúsculo — a revelação d'um incidente em que
figura um homem (murmura-se que o Samuel é elle mesmo)
cujo infortúnio despertou, especialmente n'essa cidade, on-
de elle tem muitos amigos, um sentimento quasi unanime
de piedosa sympathia. E' um verdadeiro escândalo que teve
por theatro a cadêa do Limoeiro no dia da communhào
dos presos. Recommendo-lhes o opúsculo.
(Correspondente de Lisboa ao Primeiro de Janeiro).
Todos os periódicos de Lisboa, exceptuados os
que ainda estavam no prazo do seu aluguer, falla-
ram d'este opúsculo com respeito, sem ousar ferir
o author com a compaixão.
FIM DAS NOTAS AO VOLUME SEGUNDO E ULTIMO
J. P, OLIVEIRA MARTINS
OBRAS COMPLETAS
I. Historia nacional:
Historia da civilisação ibeeica, 4.* ed. (1897), 1 vol. br. 700 rs. Ene. 900.
Historia de Pohtuoai., 6.» ed. (1901), 2 vol., br. 1^400 rs. Ene. 1^800.
O Brazil b as colónias portuguezas, 3.* ed. (1888), 1 vol., br. 700 ra. Ene. 90(-.
Portugal contemporakeo, 3.* ed. (1895), 2 vol., br. 2^1000 rs. Ene. 2^400.
Portugal nos mares, (1889), l vol,, br. 700 rs. Ene. 900.
Camões, os Lusíadas e a renascença em Portugal, (1891). 1 vol., br. 600 rs.
Ene. 800.
Naveoaciones y descubrimientos de los portugueses, (ed. do Ateneo de Madrid,
1892), 1 vol. (não entrou no eommercio.)
A VIDA DE NuK'ALVARES, 2.* ed. (1894), 1 vol., br. 2^000 rs. Cart. 2^400. Ene. (fo-
lhas doiradas) 3^200.
Os FILHOS DB D. JoÃo I, 2.* ed., 2 vol., br. 1<J400 rs. Ene. 1^9800 rs.
O Príncipe pertbito, (1895) 1 vol., br. 2^000 rs. Encad., folhas doiradas, 3^200 rs
II. Historia geral:
Elemeittos de anthropologia, 4.* ed. (1895), 1 vol., br. 700 rs. Ene. 900.
As raças humanas e a civilisação primitiva, 2 vol., br. 1<?400 rs. Ene. 1^800 rs
Systema dos mtthos religiosos, 2.* ed. (1895) 1 vol., br. 800 rs. Ene. 1^000.
Quadro das instituições primitivas, 2.* ed. (1893) 1 vol., br. 700 rs. Ene. 900.
O regime das riquezas, 2.* ed. (1894), 1 vol., br. 600 rs. Ene. 800.
Historia da republica romana, 2." ed., 1897, 2 vol., br. 2^000 rs. Ene. 2^1400.
O HELLENISMO E A CIVILISAÇÃO CHRI3TÃ, 2.* ed., 1 vol. br. 800 rs. Enc. 1^000 rs.
Taboasde chronologia b*qeographia HISTÓRICA, (1884), 1 vol., br. l^JOOO rs. En-
cadernado 1^200.
III. Varia:
A CIRCULAÇÃO fiduciária, 2.* ed., 1 vol. br. 800 rs. Ene. IjjOOO rs.
A BEORGANISAÇÃO DO Banco DE PORTUGAL, opusculo, (1877) br. 150 rs.
o ARTIGO «Banco» no Diccionario Universal Portuguez, (1877), 1 vol , br. 500 rs.
Politica e economia nacional, (1885), 1 vol., br. 700 rs.
Projecto de lei de fomento rural, apresentado à camará doa deputados na sessão
de Í887, 1 vol., br. 300 rs.
Elogio histórico de Anselmo J. Braamcamp, ed. part. (1886), 1 vol. (esgotado).
Theophilo Braga e o Cancioneiro, opúsculo, (1869) esgotndo.
O Socialismo, (1872-3), 2 vol., br. 1^200. (Esgotado)
As ELEIÇÕES, opúsculo, (1878), br. 200 rs.
Carteira de um jornalista : I. Portugal em Africa, (1891), 1 vol., br. 400 rs.
Inglaterra de hoje, cartas de um viajante, 2.* ed., (1894), 1 vol., br. 600 rs.
Enc. 800.
Oartas peninsulares, (1895), 1 vol. br. 600 rs. Enc. 800 rs.
Parceria António Maria Pereira
LIVRARIA EDITORIA
Rna Angnsta, 60, 02 e 64 — LISBOA
Obras de José Quintino Travassos Lopes
Nova grammatica elementar da lingua portu-
gueza9 redigida segundo as theorias modernas, e contendo
quadros synopticos muito úteis, cart. 160 réis.
Compendio de arithmetica e systema métrico,
28.* edição, contendo 29 gravuras e mais de 2.000 exerci-
dos e problemas, reformado segundo os actuaes program-
mas, br. 200 réis, cart. 280 réis.
Resumo de arithmetica e systema métrico, 5.*
edição, muito augmentada e contendo 13 gravuras, appro-
vado pelo antigo conselho superior de instrucçâo publica,
br. 100 réis, cart. 180 réis.
Dois mil exercícios e problemas de arithmeti-
ca e systema métrico» abrangendo os programmas do
ensino elementar e complementar, em br. 160 rs., cart. 240 r«.
Compendio de historia pátria, 13.* edição, refor-
mada, e contendo no fim uma noticia resumida dos factos
principaes de cada reinado, br. 160 réis, cart. 240 réis.
Compendio de historia sagrada, 2.* edição, illus-
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lho superior de instrucçâo publica, br. 160 réis, cart, 240 rs.
Leituras Correntes e Intuitivas : primeiras li-
ções sobre objectos. — 1." parte, 9.» ediçfso, muito
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creanças de 7 a 9 annos, br. 160 réis, cart. 240 réis ; com
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Leituras Correntes e Intuitivas: primeiras li-
ções sobre objectos.— 2.* parte, 6.* edição, ornada com
gravuras e vinhetas, dedicada ás creanças de 10 a 12 annos,
br. 160 réis, cart. 240 réis; com encad. de luxo, para pré-
mios e brindes, 360 réis.
Leituras Correntes e Intuitivas, obra adoptada
para o ensino official primário, 300 réis, cart.
Historias de animaes^ sua vida, costumes, ane-
cdotas, fabulas, etc. — noções amenas de zoolo-
gia para creanças — lições sobre objectos, 3 volu
mes, obra interessantíssima, ornada com 400 gravuras e
vinhetas, br. 200 réis cada volume, cart. 280 réis ; com en
cad. de luxo, para prémios e brindes, 400 réis.
Os contos da avozinha, coUecção illustrada de his-
torias, lendas, fabulas e contos, com 300 gravuras, 3 vo-
lumes, br. i60 réis, cart. 240 réis, com encad. de luxo,
para prémios e brindes, 360 réis cada volume.
Noções elementares de geometria intuitiva, con
tendo 97 gravuras, br. 100 réis, cart. 180 réis.
Grammatica elementar da lingua portugueza,
22.« edição, br. 160 réis, cart. 240 réis.
Parceria António Maria Pereira — Livraria-editora
Rua Augusta, 50, 52 • 54 — LISBOA
Enfeakelro m»ehliilBta, eapltio-tenente graduado da Armada
INDISPINSATEIS 1 INDUSTRIAES, OPERÁRIOS, ENGENHEIROS, ARCHITECTOS, RC.
Engenheiro (O) d'algibeira, livro portátil e utilissimo,
espécie de vademecum^ onde se acham compendiadas grande
quantidade de formulas e dados práticos com applicação á
engenheria nos eeus differentes rarros; 3.* edição muito
augmentada. Este livro deve ser o companheiro indispen
sável do contra- mestre, do mestre, do architecto e final-
mente do engenheiro; para todos tem matéria útil. Livrinho
nitidamente impresso, contendo mais de 150 tabeliãs. —
Preço 800 réis br., 1|;000 réis ene.
Guia do fogueiro conductor de machinas de va-
por, approvado pela associação dop engenheiros civis por-
tugueses. Livro escripto expressamente para servir de en-
sinamento pratico aos fogueiros, e em harmonia com a
portaria do ministério da marinha que obriga esta classe
de individuos a serem examinados. Contém 230 paginas
em S* francez, com bastantes gravuras intercaladas no
texto e duas bellas estampas, 2.* edição. — Preço 800 rs. br.,
li^lOO réis ene.
Guia de mechanica pratica, precedida de noções ele-
mentares de arithmetica^ álgebra e geometria indispensá-
veis para facilitar a resolução dos diversos problemas de
mechanica. Volume de 557 paginas em oitavo francez, ni-
tidamente impresso, contendo mais de cem gravuras inter-
caladas no texto e cinco bellas estampas no íim. Livro
indispensável, não só aos industriacs, mas a todos os indi-
viduos que desejarem pôr em pratica quaes (uer trabalhos
mechanicos. — 6.* edição. Preço J ^600 rs. br., 1|1900 rs. ene.
Manual elementar e pratico sobre macliinas de
vapor maritimas antigas e modernas, com-
preliendendo as de dupla, tríplice e quadru-
pla expansão —Livro utilisnmo para quem precisa
fazer algum estudo sobre machinas mariíimas, construil-as,
mandal-âs construir, ou dirigil-as. Vol. de 420 pag. em 8.®
francez, contendo 40 gravuras intercaladas no texto e 2
magnificas estampas. Os engenheiros machinistas encon-
trarão n'este livro indicações de grande utilidade para o
desempenho da sua difficil missão. Preço 2^1000 réi» br.,
2^400 réis ene.
Manual de noções elementares de technologia.
Livro utilissimo para todos os que se dedicam á industria,
e tratando dos seguintes assumptos: — Madeiras. — Ro-
chas e pedras. — Carvão. — Metaes. — Matérias textis. —
Construcções. Adornado de muitas gravuras explicativas.
Preço 600 réis br., 700 réis ene.
Opúsculo acerca das machinas mixtas de alta ©
baixa pressão, applicadas aos navios movidos a vapor.
2." ecUgào,_Pr«ço^600 réu br., 800 réis ene.
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